Último dia do ano de 2019.
Naquela tarde eu tinha feito um post no meu Instagram, com uma Kaiser na mão, em uma piscina de plástico, falando, entre outras coisas, para quem fosse ler aquilo, olhar mais pro céu em 2020. Afinal, a lua estava linda.
Mais depois, pra passar a virada do ano, eu e meu irmão fomos até a casa da mãe da minha tia, que não é a minha avó, mas que consideramos como se fosse. Muita família envolvida em pouco espaço de texto, eu sei. Sentamos na beirada da piscina. Em uma rodinha com as pessoas que já estavam lá. O chopp estava liberado desde cedo, claro.
Devia ser umas 18h45. Eu posso muito bem estar inventando esse horário. Mas era aquele finalzinho de tarde, sabe? Tinha sol e chuva. Ou chuva e sol? E, naquela correria boa dos últimos preparativos, antes de todo mundo tomar banho e ficar lindeza para o ano que chega, olhamos para o céu.
Olhamos para o céu e vimos um arco-íris DUPLO. D-U-P-L-O. Alguém aí já viu um arco-íris duplo? Um em cima, outro embaixo. Eu interpretei aquilo como 2020. Um presente do ano duplo chegando, sei lá. Sei que foi bonito. E, conforme foi anoitecendo e as nuvens dando espaço, a lua foi se destacando.
Papo vai, papo vem, todo mundo pronto, a roda foi aumentando, o chopp fazendo efeito. Olhamos para o céu novamente. Nossa, como a lua tá linda.
É crescente ou minguante? Alguém pergunta aleatoriamente.
Crescente. Eu acho que é minguante. Não, hoje eu tava escrevendo um texto e disse que era minguante, mas fui pesquisar e vi que era crescente. Ué Lina, pergunta pra Bruna, ela manja dessas coisas, tem até tatuagem. É crescente, porque tá crescendo. Não Thai, é minguante, porque tá minguando. Mas tem aquela coisa de quarto crescente, quarto minguante, não tem? Pesquisa aí no Google, Rafa. Daniel, tu que é agricultor, deveria saber. Então, tô falando, acho que é crescente. Faz sentido, tá tudo crescendo mesmo. Mas eu acho que é minguante. Achei! É crescente tio, tá escrito aqui. Não, mas essa é a anterior. Olha agora. Ah é, então é quarto crescente. Não, não, não! Crescente é a de agora. É crescente então? Sim, é crescente. Ah, então é crescente mesmo.
Para quem não sabe, a lua da virada do ano de 2019 para 2020 foi crescente.
E essa discussão me fez perceber que eu sempre gostei muito da lua. Quando ela tá cheia, e não crescente nem minguante ou o quarto sei lá o que, dá pra ver o coelhinho da Páscoa. Vocês têm a mesma história que eu sobre o coelhinho da Páscoa?
Na inocência da minha infância, minha mãe me contou que o coelhinho da Páscoa ficava na lua e só saia de lá para entregar os ovinhos de Páscoa. Na Páscoa, claro. O estranho era que o formato do coelhinho ficava lá até nos dias de Páscoa, quando a lua era cheia. Mas pra isso, minha mãe me falava que era um dublê. Porque não dava pra deixar a lua sozinha né? Então, toda vez que eu olhava pra lua eu via o coelhinho da Páscoa.
Se vocês nunca observaram isso, tentem, por favor.
Bom, cresci achando que o coelhinho da Páscoa morava na lua. E toda Páscoa, eu, meu irmão e meus primos, que morávamos em uma chácara, em Londrina (já devo ter falado disso por aqui), passávamos o dia todo atrás das pegadas do coelhinho da Páscoa. Não das pegadas de farinha. Pegadas deixadas na terra, onde a gente imaginava que era pegada de coelhinho da Páscoa. Na verdade eram pegadas de cachorro, né. E dos pelos brancos. Que eram das galinhas. Mas NÃO CONTEM pras crianças.
Acho que era uma das nossas noites/dias mais esperados. Mais que o Natal. Vivíamos para aquela virada de noite. A gente lutava o máximo que podia pra não dormir (no meu caso essa luta não era muito difícil, pois o sono sempre me venceu facilmente). Atentos a tudo. Sons, vultos, cheiros, etc. Tudo era o coelhinho da Páscoa.
