a vida é bela

Você já experimentou contar carneirinhos quando não consegue dormir? É uma boa experiência, sabe. Não sei se você vai, de fato, conseguir dormir. A primeira vez que tentei não consegui. Acho que eu tava muito entusiasmada em imaginar os carneirinhos. 

Pra mim, eles pulavam um pequeno cavalete. Colorido. Tinha sol. Quem sabe por isso que eu não consegui dormir dessa vez, quem sabe eu teria que ter imaginado a noite. A lua. As estrelas. Mas não sei, aquela vez, na minha imaginação, tinha sol. E um arco-íris.

Carneirinhos e ovelhinhas. Tão fofos né? Era uma noite quente. A gente ainda morava em Londrina. Lembro bem do meu quarto, que era o quarto do meu irmão também. Tinha uma porta de madeira. Mas não essa madeira escura. Era uma madeira bem clarinha. Quem sabe até tenha sido meu pai quem fez. 

Colado na porta tinha um adesivo que, se não me engano, ganhei na feira, onde meu pai trabalhava, escrito: a vida é bela, a gente é que empeteca ela. E tinha uma peteca desenhada do lado. Claro, que sentido teria essa frase sem essa peteca desenhada? 

Que frase ótima pra levar pra vida. Não empetequem suas vidas, gente. 

Uma boa parte da nossa infância eu e meu irmão passamos dormindo em beliche. Eu dormia na cama de cima. E, um belo dia, caí. Sorte que a minha mãe, sempre precavida (ou vidente), deixava um colchão embaixo. 

Caí e não consegui respirar por alguns segundos. Até que eu consegui gritar. E minha mãe veio correndo pro quarto. Assustada. Abriu a janela, antes de qualquer coisa. E disse: levanta os braços. Eu levantei e a respiração fluiu de novo. Junto com o choro. Eu nem sabia direito o que tinha acontecido ainda. Mas depois disso, nunca mais consegui dormir em beliche.

Não foi nessa noite que eu contei carneirinhos. Foi em outra noite qualquer. E a ideia foi da minha mãe, claro. Sem saber, ou sabendo, já estava me ensinando princípios de meditação. Eu contei que não estava conseguindo dormir. E minha mãe me disse pra contar carneirinhos, pois o sono viria assim.

Fechei os olhos e comecei a contagem. Contei. Contei. Contei. E chegou uma hora que perdi as contas. Aí pensei: e agora? Levantei, fui até o quarto da minha mãe e disse: mãe, perdi as contas. O que eu faço agora?

Rindo, minha mãe me disse pra voltar a contar. E se eu perdesse as contas, pra voltar do zero. Até eu pegar no sono. Depois não lembro, devo ter pegado no sono mesmo.

Bom, pensando bem, tudo isso poderia ser uma metáfora* da vida. Se você perder (as contas, a paciência, os caminhos, as estribeiras), recomeça a contagem. Se você cair, levanta os braços pra respirar. Deixa o choro fluir. Recupera a respiração. Começa tudo de novo. Quantas vezes forem necessárias. 

Todo recomeço é uma nova oportunidade de enxergar. Que a vida é bela. A gente é que empeteca ela.

*Eu nunca sei se usei a figura de linguagem correta.

Lua, Páscoa e Sonho.

Último dia do ano de 2019. 

Naquela tarde eu tinha feito um post no meu Instagram, com uma Kaiser na mão, em uma piscina de plástico, falando, entre outras coisas, para quem fosse ler aquilo, olhar mais pro céu em 2020. Afinal, a lua estava linda.

Mais depois, pra passar a virada do ano, eu e meu irmão fomos até a casa da mãe da minha tia, que não é a minha avó, mas que consideramos como se fosse. Muita família envolvida em pouco espaço de texto, eu sei. Sentamos na beirada da piscina. Em uma rodinha com as pessoas que já estavam lá. O chopp estava liberado desde cedo, claro. 

Devia ser umas 18h45. Eu posso muito bem estar inventando esse horário. Mas era aquele finalzinho de tarde, sabe? Tinha sol e chuva. Ou chuva e sol? E, naquela correria boa dos últimos preparativos, antes de todo mundo tomar banho e ficar lindeza para o ano que chega, olhamos para o céu. 

Olhamos para o céu e vimos um arco-íris DUPLO. D-U-P-L-O. Alguém aí já viu um arco-íris duplo? Um em cima, outro embaixo. Eu interpretei aquilo como 2020. Um presente do ano duplo chegando, sei lá. Sei que foi bonito. E, conforme foi anoitecendo e as nuvens dando espaço, a lua foi se destacando. 

