Andei só

meu avô, em quase toda vez que nos encontramos, naquelas conversas de “e os namorados?”, nas quais eu me pego respondendo, pra não causar muito alvoroço, “quem sabe um dia, vô”, me fala que o ser humano não nasceu pra viver sozinho. que a gente precisa “ter alguém”. senão, não tem como viver não.

faz algum tempo, lá em curitiba ainda, nos tempos áureos antes da pandemia, que decidi sair do apartamento compartilhado por anos com amigas e morar sozinha. não que eu não goste de pessoas. pelo contrário. mas queria ver como era, curiosa e inquieta que sou. 

os primeiros meses foram difíceis. depois… bom, depois piorou. passei um tempo na casa do meu pai, por força do destino, do bolso e da pandemia. na maior parte do tempo fui muito feliz morando com pessoas novamente. 

mas, agora, cá estou eu.

quando eu decidi vir morar por aqui, sozinha, por estas bandas que chamamos carinhosamente de Nordeste meu país, bem longe da minha família e velhos amigos, a quase um ano atrás, eu não imaginava o tanto de movimento que eu ia causar na minha vida. na verdade, eu não imaginei muita coisa.

e dessa vez, os primeiros meses não foram muito diferentes dos meses que passei em curitiba (kkk). tirando o fato de eu já estar um pouco (quinho) mais experiente. mesmo assim era como se a vida tivesse me pegado pelos pés, me virado de ponta cabeça e me chacoalhado de um lado pro outro, sem parar. rodopiando. chegou um momento que eu comecei a ficar enjoada. e, até então, não sabia do que. não sabia que eu mesma tinha autorizado a vida a me chacoalhar. que quando a gente se movimenta, tudo ao nosso redor também se movimenta.

então, procurei uma loja de produtos naturais e comprei quase 2 kg de chás variados, pela internet. logicamente eu também não sabia que quase 2kg de chás variados era MUITO chá. quando o moço me entregou a sacola ele já me entregou rindo. e eu, um pouco assustada pela quantidade, disse: bom, agora eu tenho chá pra um ano. porém, agora já acredito que seja pra dois anos.

claro, depois disso eu também voltei pra terapia. 

passei meu aniversário sozinha. e, sim, me senti sozinha. decidi andar de bicicleta pelos arredores do paraíso que eu estava morando. em um final de semana, andei 22km. voltei bêbada e quebrei meu telefone. mas, por sorte, fiquei inteira. fisicamente. (calma tias, prometi pra mim mesma que nunca mais faria isso). mesmo com muitos clientes na minha própria empresa, por ainda não me achar suficiente (e quem sabe também por me sentir muito sozinha), entrei pra uma outra que eu já namorava há alguns anos. saí em 4 meses. porque, quem sabe, consegui valorizar o quanto eu já tinha construído “sozinha” – coloco entre aspas porque nada do que eu construí foi sozinha, eu tive e tenho muita ajuda. e, no final das contas, e ainda bem, a gente nunca tá literalmente sozinho. 

adotei uma gata pra me fazer companhia. mas que ironia da vida, ela é tão inquieta quanto eu e passa a maior parte do tempo passeando. morei em extremos diferentes. 5 meses em um condomínio de luxo. 5 meses em um povoado. cada um com suas diferenças e belezas, que me fizeram repensar um monte sobre a tal da bolha que a gente vive e sobre meus próprios preconceitos enrustidos. fiquei alguns meses trancafiada em casa, na minha própria companhia, na quarentena. sim, quase surtei com o que eu chamo agora de “minha solitude imatura”. conheci muitas praias da areia branquinha e do mar azulverdetransparente aqui do nordeste, que foram minhas confidentes em vários choros de momentos reflexivos, saudosos ou felizes. adquiri vários novos traumas. a maioria deles tem baratas e lagartixas no meio. passei horas no boteco com meu novo amigo passageiro de 70 anos. e dancei funk na sala da minha casa com minhas novas amizades mirins. descobri na prática, que a amizade, assim como dizem do amor, não tem idade. e o quanto podemos aprender quando temos consciência genuína disso.

