milagres da simplicidade

E aí como tá a vida na correria? (Sem vírgula mesmo. Não dá tempo.)

E passa meu amigo na rua, correndo, sem ao menos ouvir minha resposta.

Na verdade meu amigo, não estou na correria. Mas confesso que  muitas vezes me senti culpada por não estar.

Deve ter alguma coisa errada. Deve ser eu que sou uma sem nada pra fazer mesmo. Eu não devo estar produzindo o suficiente. Gente, preciso entrar nessa correria aí, devo estar perdendo alguma coisa, já que todo mundo tá, menos eu. Será que eu tô na correria e não sei? Ai.

Passa dia, entra dia e lá está, a correria.

Trânsito. Trabalho. Áudio no Whatsapp. 2 minutos e 47 segundos. Será que essa pessoa não sabe que eu tenho mais coisa pra fazer da vida? Trabalho. Casa. Família. Celular. Amigos. Digitais. Solidão. Ansiedade. Preciso ler. Stories. Preciso fazer exercícios. Netflix. Reunião. 

Depressão. 

E-mail. Como fazer sua empresa crescer 150x mais em 2 dias. Como a Joana já tem um milhão de reais aos 25 anos e você aí sentado sem fazer nada. Siga estes 5 passos e seja mais feliz. 15 dicas para você ser mais produtivo no dia e nunca mais descansar. 

Então, tudo se tornou uma grande correria? 

Haja tênis.

Dia desses fui convidada para participar da “Semana Inspire” de Marketing da Tamo Junto, lá em Maceió – AL. Fui lá falar um pouco sobre “Marketing de Essência: como trabalhar com propósito e consciência”.

Todo o trabalho aconteceu em São Miguel dos Milagres, cidade perto de Maceió. O nome já diz tudo. Água transparente, sorrisos para te receber, pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinha, beira do mar (parafraseando Diogo Nogueira). 

Lá, quando alguém te pergunta como tá a vida, a gente senta e conversa. 

Milagres.

Em um daqueles dias que estive lá, coloquei minha janta pra esquentar no fogão e saí tomar um ar. Ar puro de natureza. Quando olhei, a lua estava nascendo, amarela, gigante. No mar, entre os coqueiros. Fiquei alguns minutos ali paralisada, de boca aberta (mesmo) por toda aquela beleza. 

Obviamente, minha janta queimou.

Que loucura, pensei. Meu pai sempre falou que as coisas boas são simples. Mas como demora pra gente perceber o que são as coisas simples e porque elas são boas. 

Demora porque a gente não consegue mais observar. Perdemos a sintonia. A sincronia. Estamos na correria.

Tive a oportunidade (e a honra) de ir olhar a lua mais de perto. Na beira do mar. Na famosa Capela dos Milagres. 

Percebi a tempos atrás o quanto o barulho do vento das árvores me encanta. E continua me encantando. É absurdamente gostoso sentir a liberdade, uma breve liberdade, com os cabelos voando para todos os lados, e escutar o som suave, leve, sussurrando no ouvido, contando segredos da vida que você precisa estar atento para ouvir. Levando embora tudo o que precisa ir. O som do vento. Olhei ao meu redor e: vagalumes! 

Milagres.

Fomos jantar tapioca na Elisângela. Em uma praça. Movimentada, mas ao mesmo tempo tão quieta. Conversas. Sorrisos. Mas não qualquer sorriso. Sorriso de gente que carrega singular e unicamente, a leveza da simplicidade. Aquela, na qual meu pai falou que estão as coisas boas.

No outro dia (ou foi um dia antes?) me levaram para passear nas piscinas naturais. Me levaram para passear. Me levaram. Para. Passear. Quando foi a última vez na vida que me levaram para passear? 

E como me levaram para passear, me permiti voltar. Fui criança. (Ou nunca deixei de ser?)

Tirei meu chinelo e saí correndo na areia. Pulei na areia. Quentinha do sol. Mas não quente a ponto de queimar. Morninha. Como a água do mar. Fomos para as piscinas naturais de barco. E aquele dia o céu estava azulzinho, sem nuvem. Já o mar, estava todos os tons de azul e verde. Mas, na verdade, era transparente. 

E de novo eu me permiti. Mergulhei no mar transparente. E transpareceu a vida.

Lembrei de um pedido que fiz dias atrás, antes de eu ir para Milagres. Um amigo  me presenteou, em um dia cinzento de Curitiba, com uma daquelas florzinhas brancas que parecem um pompom (descobri nesse momento que se chama Dente-de-Leão) e diz a lenda que você precisa fazer um pedido quando assopra. 

