Olá senhora Aqui é a Gisele Falo em nome da sua gerente A Tatiele (Ah, sim Aquela que nunca consigo falar Tirando os dias Que quer me cobrar) Vimos que tem uma dívida No nosso banco “digital” Pergunto se você Por acaso não quer parcelar A dívida de mil Podemos em 60 vezes dividir Os juros baixam pela metade E você paga com mais tranquilidade (Claro, por que não aumentar As chances de eu nunca mais Conseguir cancelar Minha conta nesse banco impopular) Senhora enviarei uma simulação No seu telefone Pra você ver melhor Que na verdade, isso é pior (A dívida de mil Fica do tamanho do Brasil Mas que bela ajuda Ficarei ainda mais fudida) Senhora estamos aqui Para o que precisar Para te ajudar (Menos se tiver problemas Ou qualquer outra coisa Que não envolva comprar) Pois é amiga senhora Essa é a lei do maior Eu fico aqui Fingindo ajudar Enquanto o patrão Come caviar (Obs.: é senhorita)
pagando a conta errada
Rescindi meu contrato Antes do tempo Mal sabia eu O tanto de sofrimento Senhora Precisa pintar o apartamento E quanto seria Esse pagamento Multiplica trezentos Por duzentos Soma mais quinhentos E coloca mais mil e trocentos Porém senhora Não é só isso Tem a luz E o condomínio A taxa de vistoria De assinatura A leitura do gás E ainda a multa Enquanto isso senhora Também cobramos todos os dias As chaves que não estão Em nossas mãos Mas o que é isso É extorsão (?) Não senhora Está na contratação (...) Pois é minha cara É a lei da vida Eu sigo pobre E a imobiliária rica
Eu não sei.
Não sei mesmo. Mas eu tenho a impressão que minha vida inteira eu passei com aquela sensação de: “e agora?”.
Fiz 15 anos, e agora? Terminei o ensino médio, e agora? Fiz 18 anos, e agora? Comecei a faculdade, e agora? Terminei a faculdade, e agora? Meu namorado me traiu, e agora? Comecei um novo emprego, e agora? Mudei de cidade, e agora? Terminei meu livro, e agora? Fui demitida, e agora? Não quero mais trabalhar com o que eu trabalho faz anos, e agora? Terminei meu namoro, e agora? Fiz 30 anos, e agora? Estou morando sozinha, e agora? Me aposentei, e agora? Pandemia, e agora?
Parece que precisamos ter resposta pra tudo. O quanto antes. O não sei, não serve. Não existe, como dizem por aí. Você precisa escolher. E quem sabe por isso a gente viva com tanta ansiedade hoje. Não fomos ensinados para nossos momentos “e agora”. Não fomos ensinados para termos incertezas. Ou para vivermos nelas. Não fomos ensinados a viver no agora.
Fomos treinados para termos certezas. Pensarmos no futuro. E remoermos o passado. É assim ó: aprende a caminhar, estuda, trabalha, casa, tem filhos, faz sucesso na carreira (seja lá o que isso signifique pra você), aposenta, se arrepende, morre.
Tem até um momento da vida, ou vários desses momentos, em que nos damos conta que a vida passa muito rápido. Meu Deus, e agora? O que eu fiz? O que eu vou deixar para o mundo? Como as pessoas vão lembrar de mim? E agora?
Preciso viajar mais. Correr mais. Estudar mais. Trabalhar mais. Produzir mais. Vender mais. Crescer mais. Otimizar mais. Me informar mais. Consumir mais. AAAAAAAAAAAAAH, DEVIA TER FEITO ISSO ANTEEEEEEES! E agora?
Meu último momento “e agora” foi agora pouco. Antes de eu começar esse texto. No meio dessa pandemia toda louca da vida estava eu, de novo, a me perguntar, e agora, Lina?
Acabei tomando uma decisão muito importante na minha vida dias atrás. Não de repente. Passei mais ou menos um ano pensando nisso. Precisou de uma pandemia pra eu decidir ir por esse caminho. Depois de 12 anos (+-) morando (pagando aluguel) em Curitiba, resolvi voltar pra cidade que eu morava antes, Carazinho, RS.
Claro, fiquei alguns dias com a crise do “e agora”. E agora que vou voltar? E meus sonhos? O que eu vou fazer? Como vai ser? Até eu começar a perceber que, quem sabe, essa crise do “e agora” seja uma necessidade de controle sobre a vida. Num geral da coisa toda. Um controle imposto pelos nossos padrões de vida. Como fomos treinados.
Eu preciso saber pra onde eu vou, o que eu vou fazer, onde quero chegar, por que eu quero chegar, qual o sentido disso, e daquilo. Eu preciso escolher. Com a razão, claro. Precisa ser racional, né? Além de rápido. Como assim eu não sei o que quero da vida? Como assim eu não sei qual será o meu próximo passo?
Sabem, eu tinha um plano para 2020, assim como a maioria das pessoas, acredito eu. Mas também não conheço a maioria das pessoas, então pode ser que eu esteja me baseando em experiências anteriores pessoais das quais eu inventei. Já pensaram nisso?
Bom, sim, de fato é bom planejar. Eu vendo isso, literalmente. É bom termos perspectivas da vida, de onde isso ou aquilo podem nos levar. É bom saber o que queremos. E o que não queremos. É bom saber como alcançar os nossos sonhos. É bom ter sonhos.
Mas, me dei conta, que nada disso significa ter o controle. E, pensando dessa forma, a vida parece ser bem mais simples.
Ter sonhos, planos, saber o que queremos ou o que não queremos, não significa que não teremos nossos momentos “e agora”, que não teremos que mudar os planos, mesmo que a gente não tenha planos (e tá tudo bem). Não significa que não ficaremos indecisos por vários dias, meses, anos ou a vida inteira. Não significa que não possamos mudar, até mesmo, nossos sonhos.
