ordinária e comum

estou lendo um livro já faz 6 meses. ou mais. já perdi as contas. sim, pasmem, mas essa é a verdade. esses dias, nesse livro, o autor descreveu um personagem da seguinte forma: “entrou na sala um homem de aparência ordinária e comum”. fiquei eu a imaginar o que seria uma aparência ordinária e comum.

tipo minha vida? quem sabe. 

já fui demitida umas 3 vezes. já pedi demissão umas 4. a empresa que estou a mais tempo é a minha, há 3 anos. e quase já me demiti. ou pedi demissão de mim mesma. liquidez? bauman? sei lá.

nunca ganhei um prêmio. nem pretendo. mas se ganhar ficarei feliz e irei comemorar com uma garrafa de vinho. ou várias. socialmente, claro. 

agora lembrei que já fui campeã de alguns campeonatos de futebol. isso conta como prêmio?

tenho alguns dons inúteis. um exemplo é decorar números facilmente. alguém tem ideia do pra que isso serve? outro é equilibrar o copo (de cerveja) na cabeça e dançar. e quando conto tudo isso (sim, eu conto) as pessoas geralmente começam a procurar algum significado. simplesmente não tem.

se alguém me perguntar qual foi minha maior conquista profissional eu vou responder que é conseguir trabalhar da praia. com certeza absoluta. mas quem sabe não seria isso que esse alguém gostaria de ouvir.

em 2020 e 2021 trabalhei pra kct. este ano as coisas não estão tão favoráveis. pra isso. pra outras estão. afinal, tá tudo certo na bahia.

neste momento minha casa está um caos. e às vezes me pego pensando que minha vida poderia muito bem ser um daqueles filmes americanos, comuns e ordinários? onde a história se resume em um ser humano (ordinário e comum?) fracassado que dá a volta por cima, consegue se dar bem no trabalho, na vida amorosa, na vida familiar e é “feliz pra sempre”. e aí logo depois eu me pergunto, quando é a hora que eu dou a volta por cima?

quem sabe eu já tenha dado. quem sabe ainda faltem algumas. 

estou ouvindo Paulo Diniz enquanto escrevo este texto. fui pesquisar de onde ele era e descobri que o cantor faleceu faz um mês. pernambucano, aliás. estou viciada na música “I wanna to go back to Bahia”. 

há quem diga que não sou muito ambiciosa. e não sou mesmo. há quem ache isso estranho. será que todo mundo precisa ser ambicioso?

bom, no final das contas, no final do dia, o melhor de tudo isso é que, na maioria das vezes, consigo rir da minha vida. com a minha vida. às vezes ordinária e comum. às vezes maravilhosamente linda e EXTRAordinária. 

entre tantas capas, máscaras, filtros, CEO´s, founders, foguetes que não dão ré, gurus, desenhos de iceberg e outros títulos e loucuras em que vivemos, que insistimos em nos colocar, quem sabe para escondermos nossa ordinariedade, quem sabe como uma forma de não aceitação para o quão comum é a nossa vida, ou para fingirmos ambiciosidade (porque né, quem não é ambicioso não vai pra frente), o melhor mesmo é quando conseguimos nos reconhecer para nós mesmos. quando conseguimos deitar à noite e, simplesmente, dormir. porque já não precisamos provar mais nada pra ninguém. temos tudo o que precisamos quando fechamos os olhos. 

ordinário e comum nunca foram características vistas com bons olhos. mas dá um alívio quando aceitamos que isso também faz parte da vida. impermanente, imperfeita, incompleta (e imperdível).

mas espero que eu consiga completar meu livro antes de 2023.

tornando-me mulher

eu gosto de assistir séries de suspense e terror. mas a última que eu assisti me arrepiou a alma. me apavorou. me fez chorar. de desespero. de raiva. de desconforto. de semelhança.

chama-se “o conto da aia”, ou: the handmaid’s tale. uma série em que, em um certo local dos EUA, as mulheres acabam perdendo todos os direitos, inclusive o de dirigir, e ficam prisioneiras de um sistema patriarcal, no qual ninguém é feliz. coincidência é mera realidade.

eu tive a sorte de ter uma mãe que lutou pela minha liberdade. me ensinou desde muito cedo a ser independente. lembro que um dia eu ousei reclamar disso pra ela: “mãe, você me largou muito no mundo, tive que aprender tudo sozinha” – ou, ao menos, era isso que eu pensava. minha mãe respondeu dizendo que foi pra isso que ela teve uma filha, oras (kkk). 

