Andei só

meu avô, em quase toda vez que nos encontramos, naquelas conversas de “e os namorados?”, nas quais eu me pego respondendo, pra não causar muito alvoroço, “quem sabe um dia, vô”, me fala que o ser humano não nasceu pra viver sozinho. que a gente precisa “ter alguém”. senão, não tem como viver não.

faz algum tempo, lá em curitiba ainda, nos tempos áureos antes da pandemia, que decidi sair do apartamento compartilhado por anos com amigas e morar sozinha. não que eu não goste de pessoas. pelo contrário. mas queria ver como era, curiosa e inquieta que sou. 

os primeiros meses foram difíceis. depois… bom, depois piorou. passei um tempo na casa do meu pai, por força do destino, do bolso e da pandemia. na maior parte do tempo fui muito feliz morando com pessoas novamente. 

mas, agora, cá estou eu.

quando eu decidi vir morar por aqui, sozinha, por estas bandas que chamamos carinhosamente de Nordeste meu país, bem longe da minha família e velhos amigos, a quase um ano atrás, eu não imaginava o tanto de movimento que eu ia causar na minha vida. na verdade, eu não imaginei muita coisa.

e dessa vez, os primeiros meses não foram muito diferentes dos meses que passei em curitiba (kkk). tirando o fato de eu já estar um pouco (quinho) mais experiente. mesmo assim era como se a vida tivesse me pegado pelos pés, me virado de ponta cabeça e me chacoalhado de um lado pro outro, sem parar. rodopiando. chegou um momento que eu comecei a ficar enjoada. e, até então, não sabia do que. não sabia que eu mesma tinha autorizado a vida a me chacoalhar. que quando a gente se movimenta, tudo ao nosso redor também se movimenta.

então, procurei uma loja de produtos naturais e comprei quase 2 kg de chás variados, pela internet. logicamente eu também não sabia que quase 2kg de chás variados era MUITO chá. quando o moço me entregou a sacola ele já me entregou rindo. e eu, um pouco assustada pela quantidade, disse: bom, agora eu tenho chá pra um ano. porém, agora já acredito que seja pra dois anos.

claro, depois disso eu também voltei pra terapia. 

passei meu aniversário sozinha. e, sim, me senti sozinha. decidi andar de bicicleta pelos arredores do paraíso que eu estava morando. em um final de semana, andei 22km. voltei bêbada e quebrei meu telefone. mas, por sorte, fiquei inteira. fisicamente. (calma tias, prometi pra mim mesma que nunca mais faria isso). mesmo com muitos clientes na minha própria empresa, por ainda não me achar suficiente (e quem sabe também por me sentir muito sozinha), entrei pra uma outra que eu já namorava há alguns anos. saí em 4 meses. porque, quem sabe, consegui valorizar o quanto eu já tinha construído “sozinha” – coloco entre aspas porque nada do que eu construí foi sozinha, eu tive e tenho muita ajuda. e, no final das contas, e ainda bem, a gente nunca tá literalmente sozinho. 

adotei uma gata pra me fazer companhia. mas que ironia da vida, ela é tão inquieta quanto eu e passa a maior parte do tempo passeando. morei em extremos diferentes. 5 meses em um condomínio de luxo. 5 meses em um povoado. cada um com suas diferenças e belezas, que me fizeram repensar um monte sobre a tal da bolha que a gente vive e sobre meus próprios preconceitos enrustidos. fiquei alguns meses trancafiada em casa, na minha própria companhia, na quarentena. sim, quase surtei com o que eu chamo agora de “minha solitude imatura”. conheci muitas praias da areia branquinha e do mar azulverdetransparente aqui do nordeste, que foram minhas confidentes em vários choros de momentos reflexivos, saudosos ou felizes. adquiri vários novos traumas. a maioria deles tem baratas e lagartixas no meio. passei horas no boteco com meu novo amigo passageiro de 70 anos. e dancei funk na sala da minha casa com minhas novas amizades mirins. descobri na prática, que a amizade, assim como dizem do amor, não tem idade. e o quanto podemos aprender quando temos consciência genuína disso.

aqui onde estou agora é tão tranquilo que um dia briguei com o carro do ovo. afinal, nessa paz, qualquer barulho chega a ser irritante. muitas vezes nem precisei ligar o som. porque o do vizinho tava bom. e eu até gosto de joão gomes. joguei bola queimada na praia. aprendi a usar a criatividade ao máximo (será que tem máximo para a criatividade?). descobri que sou muito boa em dar “meus pulo”. e que nasci mesmo pra ser tia. muitas vezes achei que não ia dar conta. e muitas vezes não dei mesmo. aprendi a dizer: tá ok, lina. amanhã é outro dia. tive a oportunidade de me encontrar na minha forma mais tosca. mais triste. mais vazia. mais no fundo do poço. e também na minha forma mais feliz. mais pura. mais genuína. só comigo mesma. me descobri tão forte. tão ingênua. tão madura. tão imperfeita. vivi uma realidade completamente diferente da minha. estourei minha bolha. e quem sabe tenha feito uma nova.

todos os dias, um dia de cada vez, aprendo a viver comigo. na riqueza, na pobreza, na saúde, na doença. aprendo a dar lugar a tristeza. pra ver o que ela tem a me oferecer. e porque depois fica mais fácil dar lugar a alegria. vagando entre solidão e solitude. descubro que minhas próprias histórias de terror são mais assustadoras do que qualquer outro filme do gênero. e muitas vezes, se não todas, do que a própria realidade.

não vou dizer que tem sido fácil. mas também não ouso dizer que está sendo difícil. me coloco na posição do diferente. da observadora e aprendiz dessa vida tão bela, impermanente e imperfeita. vou me descobrindo, me conhecendo e, a cada dia, tendo a oportunidade de me amar um pouquinho mais.

já não acho que sai do conforto de estar sempre próxima de pessoas conhecidas só por ser inquieta e curiosa. mas sim, por querer me completar descobrir como pessoa. já que entendo que o tal do vazio humano, esse que todos nós sentimos em determinadas partes da vida, não está em coisas ou nas outras pessoas. ou nos bichos. ou em vícios.

quem sabe você tenha razão, vô. o ser humano não nasceu pra viver só. e preciso te contar que, sem fechar as portas para quem quiser entrar de bom grado e por ventura ficar, estou encontrando alguém com quem eu quero compartilhar o resto da minha vida: euzinha aqui.

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