Agora estamos vivendo um momento “e agora”. Um momento de pura incerteza no mundo inteiro. Aquele momento em que a gente nunca imagina viver. E que ninguém nunca pensou em nos ensinar. Se é que isso é possível de ensinar.
Talvez por isso, e por sempre acharmos que precisamos ter resposta pra tudo, o tempo todo, o mais rápido possível, por acharmos que precisamos ter o controle (mesmo que esse sentimento seja invisível, ele está aí dentro), ou certezas, não estamos sabendo lidar com esse momento “e agora”.
Um momento em que somos praticamente obrigados a mudar. Um momento em que precisamos repensar nossa rotina. Repensar nosso trabalho. Repensar nosso consumismo. Nossa educação. Nosso dinheirismo. Nossa alimentação. Nossa política. Um momento que precisamos pensar no próximo.
Talvez isso seja, a humanidade em crise com ela mesma. Quem sabe, esse momento seja como se fosse um botão “resetar” da humanidade. Não estamos em crise econômica, política ou de saúde. Estamos em crise com nós mesmos. E aí, tudo desaba.
Quem sabe o que a gente precise mesmo agora é mais simples do que imaginamos. Quem sabe a gente só precise mesmo parar.
Parar pra respirar. Parar pra se cuidar. Parar pra fazer nada. Pra cuidar de quem a gente ama. Pra gente analisar como pode melhorar. Pra gente dormir mais (ou menos). Pra gente observar o que podemos evoluir no trabalho que temos. Ou como achar um novo. Pra gente conhecer melhor as pessoas que moram com a gente. Pra gente aprender a ser gente de novo. Pra gente aprender a questionar. Pra gente aprender a viver o agora. Pra gente aprender que a vida é mesmo incerta. E que a certeza, muito provavelmente, nem exista. Não saber o que se quer, ou o que vai acontecer, tá tudo bem.
Quem sabe, no sentido bem poético dessa loucura, essa pandemia seja o mundo nos dando uma oportunidade de revermos tudo o que estamos fazendo de ruim. Para nós mesmos.
Quem sabe, seja uma oportunidade de, finalmente, aprendermos a viver um dia de cada vez. O dia de hoje. O momento de agora.
Quem sabe, seja um belo tapa na cara pra gente aprender a valorizar o que tem. Não as coisas. Você sabe, né? A liberdade. O ar. O corpo. As pessoas. A natureza. A vida.
Quem sabe eu tenha vivido uma vida inteira de 32 anos de incertezas. Achando que eu tinha o controle (certeza) sobre alguma coisa. Porém, mal sabia eu que o controle a gente só tem da TV. E olhe lá.
E agora, quem sabe você também esteja num momento “e agora?”. Se perguntando, entre outras mil dúvidas, se deve deixar a vida te levar. Quem sabe sim. Quem sabe não. Quem sabe?
Eu, sinceramente, não sei.
E, neste momento, estou feliz em saber disso.
O mundo acaba amanhã
O mundo acaba amanhã A notícia é clara É uma fonte segura Pode contar O mundo acaba amanhã Como será Não tenho detalhes Mas pode confiar O mundo acaba amanhã Vai ser breve Rápido e indolor Foi o que espalharam O mundo acaba amanhã Ei, não há tempo para lamentar Levanta daí e olha O que você vai fazer agora O mundo acaba amanhã Não tem volta Deixa ir aquela lágrima Deixa ir aquela mágoa O mundo acaba amanhã Dessa vez é pra sempre Eu sinto no estômago sem ar Aquele frio subir e trancar O mundo acaba amanhã Será que ainda dá tempo de falar Escolher ao lado de quem Você quer tanto estar O mundo acaba amanhã Sabe aquela areia Aquele sonho Não tem mais como O mundo acaba amanhã E amigo Não é mentira Olha, até já podemos ir O mundo acaba amanhã A liberdade temos de volta E o dinheiro agora pouco importa Mas o que eu posso fazer O mundo acaba amanhã Só me resta correr O que será que deixei escapar Por que será disse não O mundo acaba amanhã Pra onde vou não sei Minhas pernas não querem mexer Meu coração parou O mundo acaba amanhã Mas fique tranquilo Você ainda pode acordar E dar um sentido O mundo acaba amanhã Mas não se preocupe Você ainda pode despertar E sair para (brincar) O mundo acaba amanhã E agora que você sabe Vai continuar Ou vai desnudar O mundo acaba amanhã Já dizia a profecia E dessa vez meu amigo Não tem saída.
O que eu aprendi comendo mandioca
*Observação importante antes de você começar a ler: eu não me responsabilizo por duplo sentido em mentes criminosas, em todo o texto.
Mandioca não tem glúten, sabiam? Além disso é fonte de magnésio, carboidrato, potássio, cálcio. Uma ótima substituta do pão, das pizzas e massas no geral. É da mandioca que fazem meu alimento predileto, depois do ovo, a tapioca. Minha refeição principal é tapioca com ovo. Se for pensar, eu vivo de mandioca e ovo. É praticamente tudo o que tem pra comer lá em casa.
A mandioca é uma raiz tuberosa. Vocês sabem como é o pé de mandioca? É quase do meu tamanho, pelo que eu me lembre. As folhas parecem da cannabis. Eu sei porque meu pai planta mandioca desde que eu era criança. Mas só dá pra comer a raiz da mandioca. Porque as folhas são venenosas. Ou eu to inventando isso. Na dúvida, procure no Google.
Quando meu pai quer conhecer bem alguém ele manda descascar mandioca. Quilos de mandioca. Não uma ou duas. Foi assim o primeiro encontro com a atual namorada dele. Ela precisou descascar mandioca minha gente. Já pensou você chegando pela primeira vez na casa do seu namorado, toda arrumada, cheirosa, maravilhosa, com as unhas feitas, e ele, no romantismo da brutalidade, chega e fala no seu ouvido: senta aí e vamos descascar mandioca. Você acha estranho e pensa que é uma frase sensual/brega. Mas não, a mandioca tá ali de verdade, cheia de terra, com uma faquinha sem ponta do lado, te esperando.
