humanidade falida

Uma vez inventaram
Um sistema quadrado
E nunca mais
Isso foi questionado

Será que funciona mesmo
Ninguém quis saber
Mas seguiram fazendo
Sem nem ao menos entender

As coisas foram comprando
Dinheiro foram ganhando
E quanto mais o tempo foi passando
As classes se distanciando

Privilégios foram concedidos
Sem sequer serem percebidos
Quem não quer estudar
É porque são bandidos

Bêbados vagabundos
Escolheram estar na rua
Por isso devem ser banidos
Queimados

Vivos

Morrem de fome
Aqueles que não têm um nome
Nesse sistema
Cheio de esquema

Poucos têm muito
Muitos têm pouco

Mas a culpa não é minha
E sim daqueles que não souberam lutar
Pois as oportunidades
Disseram que foram dadas iguais

Ninguém planta
Só compra
E acham que todo ismo
É onda

Assumimos como verdade
Aquilo que condiz
Com nossa própria vaidade

Orgulho
Ego
Intolerância
Ou só a tal da ignorância

Eu já não sei mais
Se a culpa é desse sistema
Ou é a gente
Que não quer pensar no problema

é Brasil com s

Eu sim amo o Brasil
Dessa imensidão de país
As terras aqui
Têm mesmo encantos mil

(Você já viu?)

Eu sim amo o Brasil
Da alegria do nordeste
E da vegetação do agreste (mesmo)

Eu sim amo o Brasil
Do pagode, do funk, do samba
Da vida que emana

Eu sim amo o Brasil
Do encanto da floresta
Da simpatia da Bahia

Eu sim amo o Brasil
Do Pará ao Rio Grande
Meu amor é gigante

Eu sim amo o Brasil
Do jeito moleque de lidar
Com situações difíceis de levar

Eu sim amo o Brasil
Do futebol sem vaidades
Inclusive, saudades

Eu sim amo o Brasil
Do carnaval colorido
Onde todo mundo é amigo

(Já experimentou?)

Eu sim amo o Brasil
Não quero arma na mão
Apenas compaixão

Eu sim amo o Brasil
Entendo que há privilégios
Distorcidos, injustos e incrédulos

(Você já percebeu? Digo, os seus)

Eu sim amo o Brasil
Sei que tenho responsabilidade
Em toda essa barbárie

Eu sim amo o Brasil
Luto junto com as diferenças
E apoio toda bonita crença

Eu sim amo o Brasil
Não quero a volta
De um sistema que mata
(E desmata)

Eu sim amo o Brasil
Quero que ele seja livre
De todo mal que já se ouviu

Eu sim amo o Brasil
Torço para que possamos
Todos os dias sermos mais mil

(E não menos)

Eu sim amo o Brasil
Da diversidade de gente
E cada um tão diferente

Eu sim amo o Brasil
Nem falei das praias e da literatura
Da arte e da cultura

Eu sim amo o Brasil
Quero que ele seja
O país mais gentil

E, se você não está pronto
Pra tudo isso

Infelizmente
Esse Brasil não é seu

Me devolve o verde e amarelo
ELE É MEU

Pois eu sim amo o Brasil.

é uma cilada

Hoje eu tive insônia
Acordei zonza
Sem saber onde estava

Tentei me virar
Tentei dormir
Mas nada adiantava

Pensei no passado
E em tudo que eu podia
Ter melhorado

Pensei no futuro
E até a incerteza
Ficou sem rumo

Pensei no presente
Mas quase chorei
Está tão deprimente

Tentei pensar em nada
Mas que merda
Tem muita coisa errada

Respirei três vezes até o fim
Quem sabe assim
O sono voltava enfim

Que engano
Abri o olho
E pior de tudo isso

É que não era sonho.

por que isso existe mesmo?