aqui onde estou agora é tão tranquilo que um dia briguei com o carro do ovo. afinal, nessa paz, qualquer barulho chega a ser irritante. muitas vezes nem precisei ligar o som. porque o do vizinho tava bom. e eu até gosto de joão gomes. joguei bola queimada na praia. aprendi a usar a criatividade ao máximo (será que tem máximo para a criatividade?). descobri que sou muito boa em dar “meus pulo”. e que nasci mesmo pra ser tia. muitas vezes achei que não ia dar conta. e muitas vezes não dei mesmo. aprendi a dizer: tá ok, lina. amanhã é outro dia. tive a oportunidade de me encontrar na minha forma mais tosca. mais triste. mais vazia. mais no fundo do poço. e também na minha forma mais feliz. mais pura. mais genuína. só comigo mesma. me descobri tão forte. tão ingênua. tão madura. tão imperfeita. vivi uma realidade completamente diferente da minha. estourei minha bolha. e quem sabe tenha feito uma nova.

todos os dias, um dia de cada vez, aprendo a viver comigo. na riqueza, na pobreza, na saúde, na doença. aprendo a dar lugar a tristeza. pra ver o que ela tem a me oferecer. e porque depois fica mais fácil dar lugar a alegria. vagando entre solidão e solitude. descubro que minhas próprias histórias de terror são mais assustadoras do que qualquer outro filme do gênero. e muitas vezes, se não todas, do que a própria realidade.

não vou dizer que tem sido fácil. mas também não ouso dizer que está sendo difícil. me coloco na posição do diferente. da observadora e aprendiz dessa vida tão bela, impermanente e imperfeita. vou me descobrindo, me conhecendo e, a cada dia, tendo a oportunidade de me amar um pouquinho mais.

já não acho que sai do conforto de estar sempre próxima de pessoas conhecidas só por ser inquieta e curiosa. mas sim, por querer me completar descobrir como pessoa. já que entendo que o tal do vazio humano, esse que todos nós sentimos em determinadas partes da vida, não está em coisas ou nas outras pessoas. ou nos bichos. ou em vícios.

quem sabe você tenha razão, vô. o ser humano não nasceu pra viver só. e preciso te contar que, sem fechar as portas para quem quiser entrar de bom grado e por ventura ficar, estou encontrando alguém com quem eu quero compartilhar o resto da minha vida: euzinha aqui.

Paulo

Alguém.

Conhecemos o Paulo numa quinta-feira de sol. Ele estava sentado no meio fio, perto da praça Tiradentes, olhando vagamente para a rua. Quem sabe, esperando que alguém o percebesse. Ou só passando o tempo mesmo.

Ao lado direito, um Corotinho. No bolso, cigarro.

Perguntamos para o Paulo se podíamos conversar com ele. O Paulo olhou pra gente surpreso. Ele vestia um casaco marrom. Quase sem cabelo e com a barba, já quase branca mesmo parecendo muito novo, estava rala. O Paulo tem olho castanho, um olho castanho escuro, misterioso e amedrontado, na defensiva.

Quando chegamos, o Paulo estava com uma mão apoiada no joelho e a outra na cabeça. De certo, o Paulo estava um pouco preocupado. Mas aceitou muito simpaticamente conversar com a gente. 

Tava frio naquela quinta-feira. O vento rasgava um pouco nossa alma. Ou seria a conversa? A gente tava tremendo de frio. E o Paulo, pra se esquentar, ou pra se esquecer, tinha bebido. Tinha um hálito levemente encachaçado. De tristeza.

O erro do Paulo foi que, em um dia qualquer, deixou o ventilador ligado por muito tempo e, quando voltou, sua casa havia pegado fogo. Como ele não tinha pra onde ir, mesmo com 2 filhos em Colombo, 6 irmãos em Curitiba e um neto de 15 anos, foi pra rua. E na rua ficou.

“A prefeitura disse que ia arrumar minha casa, mas até hoje, nada. Então, eu tô aqui né.”

O Paulo teve uma infância difícil. Não conheceu o pai dele, mas ama a mãe, que o visita com frequência nas ruas. Ele também não se dá muito bem com o cunhado, que mora no mesmo terreno da mãe. E esse é o motivo pelo qual o Paulo não mora com a mãe. 

O Paulo acredita muito em Deus e não gosta de incomodar as pessoas. E por isso não quer atrapalhar a vida dos filhos. 

“Não dá pra atrapalhar a vida deles né? Por isso eu prefiro viver na rua. Pra não dar problema. Mas creio que Deus não vai me deixar assim por muito mais tempo.”

Aquele dia a única coisa que o Paulo queria era receber um “boa tarde”. 

Com a voz embargada, com o rosto molhado de lágrimas, tentando se esconder, o Paulo, que já se envolveu muito com drogas nas ruas, contou pra gente que ele não quer fazer mal pra ninguém. O Paulo, que hoje trabalha como guardador de carros, perguntou pra gente, o que custava dar um “boa tarde”? 