“eu sempre quis ter uma menina pra que ela fosse independente. que tivesse liberdade e soubesse se defender. diferente de mim, que sempre fui um “bicho do mato”. (sim, pra quem conheceu minha mãe, nunca diria que ela era um bicho do mato).

considero essa, uma das belas curas que tive com minha mãe ainda viva. digo ainda viva, porque mesmo depois que ela deixou a gente aqui na terra, eu lembro dos ensinamentos que ela quis me passar e eu não entendia.

minha mãe me fez ter carteira de motorista. mesmo eu não querendo ter carro, ela me disse: vai fazer sim, porque um dia você vai precisar. você precisa dessa autonomia também.

eu nunca gostei muito de dirigir. e sempre achei uma loucura pegar o carro e dirigir por estradas totalmente desconhecidas, sem muita (nenhuma) experiência, como é o meu caso. mas eis que decidi fazer bom (há quem duvide do termo “bom” aqui) uso da minha carteira de motorista. usei o privilégio dessa autonomia para fazer aquilo que meu coração queria. não foi o caminho mais fácil. foi um dos mais desafiadores. uma mudança de rumo que nem eu contava. tudo porque eu estava atenta para a vida. e, devo dizer, que essa atenção se deu por alguns motivos:

  1. me dei tempo pra parar e pensar no que eu realmente queria. lá no fundo. mesmo que fosse difícil. (tirei férias e saí do meu automático, pra ser mais específica – mas há outras formas)
  2. lembrei da minha mãe, da minha ancestralidade e da nossa eterna luta por liberdade e respeito
  3. assistindo a série, entre outros pesadelos que vieram a tona, pensei que “deus me dibre” não poder dirigir. credo. vam simbora.

aluguei um carro, joguei minhas coisas dentro e me vim pra bahêa. por estradas completamente desconhecidas, sem muita (nenhuma) experiência. obriguei minha gata a vir comigo também. (ela passa bem e feliz).

quero, um dia, que TODAS as mulheres possam ser tão livres e independentes quanto minha mãe gostaria que eu fosse. e como me senti vindo pra cá. e que The Handmaid’s Tale seja só uma história de terror que fica cada vez mais no passado.

já faz alguns meses (vidas) que meu coração é baiano. 

recomendo.

Andei só

meu avô, em quase toda vez que nos encontramos, naquelas conversas de “e os namorados?”, nas quais eu me pego respondendo, pra não causar muito alvoroço, “quem sabe um dia, vô”, me fala que o ser humano não nasceu pra viver sozinho. que a gente precisa “ter alguém”. senão, não tem como viver não.

faz algum tempo, lá em curitiba ainda, nos tempos áureos antes da pandemia, que decidi sair do apartamento compartilhado por anos com amigas e morar sozinha. não que eu não goste de pessoas. pelo contrário. mas queria ver como era, curiosa e inquieta que sou. 

os primeiros meses foram difíceis. depois… bom, depois piorou. passei um tempo na casa do meu pai, por força do destino, do bolso e da pandemia. na maior parte do tempo fui muito feliz morando com pessoas novamente. 

mas, agora, cá estou eu.

quando eu decidi vir morar por aqui, sozinha, por estas bandas que chamamos carinhosamente de Nordeste meu país, bem longe da minha família e velhos amigos, a quase um ano atrás, eu não imaginava o tanto de movimento que eu ia causar na minha vida. na verdade, eu não imaginei muita coisa.

e dessa vez, os primeiros meses não foram muito diferentes dos meses que passei em curitiba (kkk). tirando o fato de eu já estar um pouco (quinho) mais experiente. mesmo assim era como se a vida tivesse me pegado pelos pés, me virado de ponta cabeça e me chacoalhado de um lado pro outro, sem parar. rodopiando. chegou um momento que eu comecei a ficar enjoada. e, até então, não sabia do que. não sabia que eu mesma tinha autorizado a vida a me chacoalhar. que quando a gente se movimenta, tudo ao nosso redor também se movimenta.

então, procurei uma loja de produtos naturais e comprei quase 2 kg de chás variados, pela internet. logicamente eu também não sabia que quase 2kg de chás variados era MUITO chá. quando o moço me entregou a sacola ele já me entregou rindo. e eu, um pouco assustada pela quantidade, disse: bom, agora eu tenho chá pra um ano. porém, agora já acredito que seja pra dois anos.

claro, depois disso eu também voltei pra terapia. 

passei meu aniversário sozinha. e, sim, me senti sozinha. decidi andar de bicicleta pelos arredores do paraíso que eu estava morando. em um final de semana, andei 22km. voltei bêbada e quebrei meu telefone. mas, por sorte, fiquei inteira. fisicamente. (calma tias, prometi pra mim mesma que nunca mais faria isso). mesmo com muitos clientes na minha própria empresa, por ainda não me achar suficiente (e quem sabe também por me sentir muito sozinha), entrei pra uma outra que eu já namorava há alguns anos. saí em 4 meses. porque, quem sabe, consegui valorizar o quanto eu já tinha construído “sozinha” – coloco entre aspas porque nada do que eu construí foi sozinha, eu tive e tenho muita ajuda. e, no final das contas, e ainda bem, a gente nunca tá literalmente sozinho. 