O dia que precisei
Autenticar minha assinatura

Precisava de cópia
Não era só uma

Todas as mil páginas
Precisam da rubrica

Isso é a garantia
Você precisa provar

Que você é você

Não, não há outra forma
E eu preciso saber

Afinal, como confiar 
Nesse mundo marginal

Eu não posso arriscar
Mas você, claro, pode pagar

Pois é meu filho
É a lei do costume

Eu pago caro
Pra você não perder um centavo

Eu sigo pato
E o cartório milionário

eu só ouço falar

Olá senhora
Aqui é a Gisele
Falo em nome da sua gerente
A Tatiele

(Ah, sim
Aquela que nunca consigo falar
Tirando os dias
Que quer me cobrar)

Vimos que tem uma dívida
No nosso banco “digital”
Pergunto se você
Por acaso não quer parcelar

A dívida de mil
Podemos em 60 vezes dividir
Os juros baixam pela metade
E você paga com mais tranquilidade

(Claro, por que não aumentar
As chances de eu nunca mais 
Conseguir cancelar
Minha conta nesse banco impopular)

Senhora enviarei uma simulação
No seu telefone
Pra você ver melhor
Que na verdade, isso é pior

(A dívida de mil
Fica do tamanho do Brasil
Mas que bela ajuda
Ficarei ainda mais fudida)

Senhora estamos aqui
Para o que precisar
Para te ajudar

(Menos se tiver problemas
Ou qualquer outra coisa
Que não envolva comprar)

Pois é amiga senhora
Essa é a lei do maior

Eu fico aqui
Fingindo ajudar

Enquanto o patrão
Come caviar

(Obs.: é senhorita)

pagando a conta errada

Rescindi meu contrato
Antes do tempo
Mal sabia eu
O tanto de sofrimento

Senhora
Precisa pintar o apartamento
E quanto seria
Esse pagamento

Multiplica trezentos
Por duzentos
Soma mais quinhentos
E coloca mais mil e trocentos

Porém senhora
Não é só isso
Tem a luz 
E o condomínio

A taxa de vistoria
De assinatura
A leitura do gás
E ainda a multa

Enquanto isso senhora
Também cobramos todos os dias
As chaves que não estão
Em nossas mãos

Mas o que é isso
É extorsão (?)
Não senhora
Está na contratação

(...)

Pois é minha cara
É a lei da vida
Eu sigo pobre
E a imobiliária rica

Eu não sei.

Não sei mesmo. Mas eu tenho a impressão que minha vida inteira eu passei com aquela sensação de: “e agora?”. 

Fiz 15 anos, e agora? Terminei o ensino médio, e agora? Fiz 18 anos, e agora? Comecei a faculdade, e agora? Terminei a faculdade, e agora? Meu namorado me traiu, e agora? Comecei um novo emprego, e agora? Mudei de cidade, e agora? Terminei meu livro, e agora? Fui demitida, e agora? Não quero mais trabalhar com o que eu trabalho faz anos, e agora? Terminei meu namoro, e agora? Fiz 30 anos, e agora? Estou morando sozinha, e agora? Me aposentei, e agora? Pandemia, e agora?

Parece que precisamos ter resposta pra tudo. O quanto antes. O não sei, não serve. Não existe, como dizem por aí. Você precisa escolher. E quem sabe por isso a gente viva com tanta ansiedade hoje. Não fomos ensinados para nossos momentos “e agora”. Não fomos ensinados para termos incertezas. Ou para vivermos nelas. Não fomos ensinados a viver no agora.

Fomos treinados para termos certezas. Pensarmos no futuro. E remoermos o passado. É assim ó: aprende a caminhar, estuda, trabalha, casa, tem filhos, faz sucesso na carreira (seja lá o que isso signifique pra você), aposenta, se arrepende, morre. 

Tem até um momento da vida, ou vários desses momentos, em que nos damos conta que a vida passa muito rápido. Meu Deus, e agora? O que eu fiz? O que eu vou deixar para o mundo? Como as pessoas vão lembrar de mim? E agora?

Preciso viajar mais. Correr mais. Estudar mais. Trabalhar mais. Produzir mais. Vender mais. Crescer mais. Otimizar mais. Me informar mais. Consumir mais. AAAAAAAAAAAAAH, DEVIA TER FEITO ISSO ANTEEEEEEES! E agora?

Meu último momento “e agora” foi agora pouco. Antes de eu começar esse texto. No meio dessa pandemia toda louca da vida estava eu, de novo, a me perguntar, e agora, Lina? 

Acabei tomando uma decisão muito importante na minha vida dias atrás. Não de repente. Passei mais ou menos um ano pensando nisso. Precisou de uma pandemia pra eu decidir ir por esse caminho. Depois de 12 anos (+-) morando (pagando aluguel) em Curitiba, resolvi voltar pra cidade que eu morava antes, Carazinho, RS. 