Olhar pra gente. 

“O que custava o cara olhar?”

E a gente, com lágrima no olho, olhou pra baixo. Pra não ter que responder? Ou por não ter o que responder. 

O Paulo sentia vergonha. Sentia que era ninguém. Mas o Paulo chorava. Existia. Sentia. O Paulo é alguém. Se o Paulo soubesse que ele é alguém, muito mais do que muita gente. 

E as amizades Paulo, você tem amigos?

Indignado, surpreso e com uma certa raiva, o Paulo pergunta: “que amigos? Não existe amizade na rua. Todo mundo é inimigo.”

Faz 6 meses que o Paulo tá na rua. O Paulo, que já trabalhou na Copel, como eletricista. O Paulo, que quando criança vendia rosas. O Paulo, que queria ter estudado, pra ter uma vida melhor. 

Mas quem ensinou o Paulo foi o mundo, como ele mesmo disse. Esse mundo que estamos agora. Esse mundo que prefere não ver. Esse mundo que prefere esconder. Esse mundo que prefere atirar. Esse mundo que prefere sujar. Roubar. Para não dizer matar. Esse mundo que precisa ter resistência. 

Quem será que é esse mundo que ensinou o Paulo? 

O Paulo, que vive nesse mundo, que existe nesse mundo, contou pra gente que gosta muito de maionese com carne assada, e que ainda não tinha almoçado naquele dia. Então, compramos comida para o Paulo almoçar. E uma água pra não ficar só no Corotinho, né Paulo? 

Um alguém.

José

Reciclador.

No Largo da Ordem, sentado ao pé da igreja em frente ao Cavalo Babão, com alguns amigos, o José estava fazendo arte com latas de alumínio. Panelinhas, disse ele. Para ganhar a vida

Mas a vida a gente não ganha quando nasce?

O José usava um boné um pouco gasto do tempo e estava com as pernas cruzadas, com um cobertor por cima. Embora parecesse mais novo, mais pelo jeito do que pela aparência, o José contou que tem 48 anos. 

Um pouco inquieto quando chegamos, o José parecia levemente embriagado. Ao lado direito tinha um Corotinho*.

E, assim como seus amigos que estavam lá, o José precisava falar. Ele contou a história dele pra gente em pouco tempo, com muita objetividade e uma certa pressa. O José falava como se cantasse uma música ou recitasse um poema.

Nascido na rua.

Jogado em uma uma lixeira. 
A mãe do José era pobre. 
Tinha medo.
Usava drogas. 
Sei lá, era 72.

Encontrado na lixeira.
Um catador de papelão deu a José o significado de família.
E veja só, o José ama a família que a rua deu pra ele. 

O José ganhou 6 irmãos.
Que viveram a infância com ele.
Gostosa, segundo ele, na maior parte do tempo.

Quando criança o José ia atrás da sua comida. Na feira. 
Debaixo das bancas sempre sobra alguma coisa né?
Foi assim que o José sobreviveu.
Rua, rua, rua.

Um dia o José teve que carregar um irmão no colo.

Morto.
Com 9 facadas.
Aos 17 anos. 

O irmão que o José mais amava.
Trabalhavam, carpiam, brincavam. Juntos. 
Companheiros. 
A gente tinha trabalhado 8 meses pro japonês.

O José veio de uma longa caminhada.
Pé por pé.
Desde Embu das Artes em SP, até Curitiba.
372 km.

No caminho, o José casou.
Uma “coroinha” daora. Gente boa, ela.
Mas o diabo da rua né? 
Voltei.

O José aprontou um monte de coisa errada.
Fez um monte de coisa ruim para os outros.
Mas o José não vai contar o que ele fez e o que ele não fez.
Pra num, né? Cê sabe. Altos problemas.

O José não é bobo. 
Ele sabe qual é a pior droga do mundo. 
Não é o craque, não é a cocaína, não é o álcool. 
Nem o cigarro. 

Não existe coisa pior. 
A pior droga do mundo, é a tal da rua.

Mas o José saiu dela.
26 vezes. 

O José faz coleção de panelinhas.
Tira latas do lixo para fazer a arte dele. 
O José dá presentes em troca de alguma ajuda.
Se quiser né? Porque o José acha horrível pedir dinheiro.
Também não roubamos ninguém, não precisa. 

O José é reciclador.
Faz artesanatos com o que iria pro lixo.

O José.
Reciclador.
Recicla-DOR.
É rua.

