pagando a conta errada

Rescindi meu contrato
Antes do tempo
Mal sabia eu
O tanto de sofrimento

Senhora
Precisa pintar o apartamento
E quanto seria
Esse pagamento

Multiplica trezentos
Por duzentos
Soma mais quinhentos
E coloca mais mil e trocentos

Porém senhora
Não é só isso
Tem a luz 
E o condomínio

A taxa de vistoria
De assinatura
A leitura do gás
E ainda a multa

Enquanto isso senhora
Também cobramos todos os dias
As chaves que não estão
Em nossas mãos

Mas o que é isso
É extorsão (?)
Não senhora
Está na contratação

(...)

Pois é minha cara
É a lei da vida
Eu sigo pobre
E a imobiliária rica

Eu não sei.

Não sei mesmo. Mas eu tenho a impressão que minha vida inteira eu passei com aquela sensação de: “e agora?”. 

Fiz 15 anos, e agora? Terminei o ensino médio, e agora? Fiz 18 anos, e agora? Comecei a faculdade, e agora? Terminei a faculdade, e agora? Meu namorado me traiu, e agora? Comecei um novo emprego, e agora? Mudei de cidade, e agora? Terminei meu livro, e agora? Fui demitida, e agora? Não quero mais trabalhar com o que eu trabalho faz anos, e agora? Terminei meu namoro, e agora? Fiz 30 anos, e agora? Estou morando sozinha, e agora? Me aposentei, e agora? Pandemia, e agora?

Parece que precisamos ter resposta pra tudo. O quanto antes. O não sei, não serve. Não existe, como dizem por aí. Você precisa escolher. E quem sabe por isso a gente viva com tanta ansiedade hoje. Não fomos ensinados para nossos momentos “e agora”. Não fomos ensinados para termos incertezas. Ou para vivermos nelas. Não fomos ensinados a viver no agora.

Fomos treinados para termos certezas. Pensarmos no futuro. E remoermos o passado. É assim ó: aprende a caminhar, estuda, trabalha, casa, tem filhos, faz sucesso na carreira (seja lá o que isso signifique pra você), aposenta, se arrepende, morre. 

Tem até um momento da vida, ou vários desses momentos, em que nos damos conta que a vida passa muito rápido. Meu Deus, e agora? O que eu fiz? O que eu vou deixar para o mundo? Como as pessoas vão lembrar de mim? E agora?

Preciso viajar mais. Correr mais. Estudar mais. Trabalhar mais. Produzir mais. Vender mais. Crescer mais. Otimizar mais. Me informar mais. Consumir mais. AAAAAAAAAAAAAH, DEVIA TER FEITO ISSO ANTEEEEEEES! E agora?

Meu último momento “e agora” foi agora pouco. Antes de eu começar esse texto. No meio dessa pandemia toda louca da vida estava eu, de novo, a me perguntar, e agora, Lina? 

Acabei tomando uma decisão muito importante na minha vida dias atrás. Não de repente. Passei mais ou menos um ano pensando nisso. Precisou de uma pandemia pra eu decidir ir por esse caminho. Depois de 12 anos (+-) morando (pagando aluguel) em Curitiba, resolvi voltar pra cidade que eu morava antes, Carazinho, RS. 

Claro, fiquei alguns dias com a crise do “e agora”. E agora que vou voltar? E meus sonhos? O que eu vou fazer? Como vai ser? Até eu começar a perceber que, quem sabe, essa crise do “e agora” seja uma necessidade de controle sobre a vida. Num geral da coisa toda. Um controle imposto pelos nossos padrões de vida. Como fomos treinados.

Eu preciso saber pra onde eu vou, o que eu vou fazer, onde quero chegar, por que eu quero chegar, qual o sentido disso, e daquilo. Eu preciso escolher. Com a razão, claro. Precisa ser racional, né? Além de rápido. Como assim eu não sei o que quero da vida? Como assim eu não sei qual será o meu próximo passo?

Sabem, eu tinha um plano para 2020, assim como a maioria das pessoas, acredito eu. Mas também não conheço a maioria das pessoas, então pode ser que eu esteja me baseando em experiências anteriores pessoais das quais eu inventei. Já pensaram nisso?

Bom, sim, de fato é bom planejar. Eu vendo isso, literalmente. É bom termos perspectivas da vida, de onde isso ou aquilo podem nos levar. É bom saber o que queremos. E o que não queremos. É bom saber como alcançar os nossos sonhos. É bom ter sonhos. 

Mas, me dei conta, que nada disso significa ter o controle. E, pensando dessa forma, a vida parece ser bem mais simples. 

