Quando a gente é jovem a gente é meio burro. E estou falando de mim. Já que não posso falar pelos outros.
Qualquer semelhança é mera (rea…) coincidência.
Eu achava que precisava ficar onde não queria, com quem eu não queria. Me metia em situações e problemas alheios que em nada me pertenciam (faço isso até hoje). Deixava minhas decisões serem guiadas pelo tanto de dinheiro/”experiência” que eu ia ganhar. Acreditava na crença dos outros. Tentava provar a todo custo que eu era boa, que eu era melhor, que eu estava certa.
Mesmo que isso significasse danos a minha saúde mental. E, consequentemente, física.
Aos 20 anos fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade. Uma coisa que carrego comigo desde muito pequenina (de idade). E que piorou na tolice da minha juventude.
Um dos principais motivos foi o trabalho. Eu trabalhava em agência de publicidade. Comecei como estagiária e terminei definhada. Em dois anos e meio, deixei me tirarem tudo o que eu tinha: minha crença na minha inteligência, minha confiança, meu amor próprio, minha alegria de viver, meu sono, minha dedicação aos estudos.
Eu vivia só pra trabalhar e ouvir que aquilo ainda não era suficiente. Que eu deveria isso, que eu deveria aquilo. Além de todos os insultos, assédios, desmoralização, machismo³. Que, por sinal e infelizmente, não era só comigo. E também não era só realidade daquela agência específica, mas da grande maioria delas – e tenho certeza que de outras empresas também. Gritos, choros, xingamentos, caos, 12, 15, 24 horas de trabalho (e não estou exagerando. Estou até ocultando detalhes).
Vocês que me leem neste momento podem até estar pensando que aguentei (aguentamos) tudo isso pelo dinheiro que eu ganhava.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Merece uma linha inteira de risos, daquele que eu considero o mais irônico. Inclusive eu, como muitos de meus colegas, praticamente pagava para trabalhar.
Esse não foi o meu primeiro emprego. Mas foi a minha primeira e maior decepção com a publicidade. Saí de lá com a seguinte frase, dita em lágrimas pelo meu chefe: “Não sei como você aguentou até agora. Não sei como você aguentou tudo isso. Desculpe.”
Como eu falei lá em cima, mesmo que dependesse da minha saúde mental, eu precisava provar que eu conseguia. Consegui gente. Consegui ficar miserável.
Mas não desisti da publicidade, porque não era dela que eu não gostava.
Depois de muita terapia, remédio antidepressivo, floral, homeopatia, coaching, meditação, retiros espirituais, terapia (já falei terapia?), consegui também ser grata (de verdade).
Sorte a minha que vivi isso bem cedo. Que pude presenciar o pior da publicidade, para poder fazer o melhor dela. Que pude presenciar o pior que existe em formas de trabalho, para poder ficar atenta e escolher a dedo o que quero fazer, onde quero estar e com quem quero trabalhar.
Isso vale para todas as esferas da minha vida. Profissional e pessoal. Já que, na minha opinião, isso nem pode ser separado.
Não significa, de forma alguma, que faço só o que gosto, que não entro em conflitos, que não tenho problemas no trabalho, que não tenho frustrações, que não tento me provar. Isso seria impossível.
Mas aprendi e estou aprendendo (não sozinha, claro) a observar até onde posso ir. Até onde aquilo (trabalho, situação, relacionamento – esse último eu sou bem ruim ainda) me deixa estar bem comigo.
Aprendi, principalmente, a dar atenção a minha saúde mental e física. E hoje o que me guia para as minhas decisões é meu grau de qualidade de vida. Que bonito né? Sim. Fácil? Não.
Fato é que aprendi tanto com isso a ponto de o meu terapeuta me questionar sobre um case de sucesso que eu tive na minha vida e eu ter a ousadia de responder: eu mesma.
Hoje minha ansiedade conseguiu se tornar uma companhia agradável, até. É o que me faz ter aquela certa pressa. Em viver, claro. Bem e na calmaria (contrapondo a ansiedade), onde mais gosto de estar, onde minha criatividade fica enlouquecida de feliz.
Eu ia finalizar dizendo que deixo o trauma descrito nessa história aqui, em 2019. Mas 365 dias são muitos dias pra deixar um trauma. Então eu deixo lá atrás, onde já deveria ter ficado há muito tempo.
Que mais pessoas possam enxergar as infinitas possibilidades que temos nas nossas vidas. E que, se por um acaso, você que me lê, trabalha ou é dono ou dona de agência, possa se libertar desse passado escroto da publicidade (se ainda não se libertou).
2020 tá aí gente. Não vivamos como em uma série americana dos anos 60, que tem no Netflix.
Como já diria Mallu Magalhães:
“Pode falar que eu não ligo / Agora, amigo, eu tô em outra / Eu tô ficando velha / Eu tô ficando louca.
Pode avisar que eu num vou, ô ô ô / Eu tô na estrada / Eu nunca sei da hora / Eu nunca sei de nada
Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho / Que hoje eu passei batom vermelho.“
E é a prova d’água.