Fui pra casa a pé, descobrindo novas rotas como sempre gosto de fazer, enquanto eu pensava no meu pedido. Uma pequena parte já tinha ido com o vento, quando parei em uma rua, normal para muitos, mas linda para mim. E o pedido veio, como um estalo, uma descoberta:

“Que eu consiga cada dia mais enxergar beleza e sentir alegria na simplicidade e nas pequenas coisas”.

Voltei do mergulho. Voltei pra Curitiba. E a vida continuou. Ridiculamente simples. E ridiculamente gostosa de viver. Sem correria, mas com muito trabalho, muita coisa pra fazer. Algumas pra resolver, algumas pra só esquecer. Bons amigos pra ver e, principalmente, muita vida pra viver.

Acho que no fundo eu sempre entendi o que meu pai me diz há tantos anos.

Hoje, só desejo que a nossa correria se transforme em passos lentos e proveitosos. Que a árvore perto da sua casa seja tão linda como a que estou vendo aqui da minha janela. Que você consiga ouvir a música no meio do trânsito enlouquecedor. Que você perceba o quanto são magníficas as luzes da cidade à noite. Que a sua grama seja tão verde quanto qualquer outra. Que você tenha bons momentos de puro silêncio e de nada pra fazer. Que o seu primeiro bom dia seja pra você mesmo ou pra quem estiver do seu lado. E não para o seu celular. 

Que você consiga enxergar o quão belo é poder ter a família que tem. Os amigos que escolheu. E que perceba que pode conversar verdadeiramente com eles. (Já imaginou?). Que a gente consiga admirar o pôr do sol, muitas e infinitas vezes. Que você consiga desligar seu celular por horas. E se ficar ansioso, que perceba o quanto é bom respirar, profundamente. 

Que você sinta a sintonia. Que esteja em sincronia. Que a gente esteja aqui. Que a gente esteja agora.

Que você consiga, que a gente consiga, sentir alegria em todas essas pequenas coisas. Que a nossa única urgência no dia, todos os dias, seja a de viver.

E que, da próxima vez que alguém te perguntar como anda a vida, você possa ter uma conversa estilo Milagres

Olhos Azuis Transparentes

Calor em Porto Alegre. Céu azul. Mais de 30 graus com certeza. Era manhã de um dia de dezembro, um pouco antes do Natal. Dia 17 ou 18, quem sabe. Eu tenho na memória que era uma terça-feira. O ano era 2017, disso não tenho como esquecer.

Naquela noite eu tinha dormido na casa do meu tio, irmão da minha mãe, e da mulher dele, minha tia emprestada, como dizem. Acordei com meus olhos inchados querendo fechar mais alguns minutos. Ou mais algumas horas. Tomei o café da manhã que meu estômago suportou. Escovei meus dentes. Esqueci de passar protetor solar no rosto. Ou não quis. Peguei minha malinha que tinha algumas coisinhas extras para o dia. Desci e entrei no carro do meu tio, no banco de trás. Ele foi dirigindo, com a minha tia ao lado.

Com aquele calor, minha roupa era shorts jeans, blusa regata e chinelo. Meu cabelo, cacheado e acostumado a não ser penteado, estava pronto para ser preso em um rabicó. Fica mais prático no dia a dia. 

Cheguei um pouco assustada, chorosa e, sem perceber naquela hora, extremamente cansada. Já estávamos há alguns dias nesse vai e vem do hospital. Oito dias contados. Dormindo um dia sim, um dia não, com a minha mãe. A gente se revezava: eu, meu pai, meu irmão e, às vezes, tios e tias.

Não costumamos perceber. A gente acha que é só o trabalho que cansa. Mas o emocional cansa muito mais. Cansa mais do que subir 1.500 degraus de escada. Mais do que 14 horas de trabalho contínuo. Mais do que conversar com uma pessoa chata. Mais do que esperar. Mais do que a discussão entre biscoito e bolacha. Esquerda e direita. O emocional às vezes esgota.

Estávamos no hospital Divina Providência, que eu sempre falava Previdência (ou só pensava?). Aliás, que nome esquisito para um hospital. Eu sempre achei, todos aqueles dias e ainda não sei direito o porquê. Quem sabe era aquele verde claro das paredes. Ou o cheiro que impregna e dias depois, nem sentimos mais. Nos acostumamos.