Ter sonhos, planos, saber o que queremos ou o que não queremos, não significa que não teremos nossos momentos “e agora”, que não teremos que mudar os planos, mesmo que a gente não tenha planos (e tá tudo bem). Não significa que não ficaremos indecisos por vários dias, meses, anos ou a vida inteira. Não significa que não possamos mudar, até mesmo, nossos sonhos.

Agora estamos vivendo um momento “e agora”. Um momento de pura incerteza no mundo inteiro. Aquele momento em que a gente nunca imagina viver. E que ninguém nunca pensou em nos ensinar. Se é que isso é possível de ensinar. 

Talvez por isso, e por sempre acharmos que precisamos ter resposta pra tudo, o tempo todo, o mais rápido possível, por acharmos que precisamos ter o controle (mesmo que esse sentimento seja invisível, ele está aí dentro), ou certezas, não estamos sabendo lidar com esse momento “e agora”. 

Um momento em que somos praticamente obrigados a mudar. Um momento em que precisamos repensar nossa rotina. Repensar nosso trabalho. Repensar nosso consumismo. Nossa educação. Nosso dinheirismo. Nossa alimentação. Nossa política. Um momento que precisamos pensar no próximo. 

Talvez isso seja, a humanidade em crise com ela mesma. Quem sabe, esse momento seja como se fosse um botão “resetar” da humanidade. Não estamos em crise econômica, política ou de saúde. Estamos em crise com nós mesmos. E aí, tudo desaba.

Quem sabe o que a gente precise mesmo agora é mais simples do que imaginamos. Quem sabe a gente só precise mesmo parar. 

Parar pra respirar. Parar pra se cuidar. Parar pra fazer nada. Pra cuidar de quem a gente ama. Pra gente analisar como pode melhorar. Pra gente dormir mais (ou menos). Pra gente observar o que podemos evoluir no trabalho que temos. Ou como achar um novo. Pra gente conhecer melhor as pessoas que moram com a gente. Pra gente aprender a ser gente de novo. Pra gente aprender a questionar. Pra gente aprender a viver o agora. Pra gente aprender que a vida é mesmo incerta. E que a certeza, muito provavelmente, nem exista. Não saber o que se quer, ou o que vai acontecer, tá tudo bem.

Quem sabe, no sentido bem poético dessa loucura, essa pandemia seja o mundo nos dando uma oportunidade de revermos tudo o que estamos fazendo de ruim. Para nós mesmos.

Quem sabe, seja uma oportunidade de, finalmente, aprendermos a viver um dia de cada vez. O dia de hoje. O momento de agora. 

Quem sabe, seja um belo tapa na cara pra gente aprender a valorizar o que tem. Não as coisas. Você sabe, né? A liberdade. O ar. O corpo. As pessoas. A natureza. A vida.

Quem sabe eu tenha vivido uma vida inteira de 32 anos de incertezas. Achando que eu tinha o controle (certeza) sobre alguma coisa. Porém, mal sabia eu que o controle a gente só tem da TV. E olhe lá.

E agora, quem sabe você também esteja num momento “e agora?”. Se perguntando, entre outras mil dúvidas, se deve deixar a vida te levar. Quem sabe sim. Quem sabe não. Quem sabe?

Eu, sinceramente, não sei. 

E, neste momento, estou feliz em saber disso.

Só uma filha em crise.

Teve uma época que eu achei que meu pai ia me vender na feira. Literalmente. Eu ficava esperando o dia que esse acontecimento se tornaria realidade. Pra qual família eu iria será? 

Lembro de ficar atrás da porta do quarto dos meus pais ouvindo o que eles estavam tramando pra mim. Sorte a minha que nunca ouvi nada esquisito, além de conversas aleatórias sobre a vida (kkk). 

Bom, quando eu era criança por vezes eu acompanhava meu pai na feira. Na feira da Lua, em Londrina. Quase sempre depois da aula. Como eu e meu irmão (e meus primos) estudávamos à tarde, às vezes ele buscava a gente de fusca e íamos pra feira direto. Vender morango (e comer pastel, claro). Entre outras verduras e legumes que meu pai plantava. Mas eu lembro bem do Morango. “Morangos Bennemann”. Era isso? A gente tinha até adesivo.

Eu não lembro muito bem o porquê de eu ter pensando que eles iriam me vender, mas com certeza veio de alguma piadinha que meu pai fez. Meu pai é muito conhecido pelas suas piadas não tão engraçadas, mas que de tão não engraçadas, são engraçadas. Sabe? Meu pai também é conhecido pelas suas doces palavras. Tão doces que o apelido dele é Cavalo Véio. Vocês podem imaginar o quão “docinho” ele é. 

Naquela época ele deve ter me falado algo do tipo: “Lina, fica quietinha aí se não eu vou te vender junto com os morangos”. E aí eu fiquei esperando esse dia chegar. Porque certamente eu não devo ter ficado quieta. E também porque sou meio anta e acredito em tudo (praticamente tudo) o que me falam.