adotei uma gata pra me fazer companhia. mas que ironia da vida, ela é tão inquieta quanto eu e passa a maior parte do tempo passeando. morei em extremos diferentes. 5 meses em um condomínio de luxo. 5 meses em um povoado. cada um com suas diferenças e belezas, que me fizeram repensar um monte sobre a tal da bolha que a gente vive e sobre meus próprios preconceitos enrustidos. fiquei alguns meses trancafiada em casa, na minha própria companhia, na quarentena. sim, quase surtei com o que eu chamo agora de “minha solitude imatura”. conheci muitas praias da areia branquinha e do mar azulverdetransparente aqui do nordeste, que foram minhas confidentes em vários choros de momentos reflexivos, saudosos ou felizes. adquiri vários novos traumas. a maioria deles tem baratas e lagartixas no meio. passei horas no boteco com meu novo amigo passageiro de 70 anos. e dancei funk na sala da minha casa com minhas novas amizades mirins. descobri na prática, que a amizade, assim como dizem do amor, não tem idade. e o quanto podemos aprender quando temos consciência genuína disso.

aqui onde estou agora é tão tranquilo que um dia briguei com o carro do ovo. afinal, nessa paz, qualquer barulho chega a ser irritante. muitas vezes nem precisei ligar o som. porque o do vizinho tava bom. e eu até gosto de joão gomes. joguei bola queimada na praia. aprendi a usar a criatividade ao máximo (será que tem máximo para a criatividade?). descobri que sou muito boa em dar “meus pulo”. e que nasci mesmo pra ser tia. muitas vezes achei que não ia dar conta. e muitas vezes não dei mesmo. aprendi a dizer: tá ok, lina. amanhã é outro dia. tive a oportunidade de me encontrar na minha forma mais tosca. mais triste. mais vazia. mais no fundo do poço. e também na minha forma mais feliz. mais pura. mais genuína. só comigo mesma. me descobri tão forte. tão ingênua. tão madura. tão imperfeita. vivi uma realidade completamente diferente da minha. estourei minha bolha. e quem sabe tenha feito uma nova.

todos os dias, um dia de cada vez, aprendo a viver comigo. na riqueza, na pobreza, na saúde, na doença. aprendo a dar lugar a tristeza. pra ver o que ela tem a me oferecer. e porque depois fica mais fácil dar lugar a alegria. vagando entre solidão e solitude. descubro que minhas próprias histórias de terror são mais assustadoras do que qualquer outro filme do gênero. e muitas vezes, se não todas, do que a própria realidade.

não vou dizer que tem sido fácil. mas também não ouso dizer que está sendo difícil. me coloco na posição do diferente. da observadora e aprendiz dessa vida tão bela, impermanente e imperfeita. vou me descobrindo, me conhecendo e, a cada dia, tendo a oportunidade de me amar um pouquinho mais.

já não acho que sai do conforto de estar sempre próxima de pessoas conhecidas só por ser inquieta e curiosa. mas sim, por querer me completar descobrir como pessoa. já que entendo que o tal do vazio humano, esse que todos nós sentimos em determinadas partes da vida, não está em coisas ou nas outras pessoas. ou nos bichos. ou em vícios.

quem sabe você tenha razão, vô. o ser humano não nasceu pra viver só. e preciso te contar que, sem fechar as portas para quem quiser entrar de bom grado e por ventura ficar, estou encontrando alguém com quem eu quero compartilhar o resto da minha vida: euzinha aqui.

Paulo

Alguém.

Conhecemos o Paulo numa quinta-feira de sol. Ele estava sentado no meio fio, perto da praça Tiradentes, olhando vagamente para a rua. Quem sabe, esperando que alguém o percebesse. Ou só passando o tempo mesmo.

Ao lado direito, um Corotinho. No bolso, cigarro.

Perguntamos para o Paulo se podíamos conversar com ele. O Paulo olhou pra gente surpreso. Ele vestia um casaco marrom. Quase sem cabelo e com a barba, já quase branca mesmo parecendo muito novo, estava rala. O Paulo tem olho castanho, um olho castanho escuro, misterioso e amedrontado, na defensiva.

Quando chegamos, o Paulo estava com uma mão apoiada no joelho e a outra na cabeça. De certo, o Paulo estava um pouco preocupado. Mas aceitou muito simpaticamente conversar com a gente. 

