estou lendo um livro já faz 6 meses. ou mais. já perdi as contas. sim, pasmem, mas essa é a verdade. esses dias, nesse livro, o autor descreveu um personagem da seguinte forma: “entrou na sala um homem de aparência ordinária e comum”. fiquei eu a imaginar o que seria uma aparência ordinária e comum.
tipo minha vida? quem sabe.
já fui demitida umas 3 vezes. já pedi demissão umas 4. a empresa que estou a mais tempo é a minha, há 3 anos. e quase já me demiti. ou pedi demissão de mim mesma. liquidez? bauman? sei lá.
nunca ganhei um prêmio. nem pretendo. mas se ganhar ficarei feliz e irei comemorar com uma garrafa de vinho. ou várias. socialmente, claro.
agora lembrei que já fui campeã de alguns campeonatos de futebol. isso conta como prêmio?
tenho alguns dons inúteis. um exemplo é decorar números facilmente. alguém tem ideia do pra que isso serve? outro é equilibrar o copo (de cerveja) na cabeça e dançar. e quando conto tudo isso (sim, eu conto) as pessoas geralmente começam a procurar algum significado. simplesmente não tem.
se alguém me perguntar qual foi minha maior conquista profissional eu vou responder que é conseguir trabalhar da praia. com certeza absoluta. mas quem sabe não seria isso que esse alguém gostaria de ouvir.
em 2020 e 2021 trabalhei pra kct. este ano as coisas não estão tão favoráveis. pra isso. pra outras estão. afinal, tá tudo certo na bahia.
neste momento minha casa está um caos. e às vezes me pego pensando que minha vida poderia muito bem ser um daqueles filmes americanos, comuns e ordinários? onde a história se resume em um ser humano (ordinário e comum?) fracassado que dá a volta por cima, consegue se dar bem no trabalho, na vida amorosa, na vida familiar e é “feliz pra sempre”. e aí logo depois eu me pergunto, quando é a hora que eu dou a volta por cima?
quem sabe eu já tenha dado. quem sabe ainda faltem algumas.
estou ouvindo Paulo Diniz enquanto escrevo este texto. fui pesquisar de onde ele era e descobri que o cantor faleceu faz um mês. pernambucano, aliás. estou viciada na música “I wanna to go back to Bahia”.
há quem diga que não sou muito ambiciosa. e não sou mesmo. há quem ache isso estranho. será que todo mundo precisa ser ambicioso?
bom, no final das contas, no final do dia, o melhor de tudo isso é que, na maioria das vezes, consigo rir da minha vida. com a minha vida. às vezes ordinária e comum. às vezes maravilhosamente linda e EXTRAordinária.
entre tantas capas, máscaras, filtros, CEO´s, founders, foguetes que não dão ré, gurus, desenhos de iceberg e outros títulos e loucuras em que vivemos, que insistimos em nos colocar, quem sabe para escondermos nossa ordinariedade, quem sabe como uma forma de não aceitação para o quão comum é a nossa vida, ou para fingirmos ambiciosidade (porque né, quem não é ambicioso não vai pra frente), o melhor mesmo é quando conseguimos nos reconhecer para nós mesmos. quando conseguimos deitar à noite e, simplesmente, dormir. porque já não precisamos provar mais nada pra ninguém. temos tudo o que precisamos quando fechamos os olhos.
ordinário e comum nunca foram características vistas com bons olhos. mas dá um alívio quando aceitamos que isso também faz parte da vida. impermanente, imperfeita, incompleta (e imperdível).
mas espero que eu consiga completar meu livro antes de 2023.

