(c) alma

Vem chegando de mansinho
Sem querer me domina rapidinho
Fico sem ar
Quase sem respirar
.
Meu coração a palpitar
Tenta falar
Ei, corre
Que aí vai pegar
.
Meu estômago a revirar
Tem vontade de vomitar
.
Minha mão a suar
Não quer funcionar
.
Minha mente tumultuada
Fica um pouco surtada
.
Acho que não vou conseguir
Quero mais é desistir
Sinto que vou cair
.
Mas suspiro
Porque no final
Sei que vai partir
.
Eu sei
Você deve pensar que é amor
Mas na verdade
Isso é só sintoma de pavor
.
À ansiedade de todos os meus dias
Pode vir de mansinha
Que a gente vai aprendendo
Juntinha

Agora, amigo, eu tô em outra.

Quando a gente é jovem a gente é meio burro. E estou falando de mim. Já que não posso falar pelos outros. 

Qualquer semelhança é mera (rea…) coincidência.

Eu achava que precisava ficar onde não queria, com quem eu não queria. Me metia em situações e problemas alheios que em nada me pertenciam (faço isso até hoje). Deixava minhas decisões serem guiadas pelo tanto de dinheiro/”experiência” que eu ia ganhar. Acreditava na crença dos outros. Tentava provar a todo custo que eu era boa, que eu era melhor, que eu estava certa. 

Mesmo que isso significasse danos a minha saúde mental. E, consequentemente, física.

Aos 20 anos fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade. Uma coisa que carrego comigo desde muito pequenina (de idade). E que piorou na tolice da minha juventude. 

Um dos principais motivos foi o trabalho. Eu trabalhava em agência de publicidade. Comecei como estagiária e terminei definhada. Em dois anos e meio, deixei me tirarem tudo o que eu tinha: minha crença na minha inteligência, minha confiança, meu amor próprio, minha alegria de viver, meu sono, minha dedicação aos estudos. 

Eu vivia só pra trabalhar e ouvir que aquilo ainda não era suficiente. Que eu deveria isso, que eu deveria aquilo. Além de todos os insultos, assédios, desmoralização, machismo³. Que, por sinal e infelizmente, não era só comigo. E também não era só realidade daquela agência específica, mas da grande maioria delas – e tenho certeza que de outras empresas também. Gritos, choros, xingamentos, caos, 12, 15, 24 horas de trabalho (e não estou exagerando. Estou até ocultando detalhes).

Vocês que me leem neste momento podem até estar pensando que aguentei (aguentamos) tudo isso pelo dinheiro que eu ganhava. 

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Merece uma linha inteira de risos, daquele que eu considero o mais irônico. Inclusive eu, como muitos de meus colegas, praticamente pagava para trabalhar.

Esse não foi o meu primeiro emprego. Mas foi a minha primeira e maior decepção com a publicidade. Saí de lá com a seguinte frase, dita em lágrimas pelo meu chefe: “Não sei como você aguentou até agora. Não sei como você aguentou tudo isso. Desculpe.” 

Como eu falei lá em cima, mesmo que dependesse da minha saúde mental, eu precisava provar que eu conseguia. Consegui gente. Consegui ficar miserável. 

Mas não desisti da publicidade, porque não era dela que eu não gostava.

Depois de muita terapia, remédio antidepressivo, floral, homeopatia, coaching, meditação, retiros espirituais, terapia (já falei terapia?), consegui também ser grata (de verdade). 

Sorte a minha que vivi isso bem cedo. Que pude presenciar o pior da publicidade, para poder fazer o melhor dela. Que pude presenciar o pior que existe em formas de trabalho, para poder ficar atenta e escolher a dedo o que quero fazer, onde quero estar e com quem quero trabalhar. 

Isso vale para todas as esferas da minha vida. Profissional e pessoal. Já que, na minha opinião, isso nem pode ser separado. 

Não significa, de forma alguma, que faço só o que gosto, que não entro em conflitos, que não tenho problemas no trabalho, que não tenho frustrações, que não tento me provar. Isso seria impossível. 

Mas aprendi e estou aprendendo (não sozinha, claro) a observar até onde posso ir. Até onde aquilo (trabalho, situação, relacionamento – esse último eu sou bem ruim ainda) me deixa estar bem comigo.

Aprendi, principalmente, a dar atenção a minha saúde mental e física. E hoje o que me guia para as minhas decisões é meu grau de qualidade de vida. Que bonito né? Sim. Fácil? Não.