Tava frio naquela quinta-feira. O vento rasgava um pouco nossa alma. Ou seria a conversa? A gente tava tremendo de frio. E o Paulo, pra se esquentar, ou pra se esquecer, tinha bebido. Tinha um hálito levemente encachaçado. De tristeza.

O erro do Paulo foi que, em um dia qualquer, deixou o ventilador ligado por muito tempo e, quando voltou, sua casa havia pegado fogo. Como ele não tinha pra onde ir, mesmo com 2 filhos em Colombo, 6 irmãos em Curitiba e um neto de 15 anos, foi pra rua. E na rua ficou.

“A prefeitura disse que ia arrumar minha casa, mas até hoje, nada. Então, eu tô aqui né.”

O Paulo teve uma infância difícil. Não conheceu o pai dele, mas ama a mãe, que o visita com frequência nas ruas. Ele também não se dá muito bem com o cunhado, que mora no mesmo terreno da mãe. E esse é o motivo pelo qual o Paulo não mora com a mãe. 

O Paulo acredita muito em Deus e não gosta de incomodar as pessoas. E por isso não quer atrapalhar a vida dos filhos. 

“Não dá pra atrapalhar a vida deles né? Por isso eu prefiro viver na rua. Pra não dar problema. Mas creio que Deus não vai me deixar assim por muito mais tempo.”

Aquele dia a única coisa que o Paulo queria era receber um “boa tarde”. 

Com a voz embargada, com o rosto molhado de lágrimas, tentando se esconder, o Paulo, que já se envolveu muito com drogas nas ruas, contou pra gente que ele não quer fazer mal pra ninguém. O Paulo, que hoje trabalha como guardador de carros, perguntou pra gente, o que custava dar um “boa tarde”? 

Olhar pra gente. 

“O que custava o cara olhar?”

E a gente, com lágrima no olho, olhou pra baixo. Pra não ter que responder? Ou por não ter o que responder. 

O Paulo sentia vergonha. Sentia que era ninguém. Mas o Paulo chorava. Existia. Sentia. O Paulo é alguém. Se o Paulo soubesse que ele é alguém, muito mais do que muita gente. 

E as amizades Paulo, você tem amigos?

Indignado, surpreso e com uma certa raiva, o Paulo pergunta: “que amigos? Não existe amizade na rua. Todo mundo é inimigo.”

Faz 6 meses que o Paulo tá na rua. O Paulo, que já trabalhou na Copel, como eletricista. O Paulo, que quando criança vendia rosas. O Paulo, que queria ter estudado, pra ter uma vida melhor. 

Mas quem ensinou o Paulo foi o mundo, como ele mesmo disse. Esse mundo que estamos agora. Esse mundo que prefere não ver. Esse mundo que prefere esconder. Esse mundo que prefere atirar. Esse mundo que prefere sujar. Roubar. Para não dizer matar. Esse mundo que precisa ter resistência. 

Quem será que é esse mundo que ensinou o Paulo? 

O Paulo, que vive nesse mundo, que existe nesse mundo, contou pra gente que gosta muito de maionese com carne assada, e que ainda não tinha almoçado naquele dia. Então, compramos comida para o Paulo almoçar. E uma água pra não ficar só no Corotinho, né Paulo? 

Um alguém.

José

Reciclador.

No Largo da Ordem, sentado ao pé da igreja em frente ao Cavalo Babão, com alguns amigos, o José estava fazendo arte com latas de alumínio. Panelinhas, disse ele. Para ganhar a vida

Mas a vida a gente não ganha quando nasce?

O José usava um boné um pouco gasto do tempo e estava com as pernas cruzadas, com um cobertor por cima. Embora parecesse mais novo, mais pelo jeito do que pela aparência, o José contou que tem 48 anos. 

Um pouco inquieto quando chegamos, o José parecia levemente embriagado. Ao lado direito tinha um Corotinho*.

E, assim como seus amigos que estavam lá, o José precisava falar. Ele contou a história dele pra gente em pouco tempo, com muita objetividade e uma certa pressa. O José falava como se cantasse uma música ou recitasse um poema.

Nascido na rua.

Jogado em uma uma lixeira. 
A mãe do José era pobre. 
Tinha medo.
Usava drogas. 
Sei lá, era 72.

Encontrado na lixeira.
Um catador de papelão deu a José o significado de família.
E veja só, o José ama a família que a rua deu pra ele. 

O José ganhou 6 irmãos.
Que viveram a infância com ele.
Gostosa, segundo ele, na maior parte do tempo.

Quando criança o José ia atrás da sua comida. Na feira. 
Debaixo das bancas sempre sobra alguma coisa né?
Foi assim que o José sobreviveu.
Rua, rua, rua.