Já eu sempre desvio o caminho quando eu vejo que ele tá descascando mandioca. O coisa difícil da porra. Alguém aí já descascou mandioca? Não é a toa que mandioca descascada é mais cara no mercado.
Desde criança, meu pai sempre pedia pra gente descascar a tal da mandioca. Tipo cortar a unha do pé. Meus tios e tias, fãs da mandioca, também proclamavam o castigo: ô criançada, peguem as “cadeira” aí e se atraquem na mandioca. Mas eu, como já previa o sofrimento, sempre dei um jeito de fugir.
Até que um dia, depois de véia, sem ter o que fazer, eu aceitei o desafio. Enquanto meu pai, já craque na competição, descascava 10 ou 20 mandiocas, eu ainda estava na primeira. Fui tão mal que fui desclassificada na primeira mandioca. Meu Deus guria, tu é muito ruim. Me dê essa faca aqui. Tu não serve para descascar mandioca.
Ué. Pausa para reflexão.
Para meu consolo, descascar mandioca não é pra qualquer um. Precisa ter paciência, agilidade, jeito, talento, dom, experiência, habilidades específicas, hard skills, soft skills e habilidades extraterrestres. E também não pode conversar muito, atrapalha o trabalho.
Bom, vez ou outra eu venho visitar meu pai aqui no Carazinho. No RSrsrsrsrs. Fico por uns dias. Vários, às vezes. Na volta pra Curitiba, minha cidade atual, eu faço um rancho. Levo ovos de galinhas livres, queijo de vacas felizes, mel só de abelhas mesmo, vinho da colônia, tomate, rúcula, alface, alguns utensílios da casa que roubo, morango, milho e mandioca. Descascada, claro.
Não que eu goste muito de mandioca. Mas fico pensando que, se um dia eu não tiver nada pra comer, a mandioca vai me nutrir. Ela vai estar ali no meu freezer, congelada, com todas as suas propriedades preservadas.
Esses dias aconteceu isso. Eu tirei a mandioca descascada e congelada do freezer. Fiz um purê de mandioca. E joguei um molho por cima. Ficou bom até. Mas fiz demais e fiquei comendo isso por uma semana. Ou duas. Porque não dá jogar comida fora né.
Enquanto eu comia mandioca, conversava com a minha solidão. Analisando a minha vida. Eu trabalho de casa, durmo em casa, tomo banho em casa, faço todas as refeições em casa. Inclusive, moro em casa. Tá, sim, às vezes eu tenho alguns afazeres fora de casa.
Fato é que estou tão acostumada com a minha presença que, em tempos de quarentena, me dei conta que a minha vida é uma quarentena. E eu quase não me incomodo mais. Na crise do Coronavírus diz que o melhor a se fazer é ficar em casa. Isolamento social. E vejo pessoas desesperadas por passar uns dias em casa (ou meses, vai saber). Não sei se pelo fato de não ter nada pra fazer, ou pelo fato da solidão que nos acompanha, ou por medo mesmo (da pandemia, da economia, da escassez, etc.). Ou tudo junto.
Porém, fique você sabendo que o incômodo passa. É bem bom ter nada pra fazer e depois descansar. Depois de um tempo fica bem bom conversar sozinhx. A gente se acostuma. Escrever no diário. Arrumar uns exercícios. Ler uns livros. Dar um tempo do celular. Conversar com a sua família. Meditar. Séries. Festa online. Home office. Não ver o chefe. Pensar o que dá pra melhorar como ser humano. Como fazer pra não destruir o mundo tão rápido. Contar arroz. Contar moscas. Contar quantos copos de plástico você já usou na vida inteira. Inventar outras formas de ganhar dinheiro. Fazer memes. Ser um bom brasileiro e deixar o mundo mais divertido pela internet. Orar. Carpir uns lote (mentalmente). Colocar uma rede na sala. Assistir os vídeos e palestras gratuitos que estão disponibilizando por aí. Festa na sacada com os vizinhos. Recitar poemas. Etc. Olha quanta coisa.
Tudo vem pra gente aprender. E lembre que ficar em casa é privilégio nos tempos atuais. Quem tá sofrendo com tudo isso mesmo, provavelmente não tem essa condição.
Aproveita aí pra descascar umas mandioca e se conhecer melhor. Mas, se você é ruim que nem eu, faz um purê para uma semana. Se não tiver os ingredientes em casa, compra na mercadinho da esquina, pra ajudar os pequenos empreendedores e empreendedoras que estão sofrendo mais.
Faz uma oração também. Não compre coisas que você não precisa só pra estocar. Lembra dos amiguinhos humanos que você tem por aqui na Terra. Se você é véio ou véia pede pra um jovenzinho fazer as compras pra você. Aproveita esse momento só seu.
Fé na mandioca que tudo passa.
Obs.: a foto é da horta do seu Cavalo Véio.
Lua, Páscoa e Sonho.
Último dia do ano de 2019.
Naquela tarde eu tinha feito um post no meu Instagram, com uma Kaiser na mão, em uma piscina de plástico, falando, entre outras coisas, para quem fosse ler aquilo, olhar mais pro céu em 2020. Afinal, a lua estava linda.
Mais depois, pra passar a virada do ano, eu e meu irmão fomos até a casa da mãe da minha tia, que não é a minha avó, mas que consideramos como se fosse. Muita família envolvida em pouco espaço de texto, eu sei. Sentamos na beirada da piscina. Em uma rodinha com as pessoas que já estavam lá. O chopp estava liberado desde cedo, claro.