Papo vai, papo vem, todo mundo pronto, a roda foi aumentando, o chopp fazendo efeito. Olhamos para o céu novamente. Nossa, como a lua tá linda. 

É crescente ou minguante? Alguém pergunta aleatoriamente.

Crescente. Eu acho que é minguante. Não, hoje eu tava escrevendo um texto e disse que era minguante, mas fui pesquisar e vi que era crescente. Ué Lina, pergunta pra Bruna, ela manja dessas coisas, tem até tatuagem. É crescente, porque tá crescendo. Não Thai, é minguante, porque tá minguando. Mas tem aquela coisa de quarto crescente, quarto minguante, não tem? Pesquisa aí no Google, Rafa. Daniel, tu que é agricultor, deveria saber. Então, tô falando, acho que é crescente. Faz sentido, tá tudo crescendo mesmo. Mas eu acho que é minguante. Achei! É crescente tio, tá escrito aqui. Não, mas essa é a anterior. Olha agora. Ah é, então é quarto crescente. Não, não, não! Crescente é a de agora. É crescente então? Sim, é crescente. Ah, então é crescente mesmo.

Para quem não sabe, a lua da virada do ano de 2019 para 2020 foi crescente. 

E essa discussão me fez perceber que eu sempre gostei muito da lua. Quando ela tá cheia, e não crescente nem minguante ou o quarto sei lá o que, dá pra ver o coelhinho da Páscoa. Vocês têm a mesma história que eu sobre o coelhinho da Páscoa? 

Na inocência da minha infância, minha mãe me contou que o coelhinho da Páscoa ficava na lua e só saia de lá para entregar os ovinhos de Páscoa. Na Páscoa, claro. O estranho era que o formato do coelhinho ficava lá até nos dias de Páscoa, quando a lua era cheia. Mas pra isso, minha mãe me falava que era um dublê. Porque não dava pra deixar a lua sozinha né? Então, toda vez que eu olhava pra lua eu via o coelhinho da Páscoa. 

Se vocês nunca observaram isso, tentem, por favor.

Bom, cresci achando que o coelhinho da Páscoa morava na lua. E toda Páscoa, eu, meu irmão e meus primos, que morávamos em uma chácara, em Londrina (já devo ter falado disso por aqui), passávamos o dia todo atrás das pegadas do coelhinho da Páscoa. Não das pegadas de farinha. Pegadas deixadas na terra, onde a gente imaginava que era pegada de coelhinho da Páscoa. Na verdade eram pegadas de cachorro, né. E dos pelos brancos. Que eram das galinhas. Mas NÃO CONTEM pras crianças. 

Acho que era uma das nossas noites/dias mais esperados. Mais que o Natal. Vivíamos para aquela virada de noite. A gente lutava o máximo que podia pra não dormir (no meu caso essa luta não era muito difícil, pois o sono sempre me venceu facilmente). Atentos a tudo. Sons, vultos, cheiros, etc. Tudo era o coelhinho da Páscoa. 

Nos reuníamos na casa de alguém e ficávamos entre dormir de cansaço ou ver o coelhinho da Páscoa. E minha mãe ficava esperando nosso sono vencer, para então fazer todo o processo: esconder os ovos, fazer as pegadas, deixar bilhetinhos, etc.

Em uma daquelas noites de Páscoa, eu que já não me achava assim mais tão criança, resolvi que VERIA o coelhinho da Páscoa. Estava determinada (desconfiada) a descobrir a verdade. Queria perguntar pra ele como era morar na lua. Então, à noite, quando minha mãe foi no quarto pra perguntar (ter certeza) se já estávamos dormindo, eu fingi que sim. Me julguem.

Fiquei esperando uns minutinhos na cama até que decidi levantar. Silenciosamente. Fui até a sala. Sem saber se estava fazendo certo. Vai que o coelhinho me sequestra? Fiquei esperando atrás do sofá por um tempo. Ouvi barulhos. Meu coração ia saltar pela boca. Fui erguendo a cabeça pra espiar mais, agitada, aos pouquinhos e… foi aí que eu vi. 

Minha mãe estava de costas pra mim, na cozinha ainda, quase chegando na sala (onde eu estava), terminando as pegadas de farinha. Fiquei chocada. Descobri que o coelhinho da Páscoa era, na verdade, minha mãe. Nada mais fazia sentido no mundo de Lina Fantasia Batista Bennemann. Ainda assim, fiquei quietinha, esperando ela finalizar as pegadas. Quando ela terminou e foi checar se estava tudo certo, fui descoberta também. De surpresa.