Graças a Deus esse dia nunca chegou. E até hoje tenho contato com a minha família.

Dia desses, depois de grande (de idade), eu entrei em crise com meu pai. Outra, entre tantas outras no decorrer da vida. Meu pai nunca foi lá uma dessas pessoas que fala muito. Até hoje quando eu pergunto alguma coisa pra ele, se ele não tá muito a fim, finge que não ouve e sai do ambiente no qual estou. E eu fico lá, esperando uma resposta que nunca vai chegar. 

Hoje em dia já não ligo muito. Deve ser o jeito que ele escolheu de não se estressar. Vai saber. Se eu perguntar porque ele faz isso, certamente seria uma outra pergunta sem resposta. 

Depois que minha mãe faleceu meu pai mudou bastante. Começou a estar bem mais presente na minha vida (e na do meu irmão, mas acho que não posso falar por ele). 

Como eu moro distante (eu em Curitiba, eles em Carazinho – RS), quando estou lá é ele quem faz almoço, janta, café. É o jeito que ele achou de demonstrar amor pela gente. Mas meu pai não mudou tanto a ponto de responder minhas perguntas. Que são infinitas, admito.

E em uma das minhas ligações pra ele, eu questionei porque ele não me ligava mais vezes. Sou sempre eu. Por que ele não se importava com o que eu estava fazendo? Ele nem sabe o que eu faço da vida. Alô pai, eu to sofrendo. Por que você não vem me visitar? Você não se importa com nada na minha vida. Blá, blá, blá e etc. 

Depois de ele não responder nenhuma das minhas perguntas, claro, e dizer “ok, semana que vem te ligo”, desliguei o telefone e comecei a chorar. Na rua. Eu sou dessas, choro na rua. Onde tiver que chorar eu choro. Mentira, às vezes eu espero chegar em casa. 

Outro dia, conversando com uma amiga, chegamos ao assunto “pai”. E percebi que praticamente os mesmos problemas de relacionamento que eu tenho com meu pai, ela também tem com o dela. Lembrei de outras amigas que já conversei sobre o assunto. E amigos. Pelo jeito, relacionamentos com pais são confusos mesmo. Relacionamento no geral é confuso. E, se não há comunicação, como é o meu caso com meu pai, pode ficar pior.

Mas aí, em uma outra conversa, com meu primo emprestado, também percebi que nossos pais fizeram e fazem o melhor que eles podem. Assim como a gente como filhas e filhos.

E depois, pensando bem, relembrei (de novo, como percebi em outras crises) a mágica do meu relacionamento com meu pai. Como é bom, na maioria das vezes, ele nem querer saber muito da minha vida. E só se importar se eu estou bem. Como é bom, sentar na grama no finalzinho do dia, ou depois do almoço, e ficar em silêncio do lado dele. Tomando uma cervejinha (Kaiser na maioria das vezes). Rindo de coisas aleatórias. Como é bom ter um pai agricultor que planta as melhores saladas que eu já comi na minha vida. Como é bom que ele não me faça tantas perguntas, assim como eu faço pra ele. Como é bom ter um pai como o meu pai. Como é bom, no final de toda ligação, que normalmente dura em torno de 1 minuto e meio, ouvir do outro lado da linha um “eu te amo”.

A gente vive falando que precisa ouvir mais. Mas acho que o ouvir mais, não quer dizer literalmente ouvir. Mas sim perceber. Sentir. E se esforçar, como filha, como filho, como amigo, amiga, irmã, irmão, pai, mãe, parceiro ou parceira, com as pessoas que a gente gosta.

Todo mundo tem lá seus defeitos e relacionamento nem sempre (nunca) é fácil. Mas a gente sempre deve lembrar que a felicidade está na qualidade dos nossos relacionamentos também. E ele é feito de mais pessoas. Não só de uma. Qualquer relacionamento se constrói com reciprocidade, respeito, cuidado e, principalmente, amor.

Dia desses fui reclamar do barulho que meu vizinho estava fazendo no andar de cima. E no final eu mesma falei uma frase e fiquei pensando na boniteza dela: “ tá bom, a gente vai se acertando”. 

Sim, a gente vai se acertando. A vida vai se acertando.

Afinal de contas, meu pai nunca me venderia numa feira. 

Eu acho.

Agora, amigo, eu tô em outra.

Quando a gente é jovem a gente é meio burro. E estou falando de mim. Já que não posso falar pelos outros. 

Qualquer semelhança é mera (rea…) coincidência.

