Paulo

Alguém.

Conhecemos o Paulo numa quinta-feira de sol. Ele estava sentado no meio fio, perto da praça Tiradentes, olhando vagamente para a rua. Quem sabe, esperando que alguém o percebesse. Ou só passando o tempo mesmo.

Ao lado direito, um Corotinho. No bolso, cigarro.

Perguntamos para o Paulo se podíamos conversar com ele. O Paulo olhou pra gente surpreso. Ele vestia um casaco marrom. Quase sem cabelo e com a barba, já quase branca mesmo parecendo muito novo, estava rala. O Paulo tem olho castanho, um olho castanho escuro, misterioso e amedrontado, na defensiva.

Quando chegamos, o Paulo estava com uma mão apoiada no joelho e a outra na cabeça. De certo, o Paulo estava um pouco preocupado. Mas aceitou muito simpaticamente conversar com a gente. 

Tava frio naquela quinta-feira. O vento rasgava um pouco nossa alma. Ou seria a conversa? A gente tava tremendo de frio. E o Paulo, pra se esquentar, ou pra se esquecer, tinha bebido. Tinha um hálito levemente encachaçado. De tristeza.

O erro do Paulo foi que, em um dia qualquer, deixou o ventilador ligado por muito tempo e, quando voltou, sua casa havia pegado fogo. Como ele não tinha pra onde ir, mesmo com 2 filhos em Colombo, 6 irmãos em Curitiba e um neto de 15 anos, foi pra rua. E na rua ficou.

“A prefeitura disse que ia arrumar minha casa, mas até hoje, nada. Então, eu tô aqui né.”

O Paulo teve uma infância difícil. Não conheceu o pai dele, mas ama a mãe, que o visita com frequência nas ruas. Ele também não se dá muito bem com o cunhado, que mora no mesmo terreno da mãe. E esse é o motivo pelo qual o Paulo não mora com a mãe. 

O Paulo acredita muito em Deus e não gosta de incomodar as pessoas. E por isso não quer atrapalhar a vida dos filhos. 

“Não dá pra atrapalhar a vida deles né? Por isso eu prefiro viver na rua. Pra não dar problema. Mas creio que Deus não vai me deixar assim por muito mais tempo.”

Aquele dia a única coisa que o Paulo queria era receber um “boa tarde”. 

Com a voz embargada, com o rosto molhado de lágrimas, tentando se esconder, o Paulo, que já se envolveu muito com drogas nas ruas, contou pra gente que ele não quer fazer mal pra ninguém. O Paulo, que hoje trabalha como guardador de carros, perguntou pra gente, o que custava dar um “boa tarde”? 

Olhar pra gente. 

“O que custava o cara olhar?”

E a gente, com lágrima no olho, olhou pra baixo. Pra não ter que responder? Ou por não ter o que responder. 

O Paulo sentia vergonha. Sentia que era ninguém. Mas o Paulo chorava. Existia. Sentia. O Paulo é alguém. Se o Paulo soubesse que ele é alguém, muito mais do que muita gente. 

E as amizades Paulo, você tem amigos?

Indignado, surpreso e com uma certa raiva, o Paulo pergunta: “que amigos? Não existe amizade na rua. Todo mundo é inimigo.”

Faz 6 meses que o Paulo tá na rua. O Paulo, que já trabalhou na Copel, como eletricista. O Paulo, que quando criança vendia rosas. O Paulo, que queria ter estudado, pra ter uma vida melhor. 

Mas quem ensinou o Paulo foi o mundo, como ele mesmo disse. Esse mundo que estamos agora. Esse mundo que prefere não ver. Esse mundo que prefere esconder. Esse mundo que prefere atirar. Esse mundo que prefere sujar. Roubar. Para não dizer matar. Esse mundo que precisa ter resistência. 

Quem será que é esse mundo que ensinou o Paulo? 

O Paulo, que vive nesse mundo, que existe nesse mundo, contou pra gente que gosta muito de maionese com carne assada, e que ainda não tinha almoçado naquele dia. Então, compramos comida para o Paulo almoçar. E uma água pra não ficar só no Corotinho, né Paulo? 

Um alguém.

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