Claro, fiquei alguns dias com a crise do “e agora”. E agora que vou voltar? E meus sonhos? O que eu vou fazer? Como vai ser? Até eu começar a perceber que, quem sabe, essa crise do “e agora” seja uma necessidade de controle sobre a vida. Num geral da coisa toda. Um controle imposto pelos nossos padrões de vida. Como fomos treinados.

Eu preciso saber pra onde eu vou, o que eu vou fazer, onde quero chegar, por que eu quero chegar, qual o sentido disso, e daquilo. Eu preciso escolher. Com a razão, claro. Precisa ser racional, né? Além de rápido. Como assim eu não sei o que quero da vida? Como assim eu não sei qual será o meu próximo passo?

Sabem, eu tinha um plano para 2020, assim como a maioria das pessoas, acredito eu. Mas também não conheço a maioria das pessoas, então pode ser que eu esteja me baseando em experiências anteriores pessoais das quais eu inventei. Já pensaram nisso?

Bom, sim, de fato é bom planejar. Eu vendo isso, literalmente. É bom termos perspectivas da vida, de onde isso ou aquilo podem nos levar. É bom saber o que queremos. E o que não queremos. É bom saber como alcançar os nossos sonhos. É bom ter sonhos. 

Mas, me dei conta, que nada disso significa ter o controle. E, pensando dessa forma, a vida parece ser bem mais simples. 

Ter sonhos, planos, saber o que queremos ou o que não queremos, não significa que não teremos nossos momentos “e agora”, que não teremos que mudar os planos, mesmo que a gente não tenha planos (e tá tudo bem). Não significa que não ficaremos indecisos por vários dias, meses, anos ou a vida inteira. Não significa que não possamos mudar, até mesmo, nossos sonhos.

Agora estamos vivendo um momento “e agora”. Um momento de pura incerteza no mundo inteiro. Aquele momento em que a gente nunca imagina viver. E que ninguém nunca pensou em nos ensinar. Se é que isso é possível de ensinar. 

Talvez por isso, e por sempre acharmos que precisamos ter resposta pra tudo, o tempo todo, o mais rápido possível, por acharmos que precisamos ter o controle (mesmo que esse sentimento seja invisível, ele está aí dentro), ou certezas, não estamos sabendo lidar com esse momento “e agora”. 

Um momento em que somos praticamente obrigados a mudar. Um momento em que precisamos repensar nossa rotina. Repensar nosso trabalho. Repensar nosso consumismo. Nossa educação. Nosso dinheirismo. Nossa alimentação. Nossa política. Um momento que precisamos pensar no próximo. 

Talvez isso seja, a humanidade em crise com ela mesma. Quem sabe, esse momento seja como se fosse um botão “resetar” da humanidade. Não estamos em crise econômica, política ou de saúde. Estamos em crise com nós mesmos. E aí, tudo desaba.

Quem sabe o que a gente precise mesmo agora é mais simples do que imaginamos. Quem sabe a gente só precise mesmo parar. 

Parar pra respirar. Parar pra se cuidar. Parar pra fazer nada. Pra cuidar de quem a gente ama. Pra gente analisar como pode melhorar. Pra gente dormir mais (ou menos). Pra gente observar o que podemos evoluir no trabalho que temos. Ou como achar um novo. Pra gente conhecer melhor as pessoas que moram com a gente. Pra gente aprender a ser gente de novo. Pra gente aprender a questionar. Pra gente aprender a viver o agora. Pra gente aprender que a vida é mesmo incerta. E que a certeza, muito provavelmente, nem exista. Não saber o que se quer, ou o que vai acontecer, tá tudo bem.

Quem sabe, no sentido bem poético dessa loucura, essa pandemia seja o mundo nos dando uma oportunidade de revermos tudo o que estamos fazendo de ruim. Para nós mesmos.

Quem sabe, seja uma oportunidade de, finalmente, aprendermos a viver um dia de cada vez. O dia de hoje. O momento de agora. 

Quem sabe, seja um belo tapa na cara pra gente aprender a valorizar o que tem. Não as coisas. Você sabe, né? A liberdade. O ar. O corpo. As pessoas. A natureza. A vida.

