eu gosto de assistir séries de suspense e terror. mas a última que eu assisti me arrepiou a alma. me apavorou. me fez chorar. de desespero. de raiva. de desconforto. de semelhança.
chama-se “o conto da aia”, ou: the handmaid’s tale. uma série em que, em um certo local dos EUA, as mulheres acabam perdendo todos os direitos, inclusive o de dirigir, e ficam prisioneiras de um sistema patriarcal, no qual ninguém é feliz. coincidência é mera realidade.
eu tive a sorte de ter uma mãe que lutou pela minha liberdade. me ensinou desde muito cedo a ser independente. lembro que um dia eu ousei reclamar disso pra ela: “mãe, você me largou muito no mundo, tive que aprender tudo sozinha” – ou, ao menos, era isso que eu pensava. minha mãe respondeu dizendo que foi pra isso que ela teve uma filha, oras (kkk).
“eu sempre quis ter uma menina pra que ela fosse independente. que tivesse liberdade e soubesse se defender. diferente de mim, que sempre fui um “bicho do mato”. (sim, pra quem conheceu minha mãe, nunca diria que ela era um bicho do mato).
considero essa, uma das belas curas que tive com minha mãe ainda viva. digo ainda viva, porque mesmo depois que ela deixou a gente aqui na terra, eu lembro dos ensinamentos que ela quis me passar e eu não entendia.
minha mãe me fez ter carteira de motorista. mesmo eu não querendo ter carro, ela me disse: vai fazer sim, porque um dia você vai precisar. você precisa dessa autonomia também.
eu nunca gostei muito de dirigir. e sempre achei uma loucura pegar o carro e dirigir por estradas totalmente desconhecidas, sem muita (nenhuma) experiência, como é o meu caso. mas eis que decidi fazer bom (há quem duvide do termo “bom” aqui) uso da minha carteira de motorista. usei o privilégio dessa autonomia para fazer aquilo que meu coração queria. não foi o caminho mais fácil. foi um dos mais desafiadores. uma mudança de rumo que nem eu contava. tudo porque eu estava atenta para a vida. e, devo dizer, que essa atenção se deu por alguns motivos:
- me dei tempo pra parar e pensar no que eu realmente queria. lá no fundo. mesmo que fosse difícil. (tirei férias e saí do meu automático, pra ser mais específica – mas há outras formas)
- lembrei da minha mãe, da minha ancestralidade e da nossa eterna luta por liberdade e respeito
- assistindo a série, entre outros pesadelos que vieram a tona, pensei que “deus me dibre” não poder dirigir. credo. vam simbora.
aluguei um carro, joguei minhas coisas dentro e me vim pra bahêa. por estradas completamente desconhecidas, sem muita (nenhuma) experiência. obriguei minha gata a vir comigo também. (ela passa bem e feliz).
quero, um dia, que TODAS as mulheres possam ser tão livres e independentes quanto minha mãe gostaria que eu fosse. e como me senti vindo pra cá. e que The Handmaid’s Tale seja só uma história de terror que fica cada vez mais no passado.
já faz alguns meses (vidas) que meu coração é baiano.
recomendo.

Republicou isso em REBLOGADOR.
CurtirCurtido por 1 pessoa