Fato é que aprendi tanto com isso a ponto de o meu terapeuta me questionar sobre um case de sucesso que eu tive na minha vida e eu ter a ousadia de responder: eu mesma.

Hoje minha ansiedade conseguiu se tornar uma companhia agradável, até. É o que me faz ter aquela certa pressa. Em viver, claro. Bem e na calmaria (contrapondo a ansiedade), onde mais gosto de estar, onde minha criatividade fica enlouquecida de feliz. 

Eu ia finalizar dizendo que deixo o trauma descrito nessa história aqui, em 2019. Mas 365 dias são muitos dias pra deixar um trauma. Então eu deixo lá atrás, onde já deveria ter ficado há muito tempo.

Que mais pessoas possam enxergar as infinitas possibilidades que temos nas nossas vidas. E que, se por um acaso, você que me lê, trabalha ou é dono ou dona de agência, possa se libertar desse passado escroto da publicidade (se ainda não se libertou).

2020 tá aí gente. Não vivamos como em uma série americana dos anos 60, que tem no Netflix.

Como já diria Mallu Magalhães:

“Pode falar que eu não ligo / Agora, amigo, eu tô em outra / Eu tô ficando velha / Eu tô ficando louca.

Pode avisar que eu num vou, ô ô ô / Eu tô na estrada / Eu nunca sei da hora / Eu nunca sei de nada

Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho / Que hoje eu passei batom vermelho.

E é a prova d’água.

Tá tudo bem ser humano

A vida dá uma de louca às vezes.

Desde criança minha mãe me ensinou (ou tentou me ensinar) a me defender e ser independente. Tanto fisicamente, quanto mentalmente. Se é que me entendem. Eu nem sempre entendi isso, claro. Mas fato é, que me criei muito braba e, por vezes, agressiva (apesar de muito fofa).

Tenho duas lembranças muito claras de onde nasceu a minha brabeza. Sim, porque ela nasce um dia. E se cria durante os anos. 

A primeira lembrança é a de quando meu primo me batia na escola. Ou fora da escola. Eu ia lá choramingar pra minha mãe e ela só dizia: “não posso fazer nada, você precisa se defender”. E foi o que eu fiz. Me defendi. Do jeito que eu achava que podia me defender. Até conseguia bater no meu primo. Mas apanhava bastante também. De todo mundo que eu tentava bater, aliás. 

A segunda lembrança é a de quando minha tia, por algum motivo, razão ou circunstância, colocava a culpa em mim em tudo o que minha prima mais nova fazia. Eu era o exemplo, e etc. Mas eu só tinha 8 anos. Ou menos. E aí um dia, numa dessas ocasiões, eu olhei pra minha mãe, já sabendo o que viria: “é contigo, Lina”. 

Neste mesmo belo dia, num jogo de truco (sim, eu já jogava truco nessa idade) com a fúria de uma garota de 8 anos, virei pra minha tia, olhei fundo nos olhos dela e falei: então tudo o que eu faço de errado a culpa é sua. Porque afinal de contas, você é minha tia mais velha, logo, meu exemplo. 

Silêncio. Um pedido de desculpas. Dias de glória.

Dias de luta. Lógico que me dei muito bem e também muito mal nessa história de me defender. Eu achava que precisava me defender de tudo. Das pessoas. Dos professores. Da matemática, especificamente. Dos meus pais. Da vida. Do mundo. 

Mas, apesar de eu me defender de tudo e de todos, eu chorava bastante. Raiva quem sabe, sei lá. E minha mãe, sempre muito prática: “engole o choro, Lina”.  Eu, sinceramente, nunca consegui fazer isso. Mas desenvolvi a técnica de chorar escondida e quietinha (sério, ninguém percebe se eu quiser).

E aí, cresci assim. Achando que eu não precisava de ajuda pra nada. Super independente, a Lina. Consegue bater no primo. Consegue argumentar com a tia. Consegue sair de casa e morar longe. Consegue carregar as malas. Consegue fazer tudo sozinha. 

Mas, como eu disse lá em cima, a vida dá uma de louca. 

Já aos 30 anos, justo antes de eu pensar: “meu Deus, como sou independente, não preciso de ninguém”, eis que: travei as costas. Travei assim, travado. Não conseguia colocar uma calcinha sem a ajuda de alguém. Não conseguia sequer, juntar meu sabonete do chão. Não sabia se eu ria, chorava, ou pedia ajuda. 