* Corote, de apelido Corotinho, pelo tamanho da garrafa, é uma bebida com índice de teor alcoólico super alto (39%) e muito barata (R$ 3,50/R$4,00) usada tanto em carnavais da classe média alta, como também na miséria das ruas.

um dia eu vou morrer

lembro bem desse dia. eu tava sentada no colo da minha mãe no nosso sofá, lá em Londrina. acredito que eu tinha uns 5 anos, ou 6. eu nunca sei direito. tava questionando essas coisas que as crianças questionam. fazendo perguntas capciosas. uma delas, não foi bem uma pergunta, mas uma suposição: mãe, você nunca vai morrer, né?

claro, já contei aqui algumas vezes, minha mãe prezava pela verdade, às vezes de uma forma doce, às vezes sem muitos rodeios. ela me respondeu que ia sim. quando chegasse a sua hora, ela teria que partir. 

como assim, mãe, o que eu faria sem você nesse mundo?

eis que tive que descobrir, cedo demais. sempre é cedo demais. 

esses dias eu tava caminhando apressada na praia e lembrei dessa ocasião. eu tava caminhando super rápido e pensando que eu tinha que chegar logo em “tal lugar” (tal lugar, porque na verdade, eu nem tinha um lugar pra ir, nem ninguém com quem encontrar). foi aí que eu parei. de repente. por que eu tava caminhando rápido mesmo? comecei a caminhar mais devagar. olhar com cuidado o caminho por onde andava. tão bonito. a coisa mais bonita desse mundo. é o que eu sempre digo quando vejo paisagens, bichos, plantas, pessoas, gestos, dos quais eu não consigo explicar muito bem a beleza, apenas sentir.

levei isso pro resto do meu dia. como eu tava fazendo as coisas correndo. tudo correndo. exceto meu café da manhã, que é lerdo e vagaroso. a hora mais boa do meu dia, inclusive. o restante é apressado. preciso cumprir com a agenda do dia. as entregas atrasadas. responder as mensagens. responder as mensagens. responder as mensagens. tentar produzir alguma coisa. reunião. responder as mensagens. almoço. rápido, porque afinal, você nem conseguiu produzir nada de manhã, Lina. reunião. responder as mensagens. reunião. tentar produzir algo já pensando no que eu tenho que fazer depois. rápido. o que vão pensar se eu não entregar.

minha respiração começa a ficar curta. minhas pernas começam a doer. minha cabeça já não quer mais permanecer. cansaço. autocobrança. exaustão. 

esses sentimentos que a sociedade moderna tem. a sociedade do controle. do cansaço. da exaustão. Byung-Chul Han explica.

percebendo tudo isso, percebi também que absolutamente ninguém está no meu dia a dia convivendo com esses sentimentos e me cobrando diretamente por alguma coisa. eu mesma faço isso com muita destreza. então, só cabe a mim me respeitar e me dar o tempo necessário, o tempo que for, pra curtir mais o meu caminho. seja o caminho da praia. seja o caminho da vida. 

é difícil sair dessa pressa contínua. da aceleração automática do dia. mas é possível. hoje, cada tarefinha, por menor que seja, cada vez que sento pra trabalhar, pra fazer nada ou apreciar a vista, tento perceber a aceleração. percebendo, desligo (ou tento). e respeito meu tempo de fazer, ou não, tudo o que tenho no dia. 

esse é mais um dia que tenho. e era pra eu estar olhando um documento enviado na sexta. mas eu queria escrever. porque hoje é mais um dia que posso escolher como vou viver. que posso trabalhar pra realizar um sonho. ou pra realizar uma vontade da minha essência. é mais um dia que acordo e vejo o sol. que posso dormir abraçadinha com minha gatinha. que posso tomar sorvete na rua. 

se tem uma coisa que eu tive que descobrir sem a minha mãe nesse mundo é que a vida é pra ser vivida. apreciada. degustada. um dia de cada vez. com (c) alma. sem pressa. mas com intensidade. com presença. com consciência. e de verdade. 

pois um dia, todos nós, nos vamos. como vai ser o caminho, hoje?

prisioneira da própria liberdade

eu me achava uma pessoa muito livre. 

faz tempo que eu tenho o privilégio de fazer meus próprios horários. de fazer minhas próprias refeições (apesar da preguiça de cozinhar). de trabalhar no horário que escolho. de fazer exercício no horário que mais gosto. de ter minhas horas de leitura e estudo no horário que consigo. 

horários.