Devia ser umas 18h45. Eu posso muito bem estar inventando esse horário. Mas era aquele finalzinho de tarde, sabe? Tinha sol e chuva. Ou chuva e sol? E, naquela correria boa dos últimos preparativos, antes de todo mundo tomar banho e ficar lindeza para o ano que chega, olhamos para o céu.
Olhamos para o céu e vimos um arco-íris DUPLO. D-U-P-L-O. Alguém aí já viu um arco-íris duplo? Um em cima, outro embaixo. Eu interpretei aquilo como 2020. Um presente do ano duplo chegando, sei lá. Sei que foi bonito. E, conforme foi anoitecendo e as nuvens dando espaço, a lua foi se destacando.
Papo vai, papo vem, todo mundo pronto, a roda foi aumentando, o chopp fazendo efeito. Olhamos para o céu novamente. Nossa, como a lua tá linda.
É crescente ou minguante? Alguém pergunta aleatoriamente.
Crescente. Eu acho que é minguante. Não, hoje eu tava escrevendo um texto e disse que era minguante, mas fui pesquisar e vi que era crescente. Ué Lina, pergunta pra Bruna, ela manja dessas coisas, tem até tatuagem. É crescente, porque tá crescendo. Não Thai, é minguante, porque tá minguando. Mas tem aquela coisa de quarto crescente, quarto minguante, não tem? Pesquisa aí no Google, Rafa. Daniel, tu que é agricultor, deveria saber. Então, tô falando, acho que é crescente. Faz sentido, tá tudo crescendo mesmo. Mas eu acho que é minguante. Achei! É crescente tio, tá escrito aqui. Não, mas essa é a anterior. Olha agora. Ah é, então é quarto crescente. Não, não, não! Crescente é a de agora. É crescente então? Sim, é crescente. Ah, então é crescente mesmo.
Para quem não sabe, a lua da virada do ano de 2019 para 2020 foi crescente.
E essa discussão me fez perceber que eu sempre gostei muito da lua. Quando ela tá cheia, e não crescente nem minguante ou o quarto sei lá o que, dá pra ver o coelhinho da Páscoa. Vocês têm a mesma história que eu sobre o coelhinho da Páscoa?
Na inocência da minha infância, minha mãe me contou que o coelhinho da Páscoa ficava na lua e só saia de lá para entregar os ovinhos de Páscoa. Na Páscoa, claro. O estranho era que o formato do coelhinho ficava lá até nos dias de Páscoa, quando a lua era cheia. Mas pra isso, minha mãe me falava que era um dublê. Porque não dava pra deixar a lua sozinha né? Então, toda vez que eu olhava pra lua eu via o coelhinho da Páscoa.
Se vocês nunca observaram isso, tentem, por favor.
Bom, cresci achando que o coelhinho da Páscoa morava na lua. E toda Páscoa, eu, meu irmão e meus primos, que morávamos em uma chácara, em Londrina (já devo ter falado disso por aqui), passávamos o dia todo atrás das pegadas do coelhinho da Páscoa. Não das pegadas de farinha. Pegadas deixadas na terra, onde a gente imaginava que era pegada de coelhinho da Páscoa. Na verdade eram pegadas de cachorro, né. E dos pelos brancos. Que eram das galinhas. Mas NÃO CONTEM pras crianças.
Acho que era uma das nossas noites/dias mais esperados. Mais que o Natal. Vivíamos para aquela virada de noite. A gente lutava o máximo que podia pra não dormir (no meu caso essa luta não era muito difícil, pois o sono sempre me venceu facilmente). Atentos a tudo. Sons, vultos, cheiros, etc. Tudo era o coelhinho da Páscoa.
Nos reuníamos na casa de alguém e ficávamos entre dormir de cansaço ou ver o coelhinho da Páscoa. E minha mãe ficava esperando nosso sono vencer, para então fazer todo o processo: esconder os ovos, fazer as pegadas, deixar bilhetinhos, etc.
Em uma daquelas noites de Páscoa, eu que já não me achava assim mais tão criança, resolvi que VERIA o coelhinho da Páscoa. Estava determinada (desconfiada) a descobrir a verdade. Queria perguntar pra ele como era morar na lua. Então, à noite, quando minha mãe foi no quarto pra perguntar (ter certeza) se já estávamos dormindo, eu fingi que sim. Me julguem.
Fiquei esperando uns minutinhos na cama até que decidi levantar. Silenciosamente. Fui até a sala. Sem saber se estava fazendo certo. Vai que o coelhinho me sequestra? Fiquei esperando atrás do sofá por um tempo. Ouvi barulhos. Meu coração ia saltar pela boca. Fui erguendo a cabeça pra espiar mais, agitada, aos pouquinhos e… foi aí que eu vi.
Minha mãe estava de costas pra mim, na cozinha ainda, quase chegando na sala (onde eu estava), terminando as pegadas de farinha. Fiquei chocada. Descobri que o coelhinho da Páscoa era, na verdade, minha mãe. Nada mais fazia sentido no mundo de Lina Fantasia Batista Bennemann. Ainda assim, fiquei quietinha, esperando ela finalizar as pegadas. Quando ela terminou e foi checar se estava tudo certo, fui descoberta também. De surpresa.
Lina, há quanto tempo você tá aí?!?!??
Eu, de pé atrás do sofá, não tinha mais resposta pra nada. Caminhei um pouco e sentei no sofá com as pernas em indiozinho. Absolutamente decepcionada com a vida. Olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé, olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé. Não respondi nada. Ela, com muita calma e meio surpresa pelo ocorrido, sentou do meu lado. Pensou um pouco. E falou que o coelhinho tinha tirado férias.
Sério mãe??? Eu sei que não é verdade.
De todo jeito ela tentou me fazer acreditar de novo. Mas que coisa, a gente vai perdendo a fantasia né. A partir daquele dia, eu não acreditava mais em coelhinho da Páscoa. E comecei a duvidar de outros contos.