Chorei. Muito. Até eu resolver pedir ajuda. Pra todo mundo. Pras minhas amigas que moravam comigo. Pra minha tia. Pro meu tio. Pra minha prima. Nunca me senti tão dependente na vida. 

Aí percebi que a minha vida inteira, na verdade, eu sempre fui dependente. Que, apesar de eu agradecer (e muito) a forma como minha mãe me criou, por mais que a palavra independência signifique muito pra mim, que pareça bonita ao dizer, que por mais que o meu sentimento seja de independência, eu preciso e muito das pessoas. 

Eu preciso de alguém que me ensine coisas que eu não sei. Eu preciso que alguém me abrace quando estou triste. Eu preciso que alguém comemore comigo as minhas conquistas. Eu preciso do tempo de alguém pra chorar as pitangas. Eu preciso de alguém que me diga quando tô errada (mesmo que eu queira bater nesse alguém). Eu preciso de alguém que me apoie nas minhas decisões, por mais loucas que pareçam. 

Eu preciso de alguéns em vários momentos, em várias situações. Eu preciso inclusive de mim. Pra ser alguém pra alguém. Ou pra mim mesma.

E sabe o que? Tá tudo bem. Ser dependente é lindo. Pedir ajuda é ter humildade pra reconhecer as pessoas especiais que estão ali pra você, o tempo todo. E muitas vezes você nem percebe.

Pedir ajuda é reconhecer que, por mais estranho que possa parecer, veja só: você é um ser humano, igualzinho toda o resto da humanidade. E só isso. 

Por mais independente, fortes e invencíveis que possamos ser, que queremos ser, a verdade é que somos quebráveis. Frágeis. Finitos. 

Ficamos tristes, sofremos de ansiedade, ou de desespero. Temos medos. Raiva. Angústia. Saudade.

E seria poético dizer que é maravilhoso poder ser e sentir tudo isso. Mas o maravilhoso mesmo é ser livre pra admitir todos esses sentimentos. Pra você mesmo e para os outros. Isso é liberdade.

Ser independente ao ponto de entender que você é dependente.

Quem sabe agora dá pra gente parar de fingir. Fingir que tá tudo bem, forçar o riso, colocar um filtro, se afundar nos vícios, esconder a realidade da vida. Que é tão bonita, já diria Gonzaguinha. Parar de achar que as pessoas precisam adivinhar nossos sentimentos, nossos incômodos, nossos medos. Ninguém é vidente (ainda ou até onde eu saiba).

Deixa de orgulho, ferinha. Pede ajuda. Tá tudo bem ser humano.

Beijo de Borboleta

Hoje lembrei dos teus olhos. Não é difícil lembrar daquele azul. Manso. Intenso. 

Lembrei agorinha. Quando uma borboleta me beijou no nariz. Ou só se enganou de rota mesmo. 

Lembra do beijo de borboleta? Aquele que você encosta os cílios na bochecha de outra pessoa (bom, seria estranho encostar os cílios na própria bochecha) e pisca bem de leve. Que esquisito existir esse tipo de beijo.

Mas ele tem a cara da primavera, você não acha? Essa estação também esquisita. 

As flores que criam vida. Desabrochando. O tempo que fica mudando. Cigarra pigarreando (que minha tia acha que é um fio elétrico solto). Passarinho transando. Gente cantando. E espirrando. 

Essa coisa de primavera me deixa um pouco nostálgica. Daquele cheiro perfumado de cabelo. Do arroz soltinho. Do pão caseiro. Do vestido colorido de flores. 

Não foi à toa que você nasceu na primavera. Época da alegria das cores. E dos amores. Da euforia dos bichos. Do calor que chega e não sabe se fica (por favor, fica). Época dos beijos mais doces. 

Dos beijos de borboleta.

 *Texto dedicado a minha mãezinha que faria mais um ano de vida hoje 🙂 

(DES) CULPA

(DES)

De mãos dadas
Fui conhecer
O mundo
Que você me deu

E na caminhada
Me contou
Coisas que só o tempo
Me mostrou

De pé descalço
Me libertou
Para o mar
Me levou

E na liberdade
Me viciou

No desespero
Calma me ensinou
Na calmaria
Guerrear me ajudou

Para que o mundo
Eu conquistasse
Livre me deixaste

Dizendo
O mundo não é sonho
E sim
Realidade

Mas quando sonhei
Você não me negou
E eu ingênua
Briguei

A raiva descontei
E você me abraçou
Na tempestade
Quando mais precisei

Se eu soubesse antes
Teria eu
Sido menos distante (?)