Um dia o José teve que carregar um irmão no colo.

Morto.
Com 9 facadas.
Aos 17 anos. 

O irmão que o José mais amava.
Trabalhavam, carpiam, brincavam. Juntos. 
Companheiros. 
A gente tinha trabalhado 8 meses pro japonês.

O José veio de uma longa caminhada.
Pé por pé.
Desde Embu das Artes em SP, até Curitiba.
372 km.

No caminho, o José casou.
Uma “coroinha” daora. Gente boa, ela.
Mas o diabo da rua né? 
Voltei.

O José aprontou um monte de coisa errada.
Fez um monte de coisa ruim para os outros.
Mas o José não vai contar o que ele fez e o que ele não fez.
Pra num, né? Cê sabe. Altos problemas.

O José não é bobo. 
Ele sabe qual é a pior droga do mundo. 
Não é o craque, não é a cocaína, não é o álcool. 
Nem o cigarro. 

Não existe coisa pior. 
A pior droga do mundo, é a tal da rua.

Mas o José saiu dela.
26 vezes. 

O José faz coleção de panelinhas.
Tira latas do lixo para fazer a arte dele. 
O José dá presentes em troca de alguma ajuda.
Se quiser né? Porque o José acha horrível pedir dinheiro.
Também não roubamos ninguém, não precisa. 

O José é reciclador.
Faz artesanatos com o que iria pro lixo.

O José.
Reciclador.
Recicla-DOR.
É rua.

* Corote, de apelido Corotinho, pelo tamanho da garrafa, é uma bebida com índice de teor alcoólico super alto (39%) e muito barata (R$ 3,50/R$4,00) usada tanto em carnavais da classe média alta, como também na miséria das ruas.

um dia eu vou morrer

lembro bem desse dia. eu tava sentada no colo da minha mãe no nosso sofá, lá em Londrina. acredito que eu tinha uns 5 anos, ou 6. eu nunca sei direito. tava questionando essas coisas que as crianças questionam. fazendo perguntas capciosas. uma delas, não foi bem uma pergunta, mas uma suposição: mãe, você nunca vai morrer, né?

claro, já contei aqui algumas vezes, minha mãe prezava pela verdade, às vezes de uma forma doce, às vezes sem muitos rodeios. ela me respondeu que ia sim. quando chegasse a sua hora, ela teria que partir. 

como assim, mãe, o que eu faria sem você nesse mundo?

eis que tive que descobrir, cedo demais. sempre é cedo demais. 

esses dias eu tava caminhando apressada na praia e lembrei dessa ocasião. eu tava caminhando super rápido e pensando que eu tinha que chegar logo em “tal lugar” (tal lugar, porque na verdade, eu nem tinha um lugar pra ir, nem ninguém com quem encontrar). foi aí que eu parei. de repente. por que eu tava caminhando rápido mesmo? comecei a caminhar mais devagar. olhar com cuidado o caminho por onde andava. tão bonito. a coisa mais bonita desse mundo. é o que eu sempre digo quando vejo paisagens, bichos, plantas, pessoas, gestos, dos quais eu não consigo explicar muito bem a beleza, apenas sentir.

levei isso pro resto do meu dia. como eu tava fazendo as coisas correndo. tudo correndo. exceto meu café da manhã, que é lerdo e vagaroso. a hora mais boa do meu dia, inclusive. o restante é apressado. preciso cumprir com a agenda do dia. as entregas atrasadas. responder as mensagens. responder as mensagens. responder as mensagens. tentar produzir alguma coisa. reunião. responder as mensagens. almoço. rápido, porque afinal, você nem conseguiu produzir nada de manhã, Lina. reunião. responder as mensagens. reunião. tentar produzir algo já pensando no que eu tenho que fazer depois. rápido. o que vão pensar se eu não entregar.

minha respiração começa a ficar curta. minhas pernas começam a doer. minha cabeça já não quer mais permanecer. cansaço. autocobrança. exaustão. 

esses sentimentos que a sociedade moderna tem. a sociedade do controle. do cansaço. da exaustão. Byung-Chul Han explica.

percebendo tudo isso, percebi também que absolutamente ninguém está no meu dia a dia convivendo com esses sentimentos e me cobrando diretamente por alguma coisa. eu mesma faço isso com muita destreza. então, só cabe a mim me respeitar e me dar o tempo necessário, o tempo que for, pra curtir mais o meu caminho. seja o caminho da praia. seja o caminho da vida. 