Lina, há quanto tempo você tá aí?!?!??

Eu, de pé atrás do sofá, não tinha mais resposta pra nada. Caminhei um pouco e sentei no sofá com as pernas em indiozinho. Absolutamente decepcionada com a vida. Olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé, olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé. Não respondi nada. Ela, com muita calma e meio surpresa pelo ocorrido, sentou do meu lado. Pensou um pouco. E falou que o coelhinho tinha tirado férias. 

Sério mãe??? Eu sei que não é verdade.

De todo jeito ela tentou me fazer acreditar de novo. Mas que coisa, a gente vai perdendo a fantasia né. A partir daquele dia, eu não acreditava mais em coelhinho da Páscoa. E comecei a duvidar de outros contos.

Pra ter certeza, no outro dia, andando de mãos dadas com a minha mãe pela chácara, eu perguntei pra ela sobre a existência do Papai Noel. Querendo muito que a existência fosse confirmada mesmo. Claro, conhecendo a minha mãe, ela nunca teria me dito que não existe. Minha mãe sempre valorizou a fantasia. Porém, também não me mentiu. Ela me disse uma frase, que por vezes sai da minha memória racional, mas que nunca saiu do meu coração:

“Não é sobre existir ou não, é sobre acreditar. Se você acreditar com todas as suas forças, pode ser que exista. Se você acreditar com todo seu coração, pode ser que aconteça.” 

Na minha última sessão de terapia falamos sobre perspectivas. E quando falei “tenho um son…”. A palavra “sonho” me soou tão estranha, como se fosse errado falar que tenho sonhos. Fiquei pensando, se inventamos o sonho só pra sonhar. Fiquei pensando se eu tinha medo de sonhar, porque corro o risco de ficar apenas nisso. Será que o sonho existe? (Mãe?)

Ainda pensando sobre o assunto, à noite, olhando pro céu, por acaso (ou não), lembrei daquele dia que descobri a verdade sobre o coelhinho da Páscoa. E do que minha mãe me disse. Não era uma desculpa, não era um conselho, não era uma imposição ou uma história qualquer. Era uma verdade pra vida.

Certa vez li algum texto que dizia para olharmos pro céu quando nos sentirmos perdidos. O céu sempre tem uma resposta. Pelo visto, não foi à toa que eu citei isso no meu texto, no último dia de 2019.

Sim, agora acho que sei. Tenho pra mim que o sonho foi feito pra gente viver. O sonho não é pra sonhar. O sonho é pra realizar. O sonho é pra acreditar. Se existe sonho, existe um objetivo. Se existe sonho, existe um caminho. Sonho dá esperança, faz nossos dias valerem a pena e dão um sentido pra vida. Se você acreditar, o sonho acontece. Sonho foi feito pra viver.

Ontem subi no último andar do prédio, a famosa laje, pra ver a Lua, claro. É época de lua cheia. E, para meu alívio e alegria, consegui ver, nitidamente, que o coelhinho da Páscoa ainda mora lá.

Beijo de Borboleta

Hoje lembrei dos teus olhos. Não é difícil lembrar daquele azul. Manso. Intenso. 

Lembrei agorinha. Quando uma borboleta me beijou no nariz. Ou só se enganou de rota mesmo. 

Lembra do beijo de borboleta? Aquele que você encosta os cílios na bochecha de outra pessoa (bom, seria estranho encostar os cílios na própria bochecha) e pisca bem de leve. Que esquisito existir esse tipo de beijo.

Mas ele tem a cara da primavera, você não acha? Essa estação também esquisita. 

As flores que criam vida. Desabrochando. O tempo que fica mudando. Cigarra pigarreando (que minha tia acha que é um fio elétrico solto). Passarinho transando. Gente cantando. E espirrando. 

Essa coisa de primavera me deixa um pouco nostálgica. Daquele cheiro perfumado de cabelo. Do arroz soltinho. Do pão caseiro. Do vestido colorido de flores. 

Não foi à toa que você nasceu na primavera. Época da alegria das cores. E dos amores. Da euforia dos bichos. Do calor que chega e não sabe se fica (por favor, fica). Época dos beijos mais doces. 

Dos beijos de borboleta.