E as histórias
Que não me contou
Como vou saber
Quem você mais amou

A vida é passageira
Você quis ensinar
E eu medrosa
Não quis aceitar

Se eu soubesse antes
Que era mesmo assim
Teria eu
Te abraçado sem fim (?)

E o que ainda não me ensinou
Como vou aprender
A ser quem sou

Se eu soubesse antes
Teria eu voltado
E tudo perguntado (?)

Se eu soubesse antes
Teria eu
Horas a fio conversado (?)

Só pra ouvir mais
A sua voz

Se eu soubesse antes
Que mesmo forte
Somos frágeis

Teria eu
Chorado menos
A morte (?)

CULPA.

INDEPENDÊNCIA

Ou morte?
Somos livres
Expressivos
Ou somos escravos
Abandonados
 Independência
É sinal de livre essência
Mas de que me adianta
Se continuamos na mesma indecência
 Fomos libertados
E qual é o verdadeiro significado
Se ficamos ainda mais deslocados
 Há 196 anos
Somos livres
De que
Quem

Corremos
Apressados
É urgente

Independente
Se alguém fica doente

Aaaaah, a liberdade!

Somos livres
Aprisionados

Trancamos
Para que ninguém possa entrar
Protegemos
Pra que ninguém possa nos machucar

Individualmente
Somos independentes

Construímos paredes ao nosso redor
Para nos sentirmos melhor
Ou ignorarmos melhor (?)

Então que liberdade é essa
Que não quer nem saber de olhar
Que morre de medo de amar

Me coloco a perguntar
De que me vale um lar
Se nem do coração sabemos cuidar

Seguimos construindo nosso próprio altar
Sem questionar
Parar
Pra pensar

Independência
Se tornou ausência

De vida

.

Somos livres
Para aprisionar

Inventamos máquinas
De carne e osso
Para servirmos no nosso almoço

E pouco pensamos
Se realmente precisamos
Apenas compramos

Somos livres
Digitalmente
Nos nossos pensamentos
Acabamos perdendo todos os momentos

O rumo

Somos livres
Humanos
Inteligentes
Independentes

Traindo nossas próprias mentes

Inventando mais “presentes”
Saboreando coisas diferentes
Para ir pro lixo
Separadamente

Somos livres
Respiramos
Sobreviventes
De um mundo doente

Escolhemos
Ou escolheram pra gente (?)

Nos prometeram

Que independência é essa
Que prefere ignorar
Que prefere roubar

Pra não dizer 
Matar

Qual é a tal dessa independência
Que mais parece
Luta pela sobrevivência

Em que a cor do sangue
Se tornou resistência
Em que floresta, ouro e céu
É sinal de advertência

Se não valorizamos nem a existência
Quem dirá a independência

Somos livres
Mas 
Precisamos pagar

Somos livres
Mas
Precisamos aprisionar

Somos livres
Mas
Vem cá

Precisamos conversar

Só não quero que meu peito caia

Ontem me olhei no espelho e vi minhas marcas de expressão. Aliás, faz dias que só observo isso em mim. Em uma ligação com uma amiga, usando a câmera do meu computador, eu só reparei como minha pele tava seca. 

Dias atrás fui fazer uma avaliação física na academia e diz que eu tenho 29% de gordura. Eu ri. Todo mundo riu. Mas passou o riso. É muito ruim, diz na tabela. Terrível, na minha cabeça. Como assim. Eu com 29% de gordura. Aff, to ficando velha.

Crise dos 31, sei lá.

Mês passado eu tava cheia de trabalho. Para todos os lados, todos os finais de semana, de todos os tipos. E que bom, eu amo estar cheia de trabalho. Elogios pra lá e pra cá. Cansada, sim. Mas ocupada demais pra pensar em qualquer outra coisa.

Esse mês a coisa ficou tão quieta que tive que inventar trabalho. Porque ficar sem fazer nada né, pelo amor de Deus, Lina. Vai te obrigar a pensar. E o que é que vão pensar de você. Hoje se você tá sem muita coisa pra fazer, certamente você é ruim em alguma coisa. Ou em várias. Ou em todas. Sei lá. Muito trabalho, você fica ansioso. Pouco trabalho, a gente surta.

