Reciclador.
No Largo da Ordem, sentado ao pé da igreja em frente ao Cavalo Babão, com alguns amigos, o José estava fazendo arte com latas de alumínio. Panelinhas, disse ele. Para ganhar a vida.
Mas a vida a gente não ganha quando nasce?
O José usava um boné um pouco gasto do tempo e estava com as pernas cruzadas, com um cobertor por cima. Embora parecesse mais novo, mais pelo jeito do que pela aparência, o José contou que tem 48 anos.
Um pouco inquieto quando chegamos, o José parecia levemente embriagado. Ao lado direito tinha um Corotinho*.
E, assim como seus amigos que estavam lá, o José precisava falar. Ele contou a história dele pra gente em pouco tempo, com muita objetividade e uma certa pressa. O José falava como se cantasse uma música ou recitasse um poema.
Nascido na rua. Jogado em uma uma lixeira. A mãe do José era pobre. Tinha medo. Usava drogas. Sei lá, era 72. Encontrado na lixeira. Um catador de papelão deu a José o significado de família. E veja só, o José ama a família que a rua deu pra ele. O José ganhou 6 irmãos. Que viveram a infância com ele. Gostosa, segundo ele, na maior parte do tempo. Quando criança o José ia atrás da sua comida. Na feira. Debaixo das bancas sempre sobra alguma coisa né? Foi assim que o José sobreviveu. Rua, rua, rua. Um dia o José teve que carregar um irmão no colo. Morto. Com 9 facadas. Aos 17 anos. O irmão que o José mais amava. Trabalhavam, carpiam, brincavam. Juntos. Companheiros. A gente tinha trabalhado 8 meses pro japonês. O José veio de uma longa caminhada. Pé por pé. Desde Embu das Artes em SP, até Curitiba. 372 km. No caminho, o José casou. Uma “coroinha” daora. Gente boa, ela. Mas o diabo da rua né? Voltei. O José aprontou um monte de coisa errada. Fez um monte de coisa ruim para os outros. Mas o José não vai contar o que ele fez e o que ele não fez. Pra num, né? Cê sabe. Altos problemas. O José não é bobo. Ele sabe qual é a pior droga do mundo. Não é o craque, não é a cocaína, não é o álcool. Nem o cigarro. Não existe coisa pior. A pior droga do mundo, é a tal da rua. Mas o José saiu dela. 26 vezes. O José faz coleção de panelinhas. Tira latas do lixo para fazer a arte dele. O José dá presentes em troca de alguma ajuda. Se quiser né? Porque o José acha horrível pedir dinheiro. Também não roubamos ninguém, não precisa. O José é reciclador. Faz artesanatos com o que iria pro lixo. O José. Reciclador. Recicla-DOR. É rua.
* Corote, de apelido Corotinho, pelo tamanho da garrafa, é uma bebida com índice de teor alcoólico super alto (39%) e muito barata (R$ 3,50/R$4,00) usada tanto em carnavais da classe média alta, como também na miséria das ruas.

Lina que espetacular esse texto . Sempre gostei de ler de ver, de ouvir estórias de pessoas de rua, pra dar valor ao que temos. Beijos. Continue escrevendo as outras estórias.
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