 *Texto dedicado a minha mãezinha que faria mais um ano de vida hoje 🙂 

(DES) CULPA

(DES)

De mãos dadas
Fui conhecer
O mundo
Que você me deu

E na caminhada
Me contou
Coisas que só o tempo
Me mostrou

De pé descalço
Me libertou
Para o mar
Me levou

E na liberdade
Me viciou

No desespero
Calma me ensinou
Na calmaria
Guerrear me ajudou

Para que o mundo
Eu conquistasse
Livre me deixaste

Dizendo
O mundo não é sonho
E sim
Realidade

Mas quando sonhei
Você não me negou
E eu ingênua
Briguei

A raiva descontei
E você me abraçou
Na tempestade
Quando mais precisei

Se eu soubesse antes
Teria eu
Sido menos distante (?)

E as histórias
Que não me contou
Como vou saber
Quem você mais amou

A vida é passageira
Você quis ensinar
E eu medrosa
Não quis aceitar

Se eu soubesse antes
Que era mesmo assim
Teria eu
Te abraçado sem fim (?)

E o que ainda não me ensinou
Como vou aprender
A ser quem sou

Se eu soubesse antes
Teria eu voltado
E tudo perguntado (?)

Se eu soubesse antes
Teria eu
Horas a fio conversado (?)

Só pra ouvir mais
A sua voz

Se eu soubesse antes
Que mesmo forte
Somos frágeis

Teria eu
Chorado menos
A morte (?)

CULPA.

Olhos Azuis Transparentes

Calor em Porto Alegre. Céu azul. Mais de 30 graus com certeza. Era manhã de um dia de dezembro, um pouco antes do Natal. Dia 17 ou 18, quem sabe. Eu tenho na memória que era uma terça-feira. O ano era 2017, disso não tenho como esquecer.

Naquela noite eu tinha dormido na casa do meu tio, irmão da minha mãe, e da mulher dele, minha tia emprestada, como dizem. Acordei com meus olhos inchados querendo fechar mais alguns minutos. Ou mais algumas horas. Tomei o café da manhã que meu estômago suportou. Escovei meus dentes. Esqueci de passar protetor solar no rosto. Ou não quis. Peguei minha malinha que tinha algumas coisinhas extras para o dia. Desci e entrei no carro do meu tio, no banco de trás. Ele foi dirigindo, com a minha tia ao lado.

Com aquele calor, minha roupa era shorts jeans, blusa regata e chinelo. Meu cabelo, cacheado e acostumado a não ser penteado, estava pronto para ser preso em um rabicó. Fica mais prático no dia a dia. 

Cheguei um pouco assustada, chorosa e, sem perceber naquela hora, extremamente cansada. Já estávamos há alguns dias nesse vai e vem do hospital. Oito dias contados. Dormindo um dia sim, um dia não, com a minha mãe. A gente se revezava: eu, meu pai, meu irmão e, às vezes, tios e tias.

Não costumamos perceber. A gente acha que é só o trabalho que cansa. Mas o emocional cansa muito mais. Cansa mais do que subir 1.500 degraus de escada. Mais do que 14 horas de trabalho contínuo. Mais do que conversar com uma pessoa chata. Mais do que esperar. Mais do que a discussão entre biscoito e bolacha. Esquerda e direita. O emocional às vezes esgota.

Estávamos no hospital Divina Providência, que eu sempre falava Previdência (ou só pensava?). Aliás, que nome esquisito para um hospital. Eu sempre achei, todos aqueles dias e ainda não sei direito o porquê. Quem sabe era aquele verde claro das paredes. Ou o cheiro que impregna e dias depois, nem sentimos mais. Nos acostumamos.

O hospital ficava no alto de um morro. Tinha muita área verde e alguns locais bem quietos, silenciosos. Reservados para quem queria agradecer, pedir, acender uma vela ou simplesmente fugir um pouco da dor. O local do hospital era longe. Mas ficou perto em poucos dias. Em algumas noites ouviámos tiroteios. No alto, um pouco mais acima do hospital, tinha uma igreja, com uma vista muito bonita. Subimos lá uma ou duas vezes para ver o pôr do sol. Ou para pedir um milagre.

Desci do carro com a boca amarga. Dei meu RG para o segurança do hospital e falei o nome da paciente. Subi o elevador e andei, meio ansiosa, meio me arrastando, até o quarto no qual minha mãe estava. Aquele corredor era um tanto quanto desafiador pra mim. Meio escuro, com o cheiro característico. Enfermeiros pra lá e pra cá. Era o corredor, que me fazia mais medo. Quem sabe porque era ele que precedia aquele quarto. O qual minha mãe dividia com outra paciente. Quem sabe porque era nele que minha saliva era engolida com mais dificuldade pela minha garganta.