era tão livre que eu mesma tive a liberdade de me aprisionar nos meus horários. tentando buscar um padrão inexistente. pra de novo tentar me encaixar num mundo que não me pertence. eu vivo fazendo isso.

aconteceu que a culpa começou a preencher todos os meus horários. quando eu ia caminhar na praia e não estava trabalhando eu me sentia culpada. quando eu trabalhava e não ia à praia eu me sentia culpada. quando eu não lavava a louça eu me sentia culpada. quando eu não limpava a casa. quando eu limpava. quando eu não fazia exercício. quando eu “perdia” meu tempo escrevendo. por viver a vida. por não viver a vida. por morar num lugar tão lindo. por estar longe da minha família. por assistir muito netflix. em praticamente tudo a culpa estava presente.

ainda bem que existe a terapia.

a pergunta que comecei a fazer a mim mesma foi: como sair da prisão que eu mesma criei? cadê a chave, gente? será que deixei com alguém? escondi e não lembro?

não tem chave, lina. acorda. volta aqui. pra tua essência. volta aqui ver o tanto de lindeza que tem nessa vida. observa que pra sair da maior arapuca de todas, aquela que a gente mesmo cria pra gente (ou aquelas), é mais fácil (não falei simples) de sair do que imaginamos.

a gente precisa só abrir a porta. abrir a porta da vida. do viver a vida. mas sabe o que? é preciso coragem pra abrir essa porta. coragem pra abrir a porta da vida e ir viver ela. é aquela história da caverna. a diferença é que quando a gente sai uma vez e depois volta, nossa alma não aceita mais a permanência. ela quer sair dançar e viver aquela vida cheia de vida, sabe? que ela viveu uma vez. 

seja o que for viver a vida pra você, é preciso MUITA coragem pra fazer isso. é preciso coragem (e não o foda-se) pra você fechar seu computador às 16h da tarde e ir dar uma volta na praia. ou no parque. ou na rua. é preciso coragem pra dizer não, quando não lhe faz bem. seja qual for o não que você tiver que falar. é preciso coragem pra pedir ajuda. pra fazer terapia. pra se conhecer. é preciso coragem pra você parar de contar as calorias. e começar a contar as experiências. é preciso coragem pra impor limites. é preciso coragem pra deixar o berço e ir viver sua própria vida. seja onde for. é preciso coragem pra aceitar evoluir. porque dói gente. crescer dói e todo mundo sabe disso. só não sabe quem tá na inércia. 

é preciso coragem pra se aceitar. pra aceitar as rugas. pra aceitar o corpo. pra aceitar a loucura. é preciso coragem para se amar. pra amar as rugas. pra amar o corpo. pra amar a loucura. o cabelo. é preciso coragem pra desbravar o desconhecido. pra enfrentar o normal. pra sair do “padrão” que te faz infeliz. que te cega. que te deixa robotizado. que te faz acelerar ainda mais. é preciso coragem pra deixar as des(culpas) de lado. é preciso coragem pra ser feliz. é preciso coragem pra viver a vida. 

pra viver a vida, é preciso coragem.

a boa notícia é que coragem não é ausência de medo. mas depende de você.

e aí, vai continuar trancada (o)? saiba que a porta tá aberta e vida tá on.

24 horas sem horas

acordei sem tempo
porque não tinha ponteiro pra dizer 
que meus olhos precisavam abrir
e meu estômago precisava comer
acordei com tempo
porque não tinha ponteiro pra correr
não tinha pressa
porque de repente não tinha hora pra fazer
será que o tempo é uma ilusão
que a gente resolveu viver
de maneira real
só pra aquele vazio 
a gente preencher
mas olha só
que coisa
quando temos tempo
sem relógio
tudo parece que fica cheio
de bons momentos
sentimentos
parece um segredo
ninguém tá me vendo
só eu e meu espelho
minha dança 
e o lenine que escuto sem parar

“mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
até quando o corpo pede um pouco mais de alma
a vida não para
enquanto o tempo acelera e pede pressa
eu me recuso, faço hora, vou na valsa
a vida é tão rara
enquanto todo mundo espera a cura do mal
e a loucura finge que isso tudo é normal
eu finjo ter paciência
o mundo vai girando cada vez mais veloz
a gente espera do mundo e o mundo espera de nós
um pouco mais de paciência
será que é tempo que lhe falta pra perceber
será que temos esse tempo pra perder
e quem quer saber
a vida é tão rara, tão rara”

pois é lenine
mas amanhã é segunda
e preciso acordar
pra uma realidade 
que só existe
num aparelho 
celular.