O hospital ficava no alto de um morro. Tinha muita área verde e alguns locais bem quietos, silenciosos. Reservados para quem queria agradecer, pedir, acender uma vela ou simplesmente fugir um pouco da dor. O local do hospital era longe. Mas ficou perto em poucos dias. Em algumas noites ouviámos tiroteios. No alto, um pouco mais acima do hospital, tinha uma igreja, com uma vista muito bonita. Subimos lá uma ou duas vezes para ver o pôr do sol. Ou para pedir um milagre.

Desci do carro com a boca amarga. Dei meu RG para o segurança do hospital e falei o nome da paciente. Subi o elevador e andei, meio ansiosa, meio me arrastando, até o quarto no qual minha mãe estava. Aquele corredor era um tanto quanto desafiador pra mim. Meio escuro, com o cheiro característico. Enfermeiros pra lá e pra cá. Era o corredor, que me fazia mais medo. Quem sabe porque era ele que precedia aquele quarto. O qual minha mãe dividia com outra paciente. Quem sabe porque era nele que minha saliva era engolida com mais dificuldade pela minha garganta.

Naquela noite, meu pai tinha ficado com ela. Quando cheguei o quarto estava um pouco cheio, minhas tias tinham ido visitá-la. Meu irmão estava lá também. Onde ele estava, que não estava comigo?

Olhei para o meu pai que, no olhar, há tempos, não sabia o que dizer. Olhos castanhos cor de mel, meio esverdeados. Quanto afeto eu sentia quando o olhava naqueles dias. Dava vontade de pôr no colo e cuidar.

Olhei para o meu irmão. Puxou mais o meu pai, cor de mel. Meu irmão é a pessoa mais legal e confiável que eu conheço. Tanto, que às vezes eu não gosto de apresentá-lo aos meus amigos, porque ele é muito mais legal do que eu.

O clima no quarto não era dos melhores. Minha mãe não estava bem aquele dia. O câncer já tinha avançado para o coração fazia tempo. E a deixado frágil demais. Magra demais. Até hoje eu não sei direito o tipo de câncer que era. Era raro e eu não queria saber o tipo. Só queria saber da cura. 

O esforço era enorme, mas ela não conseguia comer. Olhei nos olhos dela e, a primeira coisa que falei naquele dia, foi: mãe, por favor, se você não comer pode ser que você vá para a CTI. Obviamente falei sem pensar, tentando fazer com que ela comesse. Implorando para que desse certo. Para que aquela dor fosse embora logo. Para que ela ganhasse peso. E o intestino, que não funcionava já havia 10 dias, voltasse a dar sinal de vida.

Quando a enfermeira, que usava um uniforme azul clarinho, entrou para tirar os sinais vitais da minha mãe, como de rotina, ela tinha uma cara preocupada. Mesmo com a voz calma, suave, de quem não quer passar desespero, eu podia perceber a preocupação.

Dez ou quinze minutos depois minha mãe estava sendo levada, com urgência, para fazer exames. Ultrassonografia ou seja lá o que for. Só podia ir uma pessoa para acompanhar.

Fui eu.

Caos. Nos meus pensamentos.

Tinha água no pulmão. Tinha um monte de coisa errada, eu sentia. Minha mãe, de fato, precisaria ir para a CTI mais tarde. E eu tinha falado CTI justo naquele dia. Que idiota, pensei. Não aguentei esperar e sai correndo. Eu não consegui aguentar. Chamei minha prima. Vem logo, por favor.

Culpa, tristeza, desespero. Cinco minutos do mais puro e genuíno desespero. Quando você pensa no pior dos piores cenários e não abre possibilidade nenhuma para a esperança. Quando você, por aqueles minutos, ou muitas vezes, segundos, acha que está sozinha no mundo. No escuro desconhecido. Nada pode salvar. 

O que eu vou fazer sem minha mãe? Perguntava aos prantos para minha prima, que nenhuma resposta tinha pra isso. Nesse dia descobri, o que era ficar, completamente, sem chão. Um dos poucos dias (ou único) que usei o corredor do hospital para desabar.

Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Não chora. Calma. Lágrimas e mais lágrimas nos abraços apertados da minha família. Que bom ter a minha família.

Entrei no quarto, minha mãe já estava de volta. Ela era a única que tinha calma no olhar. Olhos azuis. Meu Deus como eram azuis. Azul clarinho, que às vezes ficava verde. 

Mas, naquele momento estava azul transparente. Transparente. Dava pra ver tudo. 

Foram segundos. 

Olhei nos olhos dela, com o rosto vermelho de choro, e falei, para explicar a cor do meu rosto e de uma certa forma suplicando ajuda para, ironicamente, a única pessoa