Ultimamente tenho aprendido tanto sobre ser mulher. Quer dizer, ainda me considero uma pirralha com hábitos de velha. Tomo chá todo dia à noite, durmo cedo, acordo cedo e às vezes sou meio rabugenta. Mas gosto de assistir desenho. E de brincar. E muitas vezes, passo do meu limite.
Nada disso me faz ser menos mulher, claro. Só que agora estou aprendendo a me enxergar mais como tal. Quem sabe seja essa tão falada cura do feminino. Digo, da nossa energia feminina.
Pra quem não está familiarizada ou familiarizado com isso, vou passar resumidamente aqui: cada um de nós, tanto homens, quanto mulheres, têm a energia feminina e a energia masculina. As duas são importantes e precisam ser equilibradas (e honradas) dentro de nós. Acontece que essas energias ficaram desequilibradas dentro da gente (gente = todos os seres humanos) ao longo do tempo, grande parte devido às nossas raízes patriarcais. Acreditem ou não, essa é a história. O Yin e Yang.
De qualquer forma, não sou expert no assunto. Só sou uma mera aprendiz da vida. E eu não tive consciência de quando isso começou a acontecer. Esse começo de cura ou essa busca, enfim, pelo meu feminino. Quem sabe quando eu voltei a morar com meu pai e com meu irmão. Com dois homens.
Eu já falei por aqui um pouco sobre a minha infância. Cresci no modo defesa ON. E permaneci com ele ligado por muitos anos. No caso, ainda liga de vez em quando, mas agora acho que já não é mais tão permanente.
Também sempre gostei mais de “coisas de menino”. Jogava futebol. Truco. Vivia embarrada. Suja de terra vermelha. Vivia aprontando. Fazendo arte. Era fanática do Corinthians. Brigava na escola se fosse preciso.
Quando fiquei adolescente algumas coisas foram mudando. Meu corpo, principalmente. E os meninos já não queriam mais jogar bola comigo. Comecei a ficar confusa.
Me diziam que eu deveria ser “mais mocinha”. Parar de jogar futebol (pausa pro choro aqui). Precisava ser mais delicada. Aprender a cozinhar. Lavar a roupa. Cuidar da casa. Não que eu já não soubesse fazer isso, pois fazia com 6 ou 7 anos de idade, assim como muitas e muitas mulheres da mesma faixa etária ou mais velhas que eu.
Bom, com todas essas imposições na minha vida, um dia peguei uma revista e comecei a ler um artigo sobre “como conquistar um homem” ou algo assim. E lá dizia que as mulheres foram feitas pra cuidar, pra serem delicadas. Que homem gostava de meninas sensíveis. Que homem não gostava quando o cílio ficava grudado de rímel (pasmem). Que tinha que ser natural. Que homem gostava de batom de cor tal. Ai, gente. Vou parar aqui, porque né, por favor. Vamos nos poupar.
Menstruei. E minha tpm era enlouquecedora. Pra todo mundo. Minha menstruação era um rio de sangue. Manchava tudo. Comecei a odiar ter que ficar menstruada. Era chato. Nojento. Eu não conseguia fazer nada direito. Principalmente, eu não conseguia jogar futebol direito. A paixão da minha vida, naquele tempo. Comecei a odiar ser mulher. Cheguei a falar por várias e várias vezes que eu queria ser homem na próxima vida. Era tudo TÃO mais fácil pra eles.
E, como naquela época (pareço muito velha mesmo) ninguém explicava muita coisa sobre nada, muito menos sobre sexualidade (SEXUALIDADEEEEEE, falei e agora?) ou menstruação, eu comecei a me sentir muito mais confusa. Eu não aceitava aquilo como parte de mim. Eu não queria ficar menstruada.
Comecei a tomar anticoncepcional. E fiquei tomando por mais de 10 anos. Não ininterruptos. Eu ainda menstruei durante esses anos. Mas bem menos. Com bem menos tpm. Bem menos sanguinho. E, digamos, de forma controlada. Toma a cartelinha ali, quando acabar menstrua 7 dias, volta a tomar, etc. Esse era meu ciclo. Nada mudava.
Até eu começar a me questionar de verdade, por que eu fazia isso mesmo?
Ah, claro, eu não queria menstruar tanto. E tinha medo de engravidar também. Na época eu namorava, mas mesmo que eu não namorasse, mesmo existindo a camisinha, se alguma coisa “desse errado”, a responsabilidade era só minha, né?
Não. Mas naquela época pensava-se que sim. A responsabilidade era SÓ da mulher. Até hoje quem sabe, algumas pessoas pensam assim. E aí, esse é um exemplo das nossas raízes patriarcais (já teve um ali em cima, mas resolvi frisar esse aqui, porque o exemplo é mais prático), pra quem ainda tá pensando: será que isso existe mesmo?
Parei de tomar anticoncepcional. Já faz uns 4 ou 5 anos. E, de lá pra cá, MUITA coisa mudou. De novo. Minha pele, meu cabelo, meu corpo, minha tpm, meu sangue, meu ciclo, minha energia, minha criatividade. Minha vida.