Lembra quando você trabalhava naquela agência escrota? De certo eles tinham razão.

Lampejos de absurdos.

A solidão veio me visitar várias vezes esse mês. Morei 6 anos e meio com uma das minhas melhores amigas, a Amanda. E, de repente, eu quis morar sozinha pra enfrentar a solidão. Lógico que ela veio. Afinal, eu mesma convidei. 

Coloco minha melhor roupa (pijama) e tomamos café todos os dias juntas. Também durmo com ela. Às vezes trabalho com ela. Quem sabe um dia ela será minha melhor amiga. Quando eu aprender a me observar direito e gostar das minhas linhas de expressão.

Passou uma semana. E percebi que fiquei meio “depressiva”, se é que se pode dizer assim. Coisa que raramente acontece comigo, porque sei lá, fui abençoada com um cérebro biologicamente feliz. 

Saí das minhas redes sociais. Cortei o álcool. Entrei na dieta. Fiquei sem Netflix. Pra tentar entender né. Sair do estado de miséria emocional.

Pffffff. 

Acordei vários dias sem vontade de levantar, sem vontade de comer, sem vontade de trabalhar, sem vontade de realizar qualquer coisa que fosse um verbo no infinitivo. 

Mas se a vida te der um limão, faça uma limonada. E coloque tequila. Sei lá. É o que dizem. Escrevi poemas. Chorei. Chorei, chorei, chorei. Lavei minha alma, como diria minha vó. Mas parece que tinha muito pó. Ficou meio lamacento, vó. Será que isso é normal? Pergunta retórica, porque minha vó, essa do ditado, já se foi viver no paraíso que inventamos. Seja qual for.

Minha outra vó, a que tá viva ainda, vive me perguntando quando eu vou casar. Vó, eu criei um blog chamado Comprei uma Bicicleta. Então, quem sabe, isso nunca aconteça. Mas vó, eu já escolhi o meu vestido de casamento. Ele é lindo. Então, quem sabe, né? 

Me chamem de louca.

Ultimamente não consigo dormir direito. Tenho jovens como vizinhos. E eles fazem um baita barulho de madrugada. Jovens. Quem inventou eles?

Ah! E aí voltei a tomar um remedinho milagroso na minha vida, que minha antiga terapeuta me indicou uma vez. É homeopático. Para buscar o equilíbrio. Não que o equilíbrio deva vir de remédios, que fique bem claro. 

Ouço dizer que tudo é uma questão de equilíbrio. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Dias tristes virão. Aproveite sua dor para aprender. Tudo passa. 

E eu acho que é isso mesmo. O difícil é achar guarda-chuva no meio do deserto.

Mas hoje quando acordei com aquela vontade de não levantar (que aliás, tava se tornando normal) veio o melhor sentimento de todos quando estamos meio deprês: a raiva. Aí eu levantei. Mas mais porque fiquei com fome.

Abri a janela. Nublado. Frio. Faz uma semana que não vejo o sol. Puta merda que tempo bosta do caralho. Cadê a beleza nas pequenas coisas. Desisto. Fui ver meu e-mail. Chegou um boleto. São 16h23 da tarde e eu ainda nem almocei.

Quer saber? Eu quero que se foda.

Só não quero que meu peito caia. Porque não to a fim de gastar dinheiro com isso.**

*Alô terapeuta, manda a conta.

** OBSERVAÇÃO: não que alguém precise gastar algum dinheiro com qualquer coisa de estética. Mas sei lá né, tem gente que curte fazer umas modificações na natureza humana para “se sentir melhor”. Encaixada, eu diria. Inclusive eu, já fiz. E vivo lutando contra a gravidade. Paz.

GRAÇA

A vida passa
E eu poderia dizer
Que é tão sem graça

Mas quanta graça
Há na flor que despedaça
Na grama que amassa

No vento que despenteia
A aranha na teia
E a perereca que sapateia

Eu poderia dizer
Que a vida passa
E que desgraça

Mas acho tanta graça
No passarinho que alimenta
E a moça ao celular
Que desatenta

Olha moça
Eu poderia dizer
Que a vida parece tão sem graça

Mas do seu lado moça
Olha que graça
Há nessa gente que abraça

Tudo isso
De graça