Naquela noite, meu pai tinha ficado com ela. Quando cheguei o quarto estava um pouco cheio, minhas tias tinham ido visitá-la. Meu irmão estava lá também. Onde ele estava, que não estava comigo?

Olhei para o meu pai que, no olhar, há tempos, não sabia o que dizer. Olhos castanhos cor de mel, meio esverdeados. Quanto afeto eu sentia quando o olhava naqueles dias. Dava vontade de pôr no colo e cuidar.

Olhei para o meu irmão. Puxou mais o meu pai, cor de mel. Meu irmão é a pessoa mais legal e confiável que eu conheço. Tanto, que às vezes eu não gosto de apresentá-lo aos meus amigos, porque ele é muito mais legal do que eu.

O clima no quarto não era dos melhores. Minha mãe não estava bem aquele dia. O câncer já tinha avançado para o coração fazia tempo. E a deixado frágil demais. Magra demais. Até hoje eu não sei direito o tipo de câncer que era. Era raro e eu não queria saber o tipo. Só queria saber da cura. 

O esforço era enorme, mas ela não conseguia comer. Olhei nos olhos dela e, a primeira coisa que falei naquele dia, foi: mãe, por favor, se você não comer pode ser que você vá para a CTI. Obviamente falei sem pensar, tentando fazer com que ela comesse. Implorando para que desse certo. Para que aquela dor fosse embora logo. Para que ela ganhasse peso. E o intestino, que não funcionava já havia 10 dias, voltasse a dar sinal de vida.

Quando a enfermeira, que usava um uniforme azul clarinho, entrou para tirar os sinais vitais da minha mãe, como de rotina, ela tinha uma cara preocupada. Mesmo com a voz calma, suave, de quem não quer passar desespero, eu podia perceber a preocupação.

Dez ou quinze minutos depois minha mãe estava sendo levada, com urgência, para fazer exames. Ultrassonografia ou seja lá o que for. Só podia ir uma pessoa para acompanhar.

Fui eu.

Caos. Nos meus pensamentos.

Tinha água no pulmão. Tinha um monte de coisa errada, eu sentia. Minha mãe, de fato, precisaria ir para a CTI mais tarde. E eu tinha falado CTI justo naquele dia. Que idiota, pensei. Não aguentei esperar e sai correndo. Eu não consegui aguentar. Chamei minha prima. Vem logo, por favor.

Culpa, tristeza, desespero. Cinco minutos do mais puro e genuíno desespero. Quando você pensa no pior dos piores cenários e não abre possibilidade nenhuma para a esperança. Quando você, por aqueles minutos, ou muitas vezes, segundos, acha que está sozinha no mundo. No escuro desconhecido. Nada pode salvar. 

O que eu vou fazer sem minha mãe? Perguntava aos prantos para minha prima, que nenhuma resposta tinha pra isso. Nesse dia descobri, o que era ficar, completamente, sem chão. Um dos poucos dias (ou único) que usei o corredor do hospital para desabar.

Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Não chora. Calma. Lágrimas e mais lágrimas nos abraços apertados da minha família. Que bom ter a minha família.

Entrei no quarto, minha mãe já estava de volta. Ela era a única que tinha calma no olhar. Olhos azuis. Meu Deus como eram azuis. Azul clarinho, que às vezes ficava verde. 

Mas, naquele momento estava azul transparente. Transparente. Dava pra ver tudo. 

Foram segundos. 

Olhei nos olhos dela, com o rosto vermelho de choro, e falei, para explicar a cor do meu rosto e de uma certa forma suplicando ajuda para, ironicamente, a única pessoa que podia me consolar naquele momento: fiquei assustada, mãe. 

Ela, com toda a calma do mundo, me olhou, fundo nos olhos. Fez o carinho mais sutil que poderia ter feito no meu rosto, e disse: minha garotinha, não precisa ficar com medo.

Minha garotinha (…).

Tudo parou.

Naquele momento específico nada fazia muito sentido. Depois, pude compreender a sorte que tive. Aquele momento foi de sincronia. Um dos poucos e mais fortes momentos que tive com a minha mãe. Que bom que procurei ajuda naqueles olhos azuis.

Pude ver nossa vida inteira juntas, o amor incondicional, a calmaria, a alma. Naqueles olhos azuis transparentes, paz.

Minha mãe estava indo.