Nem tudo foi pra melhor, logo no início. Minha pele ficou mais oleosa. Meu cabelo também. Minha tpm voltou a ser doida. E agora vem bastante sanguinho de novo. Comecei a me perguntar se eu tinha feito certo em parar.
Aí voltei pra carazinho. Vivendo com dois homens, depois de tanto tempo morando com amigas ou sozinha. Pensei, automaticamente, inconscientemente, que eu precisava ser como eles. Precisava me encaixar nesse mundo de novo. Eu não sei o que isso quer dizer exatamente. Mas coloquei minha capa de proteção. Meu modo defesa/poder/comando ficou a todo vapor.
Por mais que meu pai seja carinhoso, ainda assim, as coisas ficaram masculinas demais. Ou melhor, desequilibradas demais. E, percebi depois, que quando eu queria um abraço, eu xingava. Quando eu queria pedir, eu mandava. Quando eu queria conversar, eu gritava. Quando a raiva chegava, eu mergulhava nela.
Sorte a minha que tive gente do meu lado que entendeu. E me guiou, mesmo sem perceber. Que me disse: ei, lina, tá tudo bem. Olha isso aqui. Olha que legal. Uma delas, a minha cunha. Que me ensinou a plantar a lua (no final do texto eu explico como). E esse pequenino gesto, mudou toda a minha forma de pensar. Mudou todo o meu olhar sobre mim. As coisas que eu não estava conseguindo entender, vieram à tona. As energias, quem sabe, foram se colocando em harmonia dentro de mim.
(Re) descobri como é mágico ser mulher. É mágico quando a gente consegue observar tudo isso. Quando a gente consegue perceber nosso corpo e nossa mente mudando ao longo do nosso ciclo menstrual. E vai aprendendo, aos pouquinhos, a usar tudo isso a nosso favor. Graças ao meu bom Deus (e outras mulheres que me incentivaram sem saber) eu parei de tomar hormônio. Comecei a parar de tentar me encaixar nesse mundo patriarcal.
Agora, na minha tpm, aprendo a me resguardar. A ficar mais quietinha mesmo. Geralmente não tomo nenhuma decisão. Já saio avisando meu irmão e meu pai. Porque né, eles sofrem junto comigo. Não consigo pensar muito. Fico confusa. Não sei que roupa colocar. Fico mais lenta com tudo. Então, se eu precisar (e puder), eu durmo mais mesmo. Agora, mesmo que seja difícil, se eu quero, eu peço um abraço sim. Eu choro. Simplesmente deixo as lágrimas irem. Me permito ser cuidada. Meu corpo, minha mente e meu coração pedem. Não nego. E tá tudo bem.
No meu período fértil eu fico extremamente criativa. Com a energia a mil. Quase nem durmo. São os dias que eu mais escrevo poemas. Volto a ser criança. Me permito ser. Meus sentimentos afloram. Quero cuidar. Quero escrever. Quero conhecer. Quero conversar. Quero viver. Então, trabalho mais. Dou mais ideias. Sei que vou dormir menos. Que terei pelo menos um dia de insônia (normalmente). E já coloco um caderninho do meu lado à noite, porque eu sei que as ideias vão brotar. Me sinto dona de mim mesma. Feiticeira. Bruxa. Quase dona do mundo.
Quando a menstruação vem eu fico tão feliz! Meu sangue agora é magia. Eu planto a minha lua. Quanto mais sanguinho, melhor. É sinal de vida. É sinal de limpeza. De feminilidade. Eu faço pedidos verdadeiros. Corajosos. Eu sinto o cheiro da terra de forma muito mais intensa. Converso com plantas. Eu sou, literalmente, natureza.
E quando ela vai embora começa outro ciclo. Começa a brotar outra lina. Outra lua. Outras magias. Outros desejos.
Nosso ciclo de aprendizagem torna-se infinito. A gente começa a respeitar nosso corpo. Nosso coração. Como é bom estar aqui para aprender cada vez mais sobre essa beleza que é ser mulher.
Além do que, minha gente, foi uma mulher que inventou a cerveja.
COMO PLANTAR A LUA: nosso ciclo é regido pelas fases da lua. O primeiro dia do nosso ciclo, ou seja, quando vem o sangue, é chamado lua nova (mesmo que não seja lua nova no céu). Nasce a sua lua nova. E para que você possa plantar sua lua, você precisa usar ou um coletor menstrual ou uma calcinha absorvente, aquela que você usa, lava e usa novamente ou um bioabservente (reutilizável também). Se for calcinha ou bioabsorvente, você usa e depois deixa de molho (só com água), aí você usa a água e o sangue para plantar sua lua. Derrama isso na terra, nas plantinhas. E faz teu pedido, faz teu agradecimento, faz disso, um ritual. É lindo, você vai ver.
Observação 1: homem, se você leu esse texto até o final, gratidão por se interessar. Gostaria de frisar que quando falo em “patriarcado” falo sobre o modo como aprendemos a viver. Todos e todas nós, até então. Nada disso é culpa de alguém especificamente, mas me deixa feliz saber que podemos mudar e equilibrar tudo isso, juntos e juntas!