Quem sabe eu tenha vivido uma vida inteira de 32 anos de incertezas. Achando que eu tinha o controle (certeza) sobre alguma coisa. Porém, mal sabia eu que o controle a gente só tem da TV. E olhe lá.

E agora, quem sabe você também esteja num momento “e agora?”. Se perguntando, entre outras mil dúvidas, se deve deixar a vida te levar. Quem sabe sim. Quem sabe não. Quem sabe?

Eu, sinceramente, não sei. 

E, neste momento, estou feliz em saber disso.

O que eu aprendi comendo mandioca

*Observação importante antes de você começar a ler: eu não me responsabilizo por duplo sentido em mentes criminosas, em todo o texto.

Mandioca não tem glúten, sabiam? Além disso é fonte de magnésio, carboidrato, potássio, cálcio. Uma ótima substituta do pão, das pizzas e massas no geral. É da mandioca que fazem meu alimento predileto, depois do ovo, a tapioca. Minha refeição principal é tapioca com ovo. Se for pensar, eu vivo de mandioca e ovo. É praticamente tudo o que tem pra comer lá em casa.

A mandioca é uma raiz tuberosa. Vocês sabem como é o pé de mandioca? É quase do meu tamanho, pelo que eu me lembre. As folhas parecem da cannabis. Eu sei porque meu pai planta mandioca desde que eu era criança. Mas só dá pra comer a raiz da mandioca. Porque as folhas são venenosas. Ou eu to inventando isso. Na dúvida, procure no Google.

Quando meu pai quer conhecer bem alguém ele manda descascar mandioca. Quilos de mandioca. Não uma ou duas. Foi assim o primeiro encontro com a atual namorada dele. Ela precisou descascar mandioca minha gente. Já pensou você chegando pela primeira vez na casa do seu namorado, toda arrumada, cheirosa, maravilhosa, com as unhas feitas, e ele, no romantismo da brutalidade, chega e fala no seu ouvido: senta aí e vamos descascar mandioca. Você acha estranho e pensa que é uma frase sensual/brega. Mas não, a mandioca tá ali de verdade, cheia de terra, com uma faquinha sem ponta do lado, te esperando.

Já eu sempre desvio o caminho quando eu vejo que ele tá descascando mandioca. O coisa difícil da porra. Alguém aí já descascou mandioca? Não é a toa que mandioca descascada é mais cara no mercado. 

Desde criança, meu pai sempre pedia pra gente descascar a tal da mandioca. Tipo cortar a unha do pé. Meus tios e tias, fãs da mandioca, também proclamavam o castigo: ô criançada, peguem as “cadeira” aí e se atraquem na mandioca. Mas eu, como já previa o sofrimento, sempre dei um jeito de fugir. 

Até que um dia, depois de véia, sem ter o que fazer, eu aceitei o desafio. Enquanto meu pai, já craque na competição, descascava 10 ou 20 mandiocas, eu ainda estava na primeira. Fui tão mal que fui desclassificada na primeira mandioca. Meu Deus guria, tu é muito ruim. Me dê essa faca aqui. Tu não serve para descascar mandioca.

Ué. Pausa para reflexão.

Para meu consolo, descascar mandioca não é pra qualquer um. Precisa ter paciência, agilidade, jeito, talento, dom, experiência, habilidades específicas, hard skills, soft skills e habilidades extraterrestres. E também não pode conversar muito, atrapalha o trabalho. 

Bom, vez ou outra eu venho visitar meu pai aqui no Carazinho. No RSrsrsrsrs. Fico por uns dias. Vários, às vezes. Na volta pra Curitiba, minha cidade atual, eu faço um rancho. Levo ovos de galinhas livres, queijo de vacas felizes, mel só de abelhas mesmo, vinho da colônia, tomate, rúcula, alface, alguns utensílios da casa que roubo, morango, milho e mandioca. Descascada, claro. 

Não que eu goste muito de mandioca. Mas fico pensando que, se um dia eu não tiver nada pra comer, a mandioca vai me nutrir. Ela vai estar ali no meu freezer, congelada, com todas as suas propriedades preservadas.

Esses dias aconteceu isso. Eu tirei a mandioca descascada e congelada do freezer. Fiz um purê de mandioca. E joguei um molho por cima. Ficou bom até. Mas fiz demais e fiquei comendo isso por uma semana. Ou duas. Porque não dá jogar comida fora né.