Nos reuníamos na casa de alguém e ficávamos entre dormir de cansaço ou ver o coelhinho da Páscoa. E minha mãe ficava esperando nosso sono vencer, para então fazer todo o processo: esconder os ovos, fazer as pegadas, deixar bilhetinhos, etc.
Em uma daquelas noites de Páscoa, eu que já não me achava assim mais tão criança, resolvi que VERIA o coelhinho da Páscoa. Estava determinada (desconfiada) a descobrir a verdade. Queria perguntar pra ele como era morar na lua. Então, à noite, quando minha mãe foi no quarto pra perguntar (ter certeza) se já estávamos dormindo, eu fingi que sim. Me julguem.
Fiquei esperando uns minutinhos na cama até que decidi levantar. Silenciosamente. Fui até a sala. Sem saber se estava fazendo certo. Vai que o coelhinho me sequestra? Fiquei esperando atrás do sofá por um tempo. Ouvi barulhos. Meu coração ia saltar pela boca. Fui erguendo a cabeça pra espiar mais, agitada, aos pouquinhos e… foi aí que eu vi.
Minha mãe estava de costas pra mim, na cozinha ainda, quase chegando na sala (onde eu estava), terminando as pegadas de farinha. Fiquei chocada. Descobri que o coelhinho da Páscoa era, na verdade, minha mãe. Nada mais fazia sentido no mundo de Lina Fantasia Batista Bennemann. Ainda assim, fiquei quietinha, esperando ela finalizar as pegadas. Quando ela terminou e foi checar se estava tudo certo, fui descoberta também. De surpresa.
Lina, há quanto tempo você tá aí?!?!??
Eu, de pé atrás do sofá, não tinha mais resposta pra nada. Caminhei um pouco e sentei no sofá com as pernas em indiozinho. Absolutamente decepcionada com a vida. Olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé, olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé. Não respondi nada. Ela, com muita calma e meio surpresa pelo ocorrido, sentou do meu lado. Pensou um pouco. E falou que o coelhinho tinha tirado férias.
Sério mãe??? Eu sei que não é verdade.
De todo jeito ela tentou me fazer acreditar de novo. Mas que coisa, a gente vai perdendo a fantasia né. A partir daquele dia, eu não acreditava mais em coelhinho da Páscoa. E comecei a duvidar de outros contos.
Pra ter certeza, no outro dia, andando de mãos dadas com a minha mãe pela chácara, eu perguntei pra ela sobre a existência do Papai Noel. Querendo muito que a existência fosse confirmada mesmo. Claro, conhecendo a minha mãe, ela nunca teria me dito que não existe. Minha mãe sempre valorizou a fantasia. Porém, também não me mentiu. Ela me disse uma frase, que por vezes sai da minha memória racional, mas que nunca saiu do meu coração:
“Não é sobre existir ou não, é sobre acreditar. Se você acreditar com todas as suas forças, pode ser que exista. Se você acreditar com todo seu coração, pode ser que aconteça.”
Na minha última sessão de terapia falamos sobre perspectivas. E quando falei “tenho um son…”. A palavra “sonho” me soou tão estranha, como se fosse errado falar que tenho sonhos. Fiquei pensando, se inventamos o sonho só pra sonhar. Fiquei pensando se eu tinha medo de sonhar, porque corro o risco de ficar apenas nisso. Será que o sonho existe? (Mãe?)
Ainda pensando sobre o assunto, à noite, olhando pro céu, por acaso (ou não), lembrei daquele dia que descobri a verdade sobre o coelhinho da Páscoa. E do que minha mãe me disse. Não era uma desculpa, não era um conselho, não era uma imposição ou uma história qualquer. Era uma verdade pra vida.
Certa vez li algum texto que dizia para olharmos pro céu quando nos sentirmos perdidos. O céu sempre tem uma resposta. Pelo visto, não foi à toa que eu citei isso no meu texto, no último dia de 2019.
Sim, agora acho que sei. Tenho pra mim que o sonho foi feito pra gente viver. O sonho não é pra sonhar. O sonho é pra realizar. O sonho é pra acreditar. Se existe sonho, existe um objetivo. Se existe sonho, existe um caminho. Sonho dá esperança, faz nossos dias valerem a pena e dão um sentido pra vida. Se você acreditar, o sonho acontece. Sonho foi feito pra viver.
Ontem subi no último andar do prédio, a famosa laje, pra ver a Lua, claro. É época de lua cheia. E, para meu alívio e alegria, consegui ver, nitidamente, que o coelhinho da Páscoa ainda mora lá.

