A história toda aconteceu no início da pandemia. Resolvi entregar meu apartamento que eu alugava em Curitiba. Depois de 15 anos morando por aí, resolvi voltar pra Carazinho, morar com meu pai e com meu irmão.
Sempre (na maioria das vezes) considerei nosso relacionamento, tanto meu com meu pai, quanto meu com meu irmão, muito bons. Acima da média. Mesmo. Até eu descobrir que era porque eu morava longe (hahaha, brinks, ainda considero muito bons sim).
Depois de alguns meses de convivência, com as mudanças todas acontecendo ao mesmo tempo, a rotina da casa foi ficando um pouco estressante, digamos assim. Pra todo mundo. E quem sabe algumas palavras e sentimentos foram acumulando na garganta.
Até que um dia, um dia antes de eu ir buscar minhas coisas em Curitiba, eu tive uma briga muito feia com meu pai. Feia mesmo, daquelas de não conseguir respirar de tanto choro. A gente sempre esquece de respirar né? Que coisa. Quem sabe com umas 2 ou 3 respirações o troço todo não tinha nem acontecido.
Enfim, fato é que a briga foi feia. Teve dedo na cara. Teve voz alterada. Teve tudo que tem uma discussão. Pra quem não percebeu, parafraseei Henrique e Juliano (brega, sim, nunca neguei).
Bom, ninguém tá certo em uma discussão né? Nem errado. E se um não quer, dois não brigam. Etc. Mas digamos que eu, no ápice da minha raiva, tristeza e agonia, tive vontade mesmo de não voltar nunca mais pra casa do meu pai (nunca mais fala comigo hoje). Nem de falar com ele. Nem de manter contato. Eu senti um caminhão de merda sendo despejado sobre mim. De uma vez só. E quem sabe muitas filhas, filhos, pais e mães aqui já tenham sentido o mesmo.
Eu poderia muito bem ter feito isso. Sair correndo e nunca mais voltar. Nunca mais tocar no assunto. Nunca mais falar com meu pai. Eu poderia ter feito daquela discussão terrível e horrenda o fim do relacionamento, tão bom, com meu pai. Fechar as portas do meu coração, guardar aquele rancor pro resto da vida e, quando chegasse o momento da morte, depois de anos de vida, querer voltar no tempo e ter feito diferente.
Acontece que alguns dias antes dessa briga, por sorte, destino, ou acaso da vida, um sábio primo meu, no dia do meu aniversário, me disse algo assim: não fuja das discussões. Fique. Enfrente. E saiba ouvir e argumentar. Se tu sair (modo gaúches) tu vai se mostrar fraca. Tu vai dar espaço pra eles acharem que tu tá errada. Não se foge das discussões.
Não lembro muito bem se foi exatamente isso, porque afinal, era meu aniversário, fim do dia, e eu gosto muito de cerveja.
O mais engraçado foi que ele me falou isso porque eu saí do grupo de whatsapp da minha família. Por questões políticas, claro. QUEM NUNCA?
Nesse grupo tem mais de 40 familiares. E todos eles eu conheço de pertinho. Meus primos e primas são como minhas irmãs e irmãos. Porém, como vou esperar que todos e todas concordem com uma única opinião? É loucura. Por mais que a essas alturas do campeonato, defender o governo atual também seja (desculpa, não podia deixar. Paz).
Pensando bem, é assim na maioria das discussões né? Resumidamente: “eu acho isso de você. E eu acho isso de você. Então foda-se.” Cada um vai pra um lado. E esquecemos que todo julgamento é uma confissão (essa frase não é minha, é da Rafa Brites, mas acredito que seja uma verdade, daquelas difíceis de encarar).
Guardamos as mágoas, no armário do rancor. Não conversamos mais. Ficamos no nosso mundinho, muitas vezes repassando aquela briga na nossa cabeça. Por vários dias, meses, anos. Até que aparece uma oportunidade e você acaba voltando nisso. De novo. E de novo. E de novo. Criando assim, um círculo de brigas infinitas. Sobre a mesma coisa. Seja lá qual for essa coisa. Quantas vezes você já não esqueceu do porquê começou uma briga?
Acho que já passou do tempo de aprendermos a discutir e dialogar. Precisamos ter mais abertura e espaço para assuntos polêmicos. Assuntos do coração. Assuntos tabus. Qualquer assunto. E principalmente, precisamos aprender a ouvir, escutar ativamente. Escutar com atenção o que o outro está querendo comunicar a você. Tarefa difícil, sim. Mas muito necessária.
Funciona mais ou menos assim: primeiro você tem que ficar atento né, sem distrações, sem celular, amiguinho. Aí você espera o outro expressar a opinião dele. Sem fazer nenhum pré julgamento, sem pensar na resposta. Só escuta. Escuta até o final. Depois, você pensa um tempinho. Interpreta. E dá a sua opinião. Ou não. Às vezes o silêncio é a melhor resposta né?
De qualquer forma, no final desse texto vou deixar link para um artigo* que fala melhor sobre esse assunto, já que não sou expert nisso e ainda tenho muito o que aprender.
Quem sabe esteja aí, mais umas das coisas que precisamos normalizar: a discussão e o confronto (não violento, claro). Quem sabe assim (e respirando, sempre lembrar de respirar) a gente possa evitar brigas feias e dizer coisas sem pensar, pra pessoas que a gente ama. Ou pra qualquer pessoa.
Voltei de Curitiba de mala e cuia (lembram que eu fui buscar minhas coisas?). Ainda triste com meu pai. Sem olhar muito pra ele. E claro, sofrendo demais por isso. Até que tomei coragem e, mesmo chorando e com muita vergonha, fui conversar. Essa primeira conversa foi um tanto superficial, digamos assim. Tanto eu quanto meu pai estávamos meio desesperados para fazermos as pazes. Então foi mais ou menos um mantra: “me desculpe, eu te amo, nunca mais vamos brigar”.
Lógico que vamos, pai. Não me conhece? Logo eu, a rainha da treta.
Na segunda briga, que não foi tão feia quanto a primeira, a conversa já fluiu melhor. Já conseguimos colocar alguns pontos importantes. Já conseguimos nos expressar melhor e ouvirmos o que cada um tem a dizer. Foi a conversa perfeita? Não foi. Existe conversa perfeita? Não sei. Muito provavelmente não. Existem seres humanos tentando fazer o melhor que eles conseguem. E, às vezes, dá errado.
Discussões, opiniões diferentes, brigas, sempre vão acontecer. A mágica está em sabermos lidar com isso tudo (inteligência emocional que fala?). Respirar. Ouvir. E no final, lembrar que, melhor do que estar certo, é aprender.
Hoje em dia, no grupo da nossa família, acredito que estamos aprendendo a discutir, dialogar. A gente expõe as nossas opiniões diferentes, as nossas loucuras diferentes, às vezes dá “umas treta” e, no final, a gente lembra que nada disso muda o nosso amor.
Quem sabe uma das maiores lições pra mim, nesses últimos meses pandêmicos, foi essa: fique. Enfrente as batalhas que a vida te dá, da melhor forma que você conseguir.
No final, tudo se resolve. Só não espere o final, final né. Faça isso em vida.
*Artigo sobre escuta ativa.