é difícil sair dessa pressa contínua. da aceleração automática do dia. mas é possível. hoje, cada tarefinha, por menor que seja, cada vez que sento pra trabalhar, pra fazer nada ou apreciar a vista, tento perceber a aceleração. percebendo, desligo (ou tento). e respeito meu tempo de fazer, ou não, tudo o que tenho no dia. 

esse é mais um dia que tenho. e era pra eu estar olhando um documento enviado na sexta. mas eu queria escrever. porque hoje é mais um dia que posso escolher como vou viver. que posso trabalhar pra realizar um sonho. ou pra realizar uma vontade da minha essência. é mais um dia que acordo e vejo o sol. que posso dormir abraçadinha com minha gatinha. que posso tomar sorvete na rua. 

se tem uma coisa que eu tive que descobrir sem a minha mãe nesse mundo é que a vida é pra ser vivida. apreciada. degustada. um dia de cada vez. com (c) alma. sem pressa. mas com intensidade. com presença. com consciência. e de verdade. 

pois um dia, todos nós, nos vamos. como vai ser o caminho, hoje?

prisioneira da própria liberdade

eu me achava uma pessoa muito livre. 

faz tempo que eu tenho o privilégio de fazer meus próprios horários. de fazer minhas próprias refeições (apesar da preguiça de cozinhar). de trabalhar no horário que escolho. de fazer exercício no horário que mais gosto. de ter minhas horas de leitura e estudo no horário que consigo. 

horários.

era tão livre que eu mesma tive a liberdade de me aprisionar nos meus horários. tentando buscar um padrão inexistente. pra de novo tentar me encaixar num mundo que não me pertence. eu vivo fazendo isso.

aconteceu que a culpa começou a preencher todos os meus horários. quando eu ia caminhar na praia e não estava trabalhando eu me sentia culpada. quando eu trabalhava e não ia à praia eu me sentia culpada. quando eu não lavava a louça eu me sentia culpada. quando eu não limpava a casa. quando eu limpava. quando eu não fazia exercício. quando eu “perdia” meu tempo escrevendo. por viver a vida. por não viver a vida. por morar num lugar tão lindo. por estar longe da minha família. por assistir muito netflix. em praticamente tudo a culpa estava presente.

ainda bem que existe a terapia.

a pergunta que comecei a fazer a mim mesma foi: como sair da prisão que eu mesma criei? cadê a chave, gente? será que deixei com alguém? escondi e não lembro?

não tem chave, lina. acorda. volta aqui. pra tua essência. volta aqui ver o tanto de lindeza que tem nessa vida. observa que pra sair da maior arapuca de todas, aquela que a gente mesmo cria pra gente (ou aquelas), é mais fácil (não falei simples) de sair do que imaginamos.

a gente precisa só abrir a porta. abrir a porta da vida. do viver a vida. mas sabe o que? é preciso coragem pra abrir essa porta. coragem pra abrir a porta da vida e ir viver ela. é aquela história da caverna. a diferença é que quando a gente sai uma vez e depois volta, nossa alma não aceita mais a permanência. ela quer sair dançar e viver aquela vida cheia de vida, sabe? que ela viveu uma vez. 

seja o que for viver a vida pra você, é preciso MUITA coragem pra fazer isso. é preciso coragem (e não o foda-se) pra você fechar seu computador às 16h da tarde e ir dar uma volta na praia. ou no parque. ou na rua. é preciso coragem pra dizer não, quando não lhe faz bem. seja qual for o não que você tiver que falar. é preciso coragem pra pedir ajuda. pra fazer terapia. pra se conhecer. é preciso coragem pra você parar de contar as calorias. e começar a contar as experiências. é preciso coragem pra impor limites. é preciso coragem pra deixar o berço e ir viver sua própria vida. seja onde for. é preciso coragem pra aceitar evoluir. porque dói gente. crescer dói e todo mundo sabe disso. só não sabe quem tá na inércia. 

é preciso coragem pra se aceitar. pra aceitar as rugas. pra aceitar o corpo. pra aceitar a loucura. é preciso coragem para se amar. pra amar as rugas. pra amar o corpo. pra amar a loucura. o cabelo. é preciso coragem pra desbravar o desconhecido. pra enfrentar o normal. pra sair do “padrão” que te faz infeliz. que te cega. que te deixa robotizado. que te faz acelerar ainda mais. é preciso coragem pra deixar as des(culpas) de lado. é preciso coragem pra ser feliz. é preciso coragem pra viver a vida. 

pra viver a vida, é preciso coragem.

a boa notícia é que coragem não é ausência de medo. mas depende de você.

e aí, vai continuar trancada (o)? saiba que a porta tá aberta e vida tá on.