Eu achava que precisava ficar onde não queria, com quem eu não queria. Me metia em situações e problemas alheios que em nada me pertenciam (faço isso até hoje). Deixava minhas decisões serem guiadas pelo tanto de dinheiro/”experiência” que eu ia ganhar. Acreditava na crença dos outros. Tentava provar a todo custo que eu era boa, que eu era melhor, que eu estava certa. 

Mesmo que isso significasse danos a minha saúde mental. E, consequentemente, física.

Aos 20 anos fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade. Uma coisa que carrego comigo desde muito pequenina (de idade). E que piorou na tolice da minha juventude. 

Um dos principais motivos foi o trabalho. Eu trabalhava em agência de publicidade. Comecei como estagiária e terminei definhada. Em dois anos e meio, deixei me tirarem tudo o que eu tinha: minha crença na minha inteligência, minha confiança, meu amor próprio, minha alegria de viver, meu sono, minha dedicação aos estudos. 

Eu vivia só pra trabalhar e ouvir que aquilo ainda não era suficiente. Que eu deveria isso, que eu deveria aquilo. Além de todos os insultos, assédios, desmoralização, machismo³. Que, por sinal e infelizmente, não era só comigo. E também não era só realidade daquela agência específica, mas da grande maioria delas – e tenho certeza que de outras empresas também. Gritos, choros, xingamentos, caos, 12, 15, 24 horas de trabalho (e não estou exagerando. Estou até ocultando detalhes).

Vocês que me leem neste momento podem até estar pensando que aguentei (aguentamos) tudo isso pelo dinheiro que eu ganhava. 

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Merece uma linha inteira de risos, daquele que eu considero o mais irônico. Inclusive eu, como muitos de meus colegas, praticamente pagava para trabalhar.

Esse não foi o meu primeiro emprego. Mas foi a minha primeira e maior decepção com a publicidade. Saí de lá com a seguinte frase, dita em lágrimas pelo meu chefe: “Não sei como você aguentou até agora. Não sei como você aguentou tudo isso. Desculpe.” 

Como eu falei lá em cima, mesmo que dependesse da minha saúde mental, eu precisava provar que eu conseguia. Consegui gente. Consegui ficar miserável. 

Mas não desisti da publicidade, porque não era dela que eu não gostava.

Depois de muita terapia, remédio antidepressivo, floral, homeopatia, coaching, meditação, retiros espirituais, terapia (já falei terapia?), consegui também ser grata (de verdade). 

Sorte a minha que vivi isso bem cedo. Que pude presenciar o pior da publicidade, para poder fazer o melhor dela. Que pude presenciar o pior que existe em formas de trabalho, para poder ficar atenta e escolher a dedo o que quero fazer, onde quero estar e com quem quero trabalhar. 

Isso vale para todas as esferas da minha vida. Profissional e pessoal. Já que, na minha opinião, isso nem pode ser separado. 

Não significa, de forma alguma, que faço só o que gosto, que não entro em conflitos, que não tenho problemas no trabalho, que não tenho frustrações, que não tento me provar. Isso seria impossível. 

Mas aprendi e estou aprendendo (não sozinha, claro) a observar até onde posso ir. Até onde aquilo (trabalho, situação, relacionamento – esse último eu sou bem ruim ainda) me deixa estar bem comigo.

Aprendi, principalmente, a dar atenção a minha saúde mental e física. E hoje o que me guia para as minhas decisões é meu grau de qualidade de vida. Que bonito né? Sim. Fácil? Não.

Fato é que aprendi tanto com isso a ponto de o meu terapeuta me questionar sobre um case de sucesso que eu tive na minha vida e eu ter a ousadia de responder: eu mesma.

Hoje minha ansiedade conseguiu se tornar uma companhia agradável, até. É o que me faz ter aquela certa pressa. Em viver, claro. Bem e na calmaria (contrapondo a ansiedade), onde mais gosto de estar, onde minha criatividade fica enlouquecida de feliz. 

Eu ia finalizar dizendo que deixo o trauma descrito nessa história aqui, em 2019. Mas 365 dias são muitos dias pra deixar um trauma. Então eu deixo lá atrás, onde já deveria ter ficado há muito tempo.

Que mais pessoas possam enxergar as infinitas possibilidades que temos nas nossas vidas. E que, se por um acaso, você que me lê, trabalha ou é dono ou dona de agência, possa se libertar desse passado escroto da publicidade (se ainda não se libertou).

2020 tá aí gente. Não vivamos como em uma série americana dos anos 60, que tem no Netflix.

Como já diria Mallu Magalhães:

“Pode falar que eu não ligo / Agora, amigo, eu tô em outra / Eu tô ficando velha / Eu tô ficando louca.

Pode avisar que eu num vou, ô ô ô / Eu tô na estrada / Eu nunca sei da hora / Eu nunca sei de nada

Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho / Que hoje eu passei batom vermelho.

E é a prova d’água.