Quando forem comprar ração.

Era um daqueles dias que fazia muito calor em Curitiba, muito calor mesmo. A gente tava de roupa de verão à noite. Faz tempo, mas tenho memória boa. Logo depois de adotarmos o Sushi.

Depois de um dia de muito trabalho, na agência doidona (a gente fica doidona também porque trabalha muitão). E depois de Amanda sair do trabalho dela, da agência doidona dela, a Nossa Causa, fomos comprar alguma coisa pro Sushi que, no caso, era a ração dele. Só a ração.

A Amanda tinha cabelo loiro naquela época. Ela vivia trocando a cor do cabelo, bem doidona (to com essa palavra na cabeça hoje: doidona. Porque aquele dia me lembra isso). Euzinha aqui acho que tava igual hoje, só que com menos linhas de expressão, vamos chamar assim.

A cor do meu sapato era cinza. Mentira, isso de fato eu não lembro.

Fomos lá no Angeloni das Mercês (esses dias descobri que não é das Mercês), onde tinha o lugar que a gente compra a ração do Sushi de 5kg (eu acho, ou tô inventando, mas isso não importa) e é mais barata do que em outros lugares. No pet shop do Angeloni. Assim chamamos.

Antes de a gente entrar no pet, a gente tomou um suco e comeu um crepe. Fato importante já que o intuito de ir lá no Angeloni era comprar apenas uma ração.

Entramos no pet shop e perguntamos pela ração. Até aí tudo bem, a gente só tinha comido um crepe e tomado um suco e estávamos prestes a pagar a ração do Sushi. Mas aí olhamos pro lado, pro outro lado, pra frente, pra trás e o fato era que tinha muita coisa legal.

Claro, coisas que precisávamos, tipo uma bolinha de brinquedo com maconha de gato (catnip?), realmente muito necessária. A qual o nosso querido Sushi destruiu em 5 minutos, by the way.

Saímos do pet shop com: bolinha de maconha de gato, arranhador para gato (que o Sushi nunca usou em toda a sua existência e que tempos depois o enteado da amiga Fê, destruiu. Um menino muito desastroso o Benja, mas um docinho de criança). Continuando a lista: um ratinho de pelúcia (dois na verdade). E o Sushi nem gosta de rato, gosta de mariposa.

*Pausa para reflexão: por que ainda não inventaram mariposa de brinquedo? Ou já tem e eu não sei?

Continuando: brinquedos para gato em geral, areia para gato, banheiro de gato (aquelas bacias de gato que ele usa pra fazer xixi e coco), e claro, a ração né, não vamos esquecer a ração.

A conta foi alta. E a gente só tinha ido comprar ração.

Até esse momento, depois de 2  horas no pet shop, gastamos mais do que fomos gastar e nem tínhamos pra gastar, mas não estávamos nada satisfeitas. Pois além de termos comido crepe, tomado suco e comprado uma casa da Barbie completa pro Sushi, a gente lembrou que faltava café em casa. Lembra do acordo né? Não podia faltar café.

Entramos no mercado Angeloni, pela escada rolante (aquela que a gente usa pra andar mais rápido e não pra parar e trancar a frente dos outros). O pet shop fica embaixo do mercado, que infortúnio. E lá fomos nós comprar café.

No meio do mercado descobrimos que, além do café, também não tínhamos mais vassoura. E nem rodo. E nem pano de chão.

E nem uma TV.

Pois é.

A gente ia comprar uma ração e saímos de lá com uma TV. Smart, claro. Netflix, né.

Essa TV, aliás, foi nossa primeira compra juntas. Nunca nos arrependemos da TV. Mas da bolinha com maconha de gato sim.

Então, fica aqui uma lição: se vocês por acaso acataram a ideia de ter um gatinho, quando forem comprar ração, não comam crepe, nem tomem suco, comprem a ração e saiam correndo.

*Tamo pagando a conta até hoje.

Júpiter Sushi.

Não lembro qual era o ano, mas acredito que 2014. Tivemos nosso primeiro filho. 

Eu ainda trabalhava em agência de publicidade/design, coisa que não recomendo por muito tempo pra ninguém.

E a vida tava corrida, no sentido de casa-trabalho-trabalho-casa, aquela correria que não é vida e sim apenas uma correria sem sentido nenhum. Um momento da vida em que vivemos para trabalhar e só isso, até nos darmos conta que a vida é muito mais. 