Enquanto eu comia mandioca, conversava com a minha solidão. Analisando a minha vida. Eu trabalho de casa, durmo em casa, tomo banho em casa, faço todas as refeições em casa. Inclusive, moro em casa. Tá, sim, às vezes eu tenho alguns afazeres fora de casa.

Fato é que estou tão acostumada com a minha presença que, em tempos de quarentena, me dei conta que a minha vida é uma quarentena. E eu quase não me incomodo mais. Na crise do Coronavírus diz que o melhor a se fazer é ficar em casa. Isolamento social. E vejo pessoas desesperadas por passar uns dias em casa (ou meses, vai saber). Não sei se pelo fato de não ter nada pra fazer, ou pelo fato da solidão que nos acompanha, ou por medo mesmo (da pandemia, da economia, da escassez, etc.). Ou tudo junto.

Porém, fique você sabendo que o incômodo passa. É bem bom ter nada pra fazer e depois descansar. Depois de um tempo fica bem bom conversar sozinhx. A gente se acostuma. Escrever no diário. Arrumar uns exercícios. Ler uns livros. Dar um tempo do celular. Conversar com a sua família. Meditar. Séries. Festa online. Home office. Não ver o chefe. Pensar o que dá pra melhorar como ser humano. Como fazer pra não destruir o mundo tão rápido. Contar arroz. Contar moscas. Contar quantos copos de plástico você já usou na vida inteira. Inventar outras formas de ganhar dinheiro. Fazer memes. Ser um bom brasileiro e deixar o mundo mais divertido pela internet. Orar. Carpir uns lote (mentalmente). Colocar uma rede na sala. Assistir os vídeos e palestras gratuitos que estão disponibilizando por aí. Festa na sacada com os vizinhos. Recitar poemas. Etc. Olha quanta coisa.

Tudo vem pra gente aprender. E lembre que ficar em casa é privilégio nos tempos atuais. Quem tá sofrendo com tudo isso mesmo, provavelmente não tem essa condição.

Aproveita aí pra descascar umas mandioca e se conhecer melhor. Mas, se você é ruim que nem eu, faz um purê para uma semana. Se não tiver os ingredientes em casa, compra na mercadinho da esquina, pra ajudar os pequenos empreendedores e empreendedoras que estão sofrendo mais.

Faz uma oração também. Não compre coisas que você não precisa só pra estocar. Lembra dos amiguinhos humanos que você tem por aqui na Terra. Se você é véio ou véia pede pra um jovenzinho fazer as compras pra você. Aproveita esse momento só seu.

Fé na mandioca que tudo passa.

Obs.: a foto é da horta do seu Cavalo Véio.

Lua, Páscoa e Sonho.

Último dia do ano de 2019. 

Naquela tarde eu tinha feito um post no meu Instagram, com uma Kaiser na mão, em uma piscina de plástico, falando, entre outras coisas, para quem fosse ler aquilo, olhar mais pro céu em 2020. Afinal, a lua estava linda.

Mais depois, pra passar a virada do ano, eu e meu irmão fomos até a casa da mãe da minha tia, que não é a minha avó, mas que consideramos como se fosse. Muita família envolvida em pouco espaço de texto, eu sei. Sentamos na beirada da piscina. Em uma rodinha com as pessoas que já estavam lá. O chopp estava liberado desde cedo, claro. 

Devia ser umas 18h45. Eu posso muito bem estar inventando esse horário. Mas era aquele finalzinho de tarde, sabe? Tinha sol e chuva. Ou chuva e sol? E, naquela correria boa dos últimos preparativos, antes de todo mundo tomar banho e ficar lindeza para o ano que chega, olhamos para o céu. 

Olhamos para o céu e vimos um arco-íris DUPLO. D-U-P-L-O. Alguém aí já viu um arco-íris duplo? Um em cima, outro embaixo. Eu interpretei aquilo como 2020. Um presente do ano duplo chegando, sei lá. Sei que foi bonito. E, conforme foi anoitecendo e as nuvens dando espaço, a lua foi se destacando. 

Papo vai, papo vem, todo mundo pronto, a roda foi aumentando, o chopp fazendo efeito. Olhamos para o céu novamente. Nossa, como a lua tá linda. 