24 horas sem horas

acordei sem tempo
porque não tinha ponteiro pra dizer 
que meus olhos precisavam abrir
e meu estômago precisava comer
acordei com tempo
porque não tinha ponteiro pra correr
não tinha pressa
porque de repente não tinha hora pra fazer
será que o tempo é uma ilusão
que a gente resolveu viver
de maneira real
só pra aquele vazio 
a gente preencher
mas olha só
que coisa
quando temos tempo
sem relógio
tudo parece que fica cheio
de bons momentos
sentimentos
parece um segredo
ninguém tá me vendo
só eu e meu espelho
minha dança 
e o lenine que escuto sem parar

“mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
até quando o corpo pede um pouco mais de alma
a vida não para
enquanto o tempo acelera e pede pressa
eu me recuso, faço hora, vou na valsa
a vida é tão rara
enquanto todo mundo espera a cura do mal
e a loucura finge que isso tudo é normal
eu finjo ter paciência
o mundo vai girando cada vez mais veloz
a gente espera do mundo e o mundo espera de nós
um pouco mais de paciência
será que é tempo que lhe falta pra perceber
será que temos esse tempo pra perder
e quem quer saber
a vida é tão rara, tão rara”

pois é lenine
mas amanhã é segunda
e preciso acordar
pra uma realidade 
que só existe
num aparelho 
celular.

uma carta de amor à pessoa que eu mais deveria amar

volta e meia eu entro numas crises de identidade (fora as de ansiedade). não sei mais quem sou. o que quero. pra onde quero. como. por que. pra que. o que. (…). tudo bem, seria estranho se eu não tivesse esses momentos, né? ainda mais nos dias de hoje.

às vezes fico tentando me descrever. quando me perguntam: quem é você, lina? se apresente. normalmente caio numa grande arapuca armada por mim mesma. na grande maioria das vezes eu começo me descrevendo como uma ninguém. como se eu não tivesse conquistado nada na vida. como se eu fosse, até mesmo, uma pessoa ruim. péssima. ontem mesmo, quando ficou escuro, nas horas mais cruciais do dia pra mim, comecei com essa pergunta de novo. 

quando muito só (o que não é raro), durmo pensando em tudo de ruim que eu já fiz. pra mim. para os outros. para o mundo. e o peso é quase sempre maior do que as coisas boas. fico presa no passado. vem a culpa. a vergonha. a insegurança. o medo. acordo e parece que as perguntas de ontem não foram respondidas (como se precisassem ser respondidas). e o ciclo recomeça. não ligo a música. não danço. não medito. como qualquer coisa. bebo. passo dos meus limites. ligo netflix. trabalho sem vontade. é aquela mini depressão chegando. e o pior é que eu sei o antídoto. e não quero “tomar”. porque acho que não mereço. vem algo pior: a autoflagelação. eu sei que me faz mal. mas faço igual. até chegar no físico. por que eu não posso ser feliz o tempo todo, né? não sou merecedora. não sou boa o suficiente.

sou sim.

eu sou corajosa (ou louca, se preferir). sigo meus sonhos. saí do rio grande do sul pra morar no nordeste. pulei de bungee jump. escalei o pico do paraná. e no outro dia corri 10km. escrevo poemas. textos. e alguns deles são ótimos. experimento, mas se não gosto, não continuo. saio. vazo. sem ressentimentos. termino. recomeço. se precisar eu brigo. incendeio. deixo meu coração me guiar. enfrento. defendo. resolvi ser autônoma. nômade. e acho que a gente pode fazer de tudo nessa vida. já conheci quase todos os estados brasileiros. e muitos outros países. tenho histórias pra contar até o pacote de sal acabar.

eu sou evoluida. sou feminista. ajudo mulheres e elas me ajudam. pra mim não tem problema nenhum mostrar os peitos. não vejo a hora de poder mostrar os meus como os homens fazem quando não usam camisa. não tem problema nenhum homens se beijarem na rua. ou qualquer pessoa se beijar na rua. isso não me fere. e nem deveria ferir ninguém. e se você não gosta, saiba que não é uma questão de opinião e sim, de preconceito mesmo. reconheço meus privilégios. enxergo o preconceito. em mim e no  mundo. já fiz muita terapia e vou fazer muito mais. tenho canudo retornável. procuro reduzir meu lixo. não comer tanta carne. junto o lixo dos outros da praia ou de qualquer outro lugar que eu passe. e nem reclamo mais. procuro ficar em casa na maior parte do tempo. respeito. escuto. mudo se precisar. sou flexível, adaptável. 

eu sou bruxinha. acredito que meu corpo é forte. resistente. sábio. amo chás e óleos essenciais. e acredito que eles podem curar muita coisa. tenho fé. entrego. confio. aceito. agradeço. agradeço. agradeço. planto a minha lua. gosto dos cristais. sou aberta a todo tipo de religião e acho que todas elas são uma forma de nos conhecermos melhor. sou aberta. meu coração é aberto. até demais. amo rita lee. acredito nos sinais que minha mãe me manda pra dizer que está pertinho de mim. e principalmente, sei enxergá-los. acredito na medicina ayurvédica. na ginecologia natural. acredito que a yoga seja a cura da humanidade. e adotei uma gatinha.