Bom, nessa agência conheci muita gente que já tinha filhos, e quando digo filhos me refiro a um animal de estimação (risos), que com certeza é bem menos trabalhoso do que um ser humaninho (eu acho).

Em todo caso, nunca quis ter filhos, nem humano, nem bicho. Mas quando eu ouvia os amigos da firma contarem as histórias de seus bichanos eu achava apenas… muito fofo. Ou não achava nada, não lembro. Confesso que não entendia muito bem, achava tudo muito distante, um pouco doido, um pouco sei lá isso não é pra mim.

Por outro lado vivi em uma família que gostava apenas de cachorro, não de gato. Gato é coisa do djanho. Gato é um bicho esquisito. Gato solta pelo. Gato é bruxaria. Sai daqui gato. Suma gato. Meu pai, em especial, não é um grande fã de gatos. Mas adora cachorro. Vai entender.

E foi nessa época que eu comecei a despertar uma vontadezinha de ter um gatinho. Fiquei só na vontade. Já que eu morava com a Amanda e acreditava que ela não iria querer um filhotinho pra cuidar, nem me dei ao trabalho de alimentar a minha vontade.

Até que um belo dia, que era noite na verdade, a Amanda voltou da casa da irmã dela animada, digamos assim (eu não lembro). Sentamos no sofá e conversamos um pouco, estávamos assistindo alguma coisa sem importância na TV e, de repente, a Amanda me fala:

– Minha irmã achou 2 gatinhos na rua e ela não sabe o que fazer com eles.

– É u que? (eu)

– Queria dar um pra gente.

– AI MEU DEUS GURIA VAMO POR FAVOR DIZ QUE SIM VAM VAM VAM (eu)

– Será guria?

E foi aí que tivemos nosso primeiro gatinho, o Júpiter Sushi, mais conhecido como Sushi Nome carinhosamente escolhido pela irmã da Amanda, a Luana. E respeitosamente mantido por nós, porque faz todo sentido né.

O Sushi apareceu em nossas vidas com 1 ano, acredito eu.

Uma peste. Miava a noite toda, abria a porta do meu quarto, coisa que aprendeu com apenas um mês de convivência, queria carinho (sim gatos são carentes também), queria comida, se escondia, miava, miava, miava.

Miava.

Mas aos poucos fomos nos acostumando. Todos nós 3. E depois 4, com a tia Fê. E a casa ficou mais feliz. E mais divertida. E mais suja também. O Sushi é um gatinho sociável, amadinho, lindo. Tirando os dias que ele não é.

Adotem um gatinho. Ou um cachorro se for de sua preferência. E cuidem é claro.

Eles têm muito a ensinar sobre paciência, parceria, dar/receber carinho e amor. Mas adotem né? Vocês não acham muito esquisito comprar um animal? É esquisito gente, tudo que é esquisito e não faz sentido, vale uma dúvida, um pensamento, um raciocínio mais aguçado. Adotem.

O SUSHI É MARAVILHOSOOOOOOOOOOOOOOO

que post fofo e sem graça é esse mds.

Café, pão, queijo e cerveja.

Eu e a Amanda nos conhecemos na faculdade. Passamos no vestibular em agosto de 2007, em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. E terminamos tudo no ano combinado, 2011 (mesmo eu demorando 2 anos para pegar meu diploma, esse que se encontra guardado e mofado em algum lugar).

Boas alunas na medida do possível. Tinha um costelão com cerveja de garrafa ao lado do nosso centro de estudos, não era fácil.

Trabalhamos desde o primeiro ano e estudávamos à noite pra isso (foi aí que descobri que por mais calor que se faça durante o dia em Curitiba, SEMPRE leve casaco aonde quer que você vá nessa cidade).

Eu e a Amanda chegamos inclusive a trabalhar e estudar juntas em um determinado momento (Amanda você está me sufocando).

Fomos nos conhecendo e achando vários pontos em comum, um dos principais o gosto (pela fuleragenzinha) pela vida e a alma que nunca deixou de ser criança. Algumas pessoas sofrem com isso, perdão vizinhos. E Fer ❤

Desde esses primórdios da faculdade a gente começou a pensar em dividir um apê, afinal, saímos da casa dos nossos pais novinhas e a gente não tinha muita (ou nenhuma) grana pra pagar um aluguel sozinhas.

Entre uma saideira e outra (s), o assunto ficou pairando no ar, cada uma foi morar pra um lado e, no final da faculdade, decidi morar um tempo fora. Foi quando voltei que, pirilim pim pim, decidimos dividir o tal apê.