Pra ter certeza, no outro dia, andando de mãos dadas com a minha mãe pela chácara, eu perguntei pra ela sobre a existência do Papai Noel. Querendo muito que a existência fosse confirmada mesmo. Claro, conhecendo a minha mãe, ela nunca teria me dito que não existe. Minha mãe sempre valorizou a fantasia. Porém, também não me mentiu. Ela me disse uma frase, que por vezes sai da minha memória racional, mas que nunca saiu do meu coração:
“Não é sobre existir ou não, é sobre acreditar. Se você acreditar com todas as suas forças, pode ser que exista. Se você acreditar com todo seu coração, pode ser que aconteça.”
Na minha última sessão de terapia falamos sobre perspectivas. E quando falei “tenho um son…”. A palavra “sonho” me soou tão estranha, como se fosse errado falar que tenho sonhos. Fiquei pensando, se inventamos o sonho só pra sonhar. Fiquei pensando se eu tinha medo de sonhar, porque corro o risco de ficar apenas nisso. Será que o sonho existe? (Mãe?)
Ainda pensando sobre o assunto, à noite, olhando pro céu, por acaso (ou não), lembrei daquele dia que descobri a verdade sobre o coelhinho da Páscoa. E do que minha mãe me disse. Não era uma desculpa, não era um conselho, não era uma imposição ou uma história qualquer. Era uma verdade pra vida.
Certa vez li algum texto que dizia para olharmos pro céu quando nos sentirmos perdidos. O céu sempre tem uma resposta. Pelo visto, não foi à toa que eu citei isso no meu texto, no último dia de 2019.
Sim, agora acho que sei. Tenho pra mim que o sonho foi feito pra gente viver. O sonho não é pra sonhar. O sonho é pra realizar. O sonho é pra acreditar. Se existe sonho, existe um objetivo. Se existe sonho, existe um caminho. Sonho dá esperança, faz nossos dias valerem a pena e dão um sentido pra vida. Se você acreditar, o sonho acontece. Sonho foi feito pra viver.
Ontem subi no último andar do prédio, a famosa laje, pra ver a Lua, claro. É época de lua cheia. E, para meu alívio e alegria, consegui ver, nitidamente, que o coelhinho da Páscoa ainda mora lá.
Eu não sei escrever cartas de amor.
Alguém aí sabe?
Eu adoro escrever cartas para as pessoas que eu gosto. Carta mesmo, aquela escrita a mão. Escrevo pro meu pai, meu irmão, minhas tias, tios e quem mais eu sentir no coraçãozinho que devo falar coisas bonitas. Ou só desabafar mesmo.
Essas cartas têm segurança de retorno positivo. Essas cartas me alimentam de carinho. São cartas que têm muito coração, mas são cartas que estão na minha zona de conforto.
Cartas de amor, aquelas que você precisa ir lá no fundo do seu coração, deixar o orgulho de lado, expressar em palavras sentimentos que você nem consegue explicar pra você mesmo, aquelas que quem sabe você não tenha um retorno à altura, essas cartas, inseguras, eu não sei.
O problema das cartas de amor é que elas têm a ver com o amor. E cartas corajosas, de quem ama com liberdade, são difíceis para espécie humana.
Ou só pra mim?
Eu não sei escrever cartas de amor. Mas eu lembro da primeira carta de amor que recebi. Uma carta de amor genuína. Daquelas de coração não quebrado ainda. Aquelas cartas de amor de primeiro amor. E, como eu não sabia o que fazer com aquele tanto de amor, rasguei e joguei fora.
É isso o que a gente faz com o amor de quem ama. Com o nosso próprio amor sentido? Quisera eu voltar no tempo e colar aquela carta. Colar aquele amor. E levar comigo pra todo canto. Pra lembrar daquele pedacinho de cuidado e coragem que alguém teve, um dia, de escrever uma carta de amor.
Quisera eu voltar no tempo em que a comunicação era por cartas (em partes). Dava tempo pra pensar no que ia escrever. Podia escrever milhares de vezes. Apagar. Rasgar. Jogar fora. E depois escrever outra. E outra. Até ficar pronta para envio. Colocar no pézinho da pomba pra ela entregar para o grande amor. Como ela sabia quem era?
Eu lembro de escrever muitas cartas para minhas amigas na minha adolescência. E de receber muitas cartas também. Não existia celular. E a gente tinha esse hábito bonito de escrever nossos sentimentos. Só para amigas. Cartas de amor eram uma barreira. São ainda.
Acho que uma carta de amor deveria ser o símbolo máximo do amor. Mas quem sabe essa seja minha versão romantizada de uma realidade que eu não aceito muito bem. A realidade da tecnologia usada de qualquer jeito. Quem sabe a gente possa achar um ponto de equilíbrio, entre cartas e Whatsapp?
Sei lá. Hoje em dia ninguém mais está disposto a se apaixonar. Ou admitir uma paixão. Que dirá escrever uma carta de amor. Eu entendo que os corações estejam em pedacinhos. Mas tem aquela sábia música, das chiquititas:
Se seu coração tem buraquinhos Juntas poderemos ajudar Nós vamos curá-lo com carinho E com muito amor (Com muito amor) Ele vai sarar
Claro, elas estavam em um orfanato. E não vivendo um grande amor. Ou pequeno, que seja. Fato é: todo mundo já foi rejeitado na vida. E já rejeitou também. Logo, todos os corações têm buraquinhos (eu ri quando escrevi essa frase). Não adianta negar.
Mas, quem sabe, ao longo da vida, a gente tenha perdido a delicadeza de olhar pra eles. A paciência de aceitá-los. E a vulnerabilidade de admiti-los. Porque, afinal de contas, dói muito né? Já dizia o sábio (ou velho) poeta: o amor é uma dor.