É crescente ou minguante? Alguém pergunta aleatoriamente.

Crescente. Eu acho que é minguante. Não, hoje eu tava escrevendo um texto e disse que era minguante, mas fui pesquisar e vi que era crescente. Ué Lina, pergunta pra Bruna, ela manja dessas coisas, tem até tatuagem. É crescente, porque tá crescendo. Não Thai, é minguante, porque tá minguando. Mas tem aquela coisa de quarto crescente, quarto minguante, não tem? Pesquisa aí no Google, Rafa. Daniel, tu que é agricultor, deveria saber. Então, tô falando, acho que é crescente. Faz sentido, tá tudo crescendo mesmo. Mas eu acho que é minguante. Achei! É crescente tio, tá escrito aqui. Não, mas essa é a anterior. Olha agora. Ah é, então é quarto crescente. Não, não, não! Crescente é a de agora. É crescente então? Sim, é crescente. Ah, então é crescente mesmo.

Para quem não sabe, a lua da virada do ano de 2019 para 2020 foi crescente. 

E essa discussão me fez perceber que eu sempre gostei muito da lua. Quando ela tá cheia, e não crescente nem minguante ou o quarto sei lá o que, dá pra ver o coelhinho da Páscoa. Vocês têm a mesma história que eu sobre o coelhinho da Páscoa? 

Na inocência da minha infância, minha mãe me contou que o coelhinho da Páscoa ficava na lua e só saia de lá para entregar os ovinhos de Páscoa. Na Páscoa, claro. O estranho era que o formato do coelhinho ficava lá até nos dias de Páscoa, quando a lua era cheia. Mas pra isso, minha mãe me falava que era um dublê. Porque não dava pra deixar a lua sozinha né? Então, toda vez que eu olhava pra lua eu via o coelhinho da Páscoa. 

Se vocês nunca observaram isso, tentem, por favor.

Bom, cresci achando que o coelhinho da Páscoa morava na lua. E toda Páscoa, eu, meu irmão e meus primos, que morávamos em uma chácara, em Londrina (já devo ter falado disso por aqui), passávamos o dia todo atrás das pegadas do coelhinho da Páscoa. Não das pegadas de farinha. Pegadas deixadas na terra, onde a gente imaginava que era pegada de coelhinho da Páscoa. Na verdade eram pegadas de cachorro, né. E dos pelos brancos. Que eram das galinhas. Mas NÃO CONTEM pras crianças. 

Acho que era uma das nossas noites/dias mais esperados. Mais que o Natal. Vivíamos para aquela virada de noite. A gente lutava o máximo que podia pra não dormir (no meu caso essa luta não era muito difícil, pois o sono sempre me venceu facilmente). Atentos a tudo. Sons, vultos, cheiros, etc. Tudo era o coelhinho da Páscoa. 

Nos reuníamos na casa de alguém e ficávamos entre dormir de cansaço ou ver o coelhinho da Páscoa. E minha mãe ficava esperando nosso sono vencer, para então fazer todo o processo: esconder os ovos, fazer as pegadas, deixar bilhetinhos, etc.

Em uma daquelas noites de Páscoa, eu que já não me achava assim mais tão criança, resolvi que VERIA o coelhinho da Páscoa. Estava determinada (desconfiada) a descobrir a verdade. Queria perguntar pra ele como era morar na lua. Então, à noite, quando minha mãe foi no quarto pra perguntar (ter certeza) se já estávamos dormindo, eu fingi que sim. Me julguem.

Fiquei esperando uns minutinhos na cama até que decidi levantar. Silenciosamente. Fui até a sala. Sem saber se estava fazendo certo. Vai que o coelhinho me sequestra? Fiquei esperando atrás do sofá por um tempo. Ouvi barulhos. Meu coração ia saltar pela boca. Fui erguendo a cabeça pra espiar mais, agitada, aos pouquinhos e… foi aí que eu vi. 

Minha mãe estava de costas pra mim, na cozinha ainda, quase chegando na sala (onde eu estava), terminando as pegadas de farinha. Fiquei chocada. Descobri que o coelhinho da Páscoa era, na verdade, minha mãe. Nada mais fazia sentido no mundo de Lina Fantasia Batista Bennemann. Ainda assim, fiquei quietinha, esperando ela finalizar as pegadas. Quando ela terminou e foi checar se estava tudo certo, fui descoberta também. De surpresa.