eu sou sensível. eu amadureço e dou amor a todos os relacionamentos que considero bons. tento não julgar. tento não culpar. amo a vida. amo tanto que consigo viver ela. procuro evoluir. gosto de flores. amo a natureza. piso na grama. sei observar. minha maior felicidade quem sabe seja ver o pôr do sol. a lua nascer no mar. gosto do romantismo. de sol. calor. de carinho. e amor. em mensagens. em palavras. em gestos. gosto de quem cozinha pra mim. gosto de escrever cartas. de receber cartas. resolvi acreditar que existe mais bem do que mal. e há quem chame isso de inocência. sou engraçada. brinco o tempo todo. gosto de todos os bichinhos. trato todo mundo bem. faço amizades facilmente. dou bom dia. boa tarde. boa noite. 

eu sou legal, criativa, bagunceira, divertida, inteligente, linda, carismática, responsável, comprometida, distraída, pensativa, intensa. EU SOU TÃO BOA E TÃO SUFICIENTE que não vai caber aqui tanta coisa boa.

ah, sou humilde também.

gratidão, Lina, por conseguir ser você a maior parte do tempo. e lembre-se de se amar, comer bem e beber menos, por favor.

a vida é bela

Você já experimentou contar carneirinhos quando não consegue dormir? É uma boa experiência, sabe. Não sei se você vai, de fato, conseguir dormir. A primeira vez que tentei não consegui. Acho que eu tava muito entusiasmada em imaginar os carneirinhos. 

Pra mim, eles pulavam um pequeno cavalete. Colorido. Tinha sol. Quem sabe por isso que eu não consegui dormir dessa vez, quem sabe eu teria que ter imaginado a noite. A lua. As estrelas. Mas não sei, aquela vez, na minha imaginação, tinha sol. E um arco-íris.

Carneirinhos e ovelhinhas. Tão fofos né? Era uma noite quente. A gente ainda morava em Londrina. Lembro bem do meu quarto, que era o quarto do meu irmão também. Tinha uma porta de madeira. Mas não essa madeira escura. Era uma madeira bem clarinha. Quem sabe até tenha sido meu pai quem fez. 

Colado na porta tinha um adesivo que, se não me engano, ganhei na feira, onde meu pai trabalhava, escrito: a vida é bela, a gente é que empeteca ela. E tinha uma peteca desenhada do lado. Claro, que sentido teria essa frase sem essa peteca desenhada? 

Que frase ótima pra levar pra vida. Não empetequem suas vidas, gente. 

Uma boa parte da nossa infância eu e meu irmão passamos dormindo em beliche. Eu dormia na cama de cima. E, um belo dia, caí. Sorte que a minha mãe, sempre precavida (ou vidente), deixava um colchão embaixo. 

Caí e não consegui respirar por alguns segundos. Até que eu consegui gritar. E minha mãe veio correndo pro quarto. Assustada. Abriu a janela, antes de qualquer coisa. E disse: levanta os braços. Eu levantei e a respiração fluiu de novo. Junto com o choro. Eu nem sabia direito o que tinha acontecido ainda. Mas depois disso, nunca mais consegui dormir em beliche.

Não foi nessa noite que eu contei carneirinhos. Foi em outra noite qualquer. E a ideia foi da minha mãe, claro. Sem saber, ou sabendo, já estava me ensinando princípios de meditação. Eu contei que não estava conseguindo dormir. E minha mãe me disse pra contar carneirinhos, pois o sono viria assim.

Fechei os olhos e comecei a contagem. Contei. Contei. Contei. E chegou uma hora que perdi as contas. Aí pensei: e agora? Levantei, fui até o quarto da minha mãe e disse: mãe, perdi as contas. O que eu faço agora?

Rindo, minha mãe me disse pra voltar a contar. E se eu perdesse as contas, pra voltar do zero. Até eu pegar no sono. Depois não lembro, devo ter pegado no sono mesmo.

Bom, pensando bem, tudo isso poderia ser uma metáfora* da vida. Se você perder (as contas, a paciência, os caminhos, as estribeiras), recomeça a contagem. Se você cair, levanta os braços pra respirar. Deixa o choro fluir. Recupera a respiração. Começa tudo de novo. Quantas vezes forem necessárias. 

Todo recomeço é uma nova oportunidade de enxergar. Que a vida é bela. A gente é que empeteca ela.

*Eu nunca sei se usei a figura de linguagem correta.