Quem sabe a gente tenha levado isso muito a sério. Tão ao pé da letra que, ouso dizer, o medo da rejeição (de todos os tipos) é a maior trava da humanidade. Veja bem, rejeição tem tudo a ver com o nosso medo de amar.
E aí a gente não aceita mais ter buraquinhos no nosso coração (eu ri de novo). A gente quer nosso coração inteiro. Preenchido. De silêncio (?). Shhhhh fica quietinho aí, coração. E queremos permanecer com ele assim, intacto. Mesmo que isso seja uma mentira. Sem se apaixonar. É a lei do desapego. Tempos de sexo sem compromisso. Etc.
Nada contra. Só acho que isso azedou a humanidade. Então, sim, algo contra. Eu nunca tive muito sucesso nesses tempos mesmo.
Quem sabe a gente precise reinventar o amor. E normalizar a rejeição. O amor não precisa ser uma dor. Pode ser leve. Pode ser breve. Pode ser correspondido. Ou não. Pode durar uma vida. Meia vida. Um verão.
Um carnaval. Um match. Um beijo. Um oi. Ou só uma carta.
Quem disse que precisa de tempo pra amar? Ou pra se apaixonar? Fique livre, se esses dois sentimentos, quiser diferenciar. De verdade, só escrevi isso pra rimar. Pra mim, ta tudo bem misturar.
Sou uma gênia da rima.
Eu só não sei escrever cartas de amor. Mas quem me dera eu tivesse a coragem.
…………..
PS.: eu realmente gosto muito de escrever cartas. Então, se você quiser receber uma carta, deixa uma mensagem no Instagram comprei.uma.bicicleta (ou diretamente pra mim) com a frase “eu quero uma carta linaaaaaaa” que vou escrever com muito carinho, seja você quem for. Quem sabe ela não seja de amor? 😉
Depois a gente combina a entrega.
Só uma filha em crise.
Teve uma época que eu achei que meu pai ia me vender na feira. Literalmente. Eu ficava esperando o dia que esse acontecimento se tornaria realidade. Pra qual família eu iria será?
Lembro de ficar atrás da porta do quarto dos meus pais ouvindo o que eles estavam tramando pra mim. Sorte a minha que nunca ouvi nada esquisito, além de conversas aleatórias sobre a vida (kkk).
Bom, quando eu era criança por vezes eu acompanhava meu pai na feira. Na feira da Lua, em Londrina. Quase sempre depois da aula. Como eu e meu irmão (e meus primos) estudávamos à tarde, às vezes ele buscava a gente de fusca e íamos pra feira direto. Vender morango (e comer pastel, claro). Entre outras verduras e legumes que meu pai plantava. Mas eu lembro bem do Morango. “Morangos Bennemann”. Era isso? A gente tinha até adesivo.
Eu não lembro muito bem o porquê de eu ter pensando que eles iriam me vender, mas com certeza veio de alguma piadinha que meu pai fez. Meu pai é muito conhecido pelas suas piadas não tão engraçadas, mas que de tão não engraçadas, são engraçadas. Sabe? Meu pai também é conhecido pelas suas doces palavras. Tão doces que o apelido dele é Cavalo Véio. Vocês podem imaginar o quão “docinho” ele é.
Naquela época ele deve ter me falado algo do tipo: “Lina, fica quietinha aí se não eu vou te vender junto com os morangos”. E aí eu fiquei esperando esse dia chegar. Porque certamente eu não devo ter ficado quieta. E também porque sou meio anta e acredito em tudo (praticamente tudo) o que me falam.
Graças a Deus esse dia nunca chegou. E até hoje tenho contato com a minha família.
Dia desses, depois de grande (de idade), eu entrei em crise com meu pai. Outra, entre tantas outras no decorrer da vida. Meu pai nunca foi lá uma dessas pessoas que fala muito. Até hoje quando eu pergunto alguma coisa pra ele, se ele não tá muito a fim, finge que não ouve e sai do ambiente no qual estou. E eu fico lá, esperando uma resposta que nunca vai chegar.
Hoje em dia já não ligo muito. Deve ser o jeito que ele escolheu de não se estressar. Vai saber. Se eu perguntar porque ele faz isso, certamente seria uma outra pergunta sem resposta.
Depois que minha mãe faleceu meu pai mudou bastante. Começou a estar bem mais presente na minha vida (e na do meu irmão, mas acho que não posso falar por ele).
Como eu moro distante (eu em Curitiba, eles em Carazinho – RS), quando estou lá é ele quem faz almoço, janta, café. É o jeito que ele achou de demonstrar amor pela gente. Mas meu pai não mudou tanto a ponto de responder minhas perguntas. Que são infinitas, admito.
E em uma das minhas ligações pra ele, eu questionei porque ele não me ligava mais vezes. Sou sempre eu. Por que ele não se importava com o que eu estava fazendo? Ele nem sabe o que eu faço da vida. Alô pai, eu to sofrendo. Por que você não vem me visitar? Você não se importa com nada na minha vida. Blá, blá, blá e etc.
Depois de ele não responder nenhuma das minhas perguntas, claro, e dizer “ok, semana que vem te ligo”, desliguei o telefone e comecei a chorar. Na rua. Eu sou dessas, choro na rua. Onde tiver que chorar eu choro. Mentira, às vezes eu espero chegar em casa.
Outro dia, conversando com uma amiga, chegamos ao assunto “pai”. E percebi que praticamente os mesmos problemas de relacionamento que eu tenho com meu pai, ela também tem com o dela. Lembrei de outras amigas que já conversei sobre o assunto. E amigos. Pelo jeito, relacionamentos com pais são confusos mesmo. Relacionamento no geral é confuso. E, se não há comunicação, como é o meu caso com meu pai, pode ficar pior.
Mas aí, em uma outra conversa, com meu primo emprestado, também percebi que nossos pais fizeram e fazem o melhor que eles podem. Assim como a gente como filhas e filhos.