Lina, há quanto tempo você tá aí?!?!??

Eu, de pé atrás do sofá, não tinha mais resposta pra nada. Caminhei um pouco e sentei no sofá com as pernas em indiozinho. Absolutamente decepcionada com a vida. Olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé, olhei pra minha mãe, olhei pro meu pé. Não respondi nada. Ela, com muita calma e meio surpresa pelo ocorrido, sentou do meu lado. Pensou um pouco. E falou que o coelhinho tinha tirado férias. 

Sério mãe??? Eu sei que não é verdade.

De todo jeito ela tentou me fazer acreditar de novo. Mas que coisa, a gente vai perdendo a fantasia né. A partir daquele dia, eu não acreditava mais em coelhinho da Páscoa. E comecei a duvidar de outros contos.

Pra ter certeza, no outro dia, andando de mãos dadas com a minha mãe pela chácara, eu perguntei pra ela sobre a existência do Papai Noel. Querendo muito que a existência fosse confirmada mesmo. Claro, conhecendo a minha mãe, ela nunca teria me dito que não existe. Minha mãe sempre valorizou a fantasia. Porém, também não me mentiu. Ela me disse uma frase, que por vezes sai da minha memória racional, mas que nunca saiu do meu coração:

“Não é sobre existir ou não, é sobre acreditar. Se você acreditar com todas as suas forças, pode ser que exista. Se você acreditar com todo seu coração, pode ser que aconteça.” 

Na minha última sessão de terapia falamos sobre perspectivas. E quando falei “tenho um son…”. A palavra “sonho” me soou tão estranha, como se fosse errado falar que tenho sonhos. Fiquei pensando, se inventamos o sonho só pra sonhar. Fiquei pensando se eu tinha medo de sonhar, porque corro o risco de ficar apenas nisso. Será que o sonho existe? (Mãe?)

Ainda pensando sobre o assunto, à noite, olhando pro céu, por acaso (ou não), lembrei daquele dia que descobri a verdade sobre o coelhinho da Páscoa. E do que minha mãe me disse. Não era uma desculpa, não era um conselho, não era uma imposição ou uma história qualquer. Era uma verdade pra vida.

Certa vez li algum texto que dizia para olharmos pro céu quando nos sentirmos perdidos. O céu sempre tem uma resposta. Pelo visto, não foi à toa que eu citei isso no meu texto, no último dia de 2019.

Sim, agora acho que sei. Tenho pra mim que o sonho foi feito pra gente viver. O sonho não é pra sonhar. O sonho é pra realizar. O sonho é pra acreditar. Se existe sonho, existe um objetivo. Se existe sonho, existe um caminho. Sonho dá esperança, faz nossos dias valerem a pena e dão um sentido pra vida. Se você acreditar, o sonho acontece. Sonho foi feito pra viver.

Ontem subi no último andar do prédio, a famosa laje, pra ver a Lua, claro. É época de lua cheia. E, para meu alívio e alegria, consegui ver, nitidamente, que o coelhinho da Páscoa ainda mora lá.

Eu não sei escrever cartas de amor.

Alguém aí sabe? 

Eu adoro escrever cartas para as pessoas que eu gosto. Carta mesmo, aquela escrita a mão. Escrevo pro meu pai, meu irmão, minhas tias, tios e quem mais eu sentir no coraçãozinho que devo falar coisas bonitas. Ou só desabafar mesmo. 

Essas cartas têm segurança de retorno positivo. Essas cartas me alimentam de carinho. São cartas que têm muito coração, mas são cartas que estão na minha zona de conforto. 

Cartas de amor, aquelas que você precisa ir lá no fundo do seu coração, deixar o orgulho de lado, expressar em palavras sentimentos que você nem consegue explicar pra você mesmo, aquelas que quem sabe você não tenha um retorno à altura, essas cartas, inseguras, eu não sei. 

O problema das cartas de amor é que elas têm a ver com o amor. E cartas corajosas, de quem ama com liberdade, são difíceis para espécie humana.

Ou só pra mim?

Eu não sei escrever cartas de amor. Mas eu lembro da primeira carta de amor que recebi. Uma carta de amor genuína. Daquelas de coração não quebrado ainda. Aquelas cartas de amor de primeiro amor. E, como eu não sabia o que fazer com aquele tanto de amor, rasguei e joguei fora. 