Achamos nossa primeira moradia divisória em 2013. E posso dar algumas dicas aqui para quem está nessa fase da vida:

  1. PRIORIDADES

Se você está procurando um apê pra dividir com alguém ou pra morar sozinha (o), pesquise em lugares que dê pra andar a pé tranquilamente, perto de mercado, farmácia, ônibus, perto do seu trabalho/facul, perto do parque e, se der, perto de um bar e pizzaria.

Veja se pega sol, se tem muito barulho e coisas que você prioriza em uma moradia, tipo lugar pra colocar um varal (acredite, vai ser prioridade um dia).

  1. PRIMEIRA IMPRESSÃO 1

Olhe as fotos pela internet e, se você não gostar das fotos, já descarte. As fotos mostram muito do que o ambiente realmente é e, geralmente, se você mesmo assim decide fazer a visita, vai perder um tempinho precioso na sua vida.

  1. MENSAGEM SUBLIMINAR

Como diquinha de quem acredita em energia (e essa vocês interpretam do jeito que der) quando forem fazer uma visita, indico saber sentir a vibração energética do lugar que você está visitando.

Você sente isso quando entra, é fácil, é só escutar o core e a intuição, vai aprendendo, inclusive quando for escolher alguém pra dividir o apê (a vida).

  1. LEIA AS ENTRELINHAS

Decidiu que o apê vai ser aquele bonito, gostoso e perfeito para o seu momento de vida, agora vem a parte que a gente descobre que, na verdade, cereja é xuxu.

Pausa pra reflexão: sabia que aquela calda de cereja ruim pá kct, que tem naqueles buffets de sorvete, é na verdade xuxu em bolinha com calda de alguma coisa nojenta? É uma enganação, garotx.

Voltando aqui: você vai precisar comprovar renda. Caso você decida pelo modelo tradicional não evoluído de alugar um apê, você vai ter uma imobiliária.

Então, se você não ganha o suficiente para comprovar que tem uma renda de milionário e que tem imóveis próprios, etc., o que a maioria da população brasileira não tem, você vai precisar de fiador. Aquela pessoa que coloca o nome na reta por você caso você deixe de pagar um aluguel (tia Clau e tio Edi, obrigada).

Dependendo do imóvel e da imobiliária, por vezes você vai precisar de um locatário também. Mas pera Lina, o locatário não sou eu? Se a sua renda for 3x maior que o aluguel do apê que você está alugando, pode ser. Senão, não (claro, dependendo da imobiliária). Há também a opção de dividir o contrato de locatário. Aqui em casa por exemplo, sou eu e a Fer.

Então vamos lá: o locatário é aquela pessoa que ganha bastante o suficiente para alugar um imóvel (que pode ser você ou alguém da sua família ou alguém que esteja disposto a correr quase o mesmo risco que o fiador).

Essas pessoas geralmente te amam muito e confiam em você. Retribua, ok?

Resumindo: se você não é rico, algumas imobiliárias exigem um fiador e um locatário de dinheiro.

Depois de todo esse auê, você ainda vai precisar ler contrato. E tem que ler com atenção. Sim, 2018 e ainda estamos com a parte burocrática disso emperrada nos anos xx – não sei mesmo, de tanto tempo que faz.

Enfim, leia atentamente o contrato, se tiver imobiliária envolvida no negócio, pesquise a reputação dela antes. E principalmente: leia as entrelinhas da vistoria. A vistoria gente, prestem a atenção na vistoria!

  1. NÃO DESISTA

Aí Lina, que difícil, melhor ficar na casa mãe mesmo né? Não, não! Não desista, que tem jeito mais fácil.

A boa notícia é que alguém está fazendo alguma coisa. Veja só, já temos bons empreendimentos que cortam algumas partes burocráticas das quais falei aqui:

https://www.quintoandar.com.br/

https://www.zapimoveis.com.br

Confesso que nunca usei nenhum, mas com certeza negócios como esses são tendências e, futuramente, a parte burocrática provavelmente ficará bem mais easy going (tradução livre: fácil).

Bom né? Falei tudo aquilo antes só pra dar mais emoção.

Passadas as dicas, você já encontrou seu apê lindão, aprendeu que cereja é xuxu e tá dividindo apê com migxs maravidivxs, ou morando sozinhx. Aqui vai minha última dica pra esse começo de temporada:

Façam acordos. Assim como eu e a Amanda fizemos.

Número 1: não pode faltar café, pão, queijo e cerveja.

Fim dos acordos. Fim do post também.