E depois, pensando bem, relembrei (de novo, como percebi em outras crises) a mágica do meu relacionamento com meu pai. Como é bom, na maioria das vezes, ele nem querer saber muito da minha vida. E só se importar se eu estou bem. Como é bom, sentar na grama no finalzinho do dia, ou depois do almoço, e ficar em silêncio do lado dele. Tomando uma cervejinha (Kaiser na maioria das vezes). Rindo de coisas aleatórias. Como é bom ter um pai agricultor que planta as melhores saladas que eu já comi na minha vida. Como é bom que ele não me faça tantas perguntas, assim como eu faço pra ele. Como é bom ter um pai como o meu pai. Como é bom, no final de toda ligação, que normalmente dura em torno de 1 minuto e meio, ouvir do outro lado da linha um “eu te amo”.
A gente vive falando que precisa ouvir mais. Mas acho que o ouvir mais, não quer dizer literalmente ouvir. Mas sim perceber. Sentir. E se esforçar, como filha, como filho, como amigo, amiga, irmã, irmão, pai, mãe, parceiro ou parceira, com as pessoas que a gente gosta.
Todo mundo tem lá seus defeitos e relacionamento nem sempre (nunca) é fácil. Mas a gente sempre deve lembrar que a felicidade está na qualidade dos nossos relacionamentos também. E ele é feito de mais pessoas. Não só de uma. Qualquer relacionamento se constrói com reciprocidade, respeito, cuidado e, principalmente, amor.
Dia desses fui reclamar do barulho que meu vizinho estava fazendo no andar de cima. E no final eu mesma falei uma frase e fiquei pensando na boniteza dela: “ tá bom, a gente vai se acertando”.
Sim, a gente vai se acertando. A vida vai se acertando.
Afinal de contas, meu pai nunca me venderia numa feira.
Eu acho.
Cuidado com os medos, lhes encanta roubar sonhos
Percebi que o medo estava me dominando quando fui fazer um trabalho voluntário na Cidade Escola Ayni, em Guaporé – RS, no final de 2018.
O ponto foi quando fiquei com medo de pisar na grama.
Eu, que nasci no mato (literalmente, nasci no Mato Grosso). Eu, que vivia com o pé encardido de terra vermelha, quando morava em Londrina (lá tem terra vermelha). Eu, que pisava descalça na brita e não sentia dor (sério). Que tomava banho de chuva no meio da tempestade. Eu, que subia em árvores e pulava de cima delas. Dava cambalhotas. Me contorcia inteira como elástico. Nadava até o fundo do mar e deixava ele me levar pra onde quisesse (para o terror da minha mãe). Eu, que nadava no rio com correnteza. Que voltava pra casa cheia de lama no corpo inteiro.
Estava com medo de pisar na grama.
Mesmo me sentindo muito corajosa por todas as decisões malucas que já tomei na minha vida, senti que o medo estava me dominando. Percebi que eu já não entrava no mar com a mesma vontade de me jogar. Que eu já não andava descalça com a mesma tranquilidade. Que eu já não lembrava mais a última vez que tinha dado uma cambalhota. A tempestade hoje, me paralisa. Comecei a desenvolver um certo medo de altura.
Depois que eu “perdi” minha mãe, em 2017, esses medos ficaram ainda maiores (ou mais perceptíveis). Percebi um medo terrível de perder as pessoas que eu amo. De apostar em coisas novas. De relacionamentos. Medo de falhar. Medo de decepcionar. De me decepcionar. Medo de perder. De me perder. E nunca mais me encontrar.
O medo me dominava por inteira. E percebi que quanto mais velha eu ficava, mais eu me afastava da natureza. Quanto mais aniversários, mais medos eu cultivava.
Descobri que eu estava adultecendo.
“Cuidado para não adultecer”. Era uma das frases escritas nas paredes da casa em que fiquei hospedada, durante meu voluntariado na Ayni.
Diferente de amadurecer, quando você adultece, segundo minhas próprias interpretações, você perde a essência da vida. Aquilo que faz seu olhinho brilhar. Quando você adultece, o medo vai te dominando em várias esferas da sua vida, sem você perceber. E vai aumentando proporcionalmente a nossa idade.
Quem diria que criaríamos monstros depois de adultos.
Afinal, medos são monstros imaginários que muitas vezes nos impedem de realizar aquilo que faz nosso coração bater mais forte. Ele fica entre o coração e o cérebro, como se fosse uma ponte interditada, que quebrou conforme o tempo foi passando, conforme as responsabilidades foram aumentando, nossas raízes se afundando em um terreno qualquer e o conforto do nosso teto se tornando nossa única visão.
O medo faz com que a gente continue na nossa caverna. Olhando as sombras que nos projetaram, do lado de dentro, sem nunca sair do conforto, sem deixar nossos olhos arderem com a luz da claridade (só com a luz do celular), sem pisarmos nos espinhos dos terrenos desconhecidos, sem duvidarmos das nossas próprias certezas, sem questionarmos a verdade que nos foi ensinada.
Sem experimentarmos o que, quem sabe, seja o bom da vida.
Estamos todos doentes de adultecer.
É isso. É assim mesmo. Não tem como mudar. O mundo vai acabar mesmo. Não tenho mais idade pra aprender. Ou pra casar. Preciso responder rápido. Não tenho tempo pra pensar nisso. Ou pra pensar apenas. Ou pra respirar. Preciso correr para minha próxima reunião. Não tenho dinheiro. Não tenho tempo.
Quando sobrar eu vou viajar. Quando surgir uma nova oportunidade eu saio desse trabalho que eu odeio. Quando eu sentir que não vou me decepcionar eu começo um namoro. Quando eu souber que não vou ficar sozinha (o) eu termino esse relacionamento. Quando o ano começar eu faço uma dieta. Na próxima segunda eu começo meu livro. Quando ele falar eu te amo eu digo também. Da próxima vez eu vou ter aquela conversa.
Um dia desses. Quem sabe amanhã. Depois. Ano que vem.
Talvez nunca.
Essas desculpas somos nós, adultecendo. Deixando o medo decidir por nós. O medo do novo, o medo da mudança, o medo de errar, o medo de tomar uma decisão arriscada, o medo da rejeição, o de faltar, o medo de sobrar, o medo pelo medo.
Mas, apesar de tudo isso, eu acredito que não é necessariamente o medo que nos faz adultecer. É a falta de coragem de seguir nosso coração. Afinal, o medo sempre vai existir. É bom sentirmos medo. Nos faz ter prudência em certas ocasiões.
O que não é bom é deixarmos a nossa ponte quebrada.
Uma vez ouvi de uma amiga que coragem não é ausência de medo. Então, que não nos falte coragem para seguirmos os nossos sonhos no aqui e no agora, que é o único tempo que realmente “temos” para viver. Se der errado, é só começar de novo.
Experimente experimentar. Pisar na grama. Aprender algo totalmente novo. Dizer eu te amo. Dar cambalhotas. Se jogar na vida. Volte a criançar.
E, se der medo, vai com medo mesmo.
Manifesto da Menstruação
Ninguém ensina a gente a como ficar menstruada. Sim, precisa aprender.
Ninguém faz o favor de avisar “olha mocinha, um dia você vai sangrar do nada e vai achar que está morrendo, mas é só menstruação, fica tranquila”.
Geralmente a gente fica sabendo que um dia vai sangrar pela vagina, na aula de biologia, ou relações sexuais (é esse o nome ou estou enganada? Isso existe?).
Esquisito. Faz sei lá quantos séculos que isso acontece e a menstruação ainda não é uma coisa muito falada na mesa em família.
Entre amigos e amigas temos quantos eufemismos para dizer “estou menstruada”? Vou citar algumas aqui que conheço:
“Estou nos meus dias”
“Estou naqueles dias”
“Desceu”
“Estou de chico” – HAN?
“Acordei e tinha um assassinato na cama” – boa.
“Meus parentes de lagoa vermelha vieram me visitar” – eu choro de rir com essa.
Da primeira vez é: “Fiquei mocinha” – FIQUEI M-O-C-I-N-H-A. Ninguém nunca achou isso muito esquisito? O que é ficar mocinha meu Deus? Significa que não posso mais jogar bola com meninos? Significa que preciso cuidar da casa? Significa que preciso aprender a cozinhar? Significa que posso transar? Oba. Ou não posso? Ai senhor.
A interpretação é livre. Porque eu pelo menos nunca recebi uma explicação. E aposto que nem minha mãe. Nem a mãe da minha mãe. Nem minhas tias, amigas, etc.
Não sei, mas quando eu sangrei pela primeira vez e achei que ia morrer, minha mãe me perguntou se podia contar para as pessoas que eu “fiquei mocinha”.
Hummmmm, será mãe? Será que é uma boa ideia? Pode, vai. Mas só pro meu pai.
Será que meu pai sabe o que é ficar mocinha? Porque não é papel da mãe ensinar que a menina vai ficar menstruada né meus amigos. Todo mundo adulto sabe que a mulher vai menstruar um dia.
Passado a primeira parte do susto tem a outra parte que é o fluxo né. A gente não aprende a como ficar menstruada, imaginem aprender a usar uma porra de um absorvente.
Quantas vezes preciso trocar? Como jogo fora? Como que prende essa merda? Será que é normal sair tanto sangue? Coloco mais pra frente ou mais pra trás? Deve ser tipo aprender a trocar fralda. Como que eu enfio esse negócio (OB)? Essa merda machuca, porra.
Tem vezes que o sangue vai pra qualquer lugar, menos pro absorvente.
Nas primeiras vezes (e depois também), pra quem tem um fluxo muito forte, mancha tudo. Mancha colchão, mancha calça, mancha sofá, mancha nossa dignidade. Dá vergonha (e dor de barriga). Mas gente, de jeito nenhum isso deveria dar vergonha, vocês não acham?
Deveria ser a coisa mais normal que existe. “Ops profe, manchou as parada tudo aqui, vou precisar ir pra casa trocar a roupa inteira”. “Olha aquela moça com a calça manchada de sangue, deve estar menstruada, vou avisar.”
Imaginem a liberdade de poder levar o absorvente pro banheiro, na hora de trocar, SEM TER QUE ESCONDER O OBJETO EM QUESTÃO?
Achei essa reportagem aqui que diz que a mina “quebrou um tabu” dizendo em público que estava menstruada. O ano é 2016. 2016. DOIS MIL E DEZESSEIS.
Fora tudo isso, tem a porra da TPM. Qué isso gente. Toda mulher de TPM deveria ter dias de folga. Fica essa dica preciosa aqui.
Tem aquelas que têm a sorte de ter uma TPM mais amena e tem outras, como é o meu caso, que têm vontade de pular do prédio. Jogar o gato pela janela. Dá dor em tudo. Tem mulher que nem consegue carregar os peitos de tanta dor. Tem mulher que quer comer tudo o que vê pela frente. LITERALMENTE, se é que me entendem.
Por favor, vamos nos dar a liberdade de ficar menstruada em paz. Pode dizer que tá com cólica menstrual no trabalho sim, pode dizer que vai se atrasar porque o colchão inteiro manchou de sangue menstrual, pode dizer que vai trocar o absorvente em voz alta.
Eu tô menstruada nesse momento. Então gente, se minha calça manchar, podem me falar. Eu não vou mais esconder meu absorvente, ok? E quando eu estiver na TPM, não fique muito perto de mim.
Todo mês, nós mulheres, temos um dia para celebrar e sair contando pra todo mundo: FIQUEI MENSTRUADA. Vencemos na vida.
E sutiã também é uma bosta. Valisere que se foda.