É isso o que a gente faz com o amor de quem ama. Com o nosso próprio amor sentido? Quisera eu voltar no tempo e colar aquela carta. Colar aquele amor. E levar comigo pra todo canto. Pra lembrar daquele pedacinho de cuidado e coragem que alguém teve, um dia, de escrever uma carta de amor.

Quisera eu voltar no tempo em que a comunicação era por cartas (em partes). Dava tempo pra pensar no que ia escrever. Podia escrever milhares de vezes. Apagar. Rasgar. Jogar fora. E depois escrever outra. E outra. Até ficar pronta para envio. Colocar no pézinho da pomba pra ela entregar para o grande amor. Como ela sabia quem era?

Eu lembro de escrever muitas cartas para minhas amigas na minha adolescência. E de receber muitas cartas também. Não existia celular. E a gente tinha esse hábito bonito de escrever nossos sentimentos. Só para amigas. Cartas de amor eram uma barreira. São ainda.

Acho que uma carta de amor deveria ser o símbolo máximo do amor. Mas quem sabe essa seja minha versão romantizada de uma realidade que eu não aceito muito bem. A realidade da tecnologia usada de qualquer jeito. Quem sabe a gente possa achar um ponto de equilíbrio, entre cartas e Whatsapp?

Sei lá. Hoje em dia ninguém mais está disposto a se apaixonar. Ou admitir uma paixão. Que dirá escrever uma carta de amor. Eu entendo que os corações estejam em pedacinhos. Mas tem aquela sábia música, das chiquititas:

Se seu coração tem buraquinhos
Juntas poderemos ajudar
Nós vamos curá-lo com carinho
E com muito amor
(Com muito amor)
Ele vai sarar

Claro, elas estavam em um orfanato. E não vivendo um grande amor. Ou pequeno, que seja. Fato é: todo mundo já foi rejeitado na vida. E já rejeitou também. Logo, todos os corações têm buraquinhos (eu ri quando escrevi essa frase). Não adianta negar. 

Mas, quem sabe, ao longo da vida, a gente tenha perdido a delicadeza de olhar pra eles. A paciência de aceitá-los. E a vulnerabilidade de admiti-los. Porque, afinal de contas, dói muito né? Já dizia o sábio (ou velho) poeta: o amor é uma dor. 

Quem sabe a gente tenha levado isso muito a sério. Tão ao pé da letra que, ouso dizer, o medo da rejeição (de todos os tipos) é a maior trava da humanidade. Veja bem, rejeição tem tudo a ver com o nosso medo de amar. 

E aí a gente não aceita mais ter buraquinhos no nosso coração (eu ri de novo). A gente quer nosso coração inteiro. Preenchido. De silêncio (?). Shhhhh fica quietinho aí, coração. E queremos permanecer com ele assim, intacto. Mesmo que isso seja uma mentira. Sem se apaixonar. É a lei do desapego. Tempos de sexo sem compromisso. Etc.

Nada contra. Só acho que isso azedou a humanidade. Então, sim, algo contra. Eu nunca tive muito sucesso nesses tempos mesmo.

Quem sabe a gente precise reinventar o amor. E normalizar a rejeição. O amor não precisa ser uma dor. Pode ser leve. Pode ser breve. Pode ser correspondido. Ou não. Pode durar uma vida. Meia vida. Um verão.

Um carnaval. Um match. Um beijo. Um oi. Ou só uma carta.

Quem disse que precisa de tempo pra amar? Ou pra se apaixonar? Fique livre, se esses dois sentimentos, quiser diferenciar. De verdade, só escrevi isso pra rimar. Pra mim, ta tudo bem misturar.

Sou uma gênia da rima.

Eu só não sei escrever cartas de amor. Mas quem me dera eu tivesse a coragem.

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PS.: eu realmente gosto muito de escrever cartas. Então, se você quiser receber uma carta, deixa uma mensagem no Instagram comprei.uma.bicicleta (ou diretamente pra mim) com a frase “eu quero uma carta linaaaaaaa” que vou escrever com muito carinho, seja você quem for. Quem sabe ela não seja de amor? 😉

Depois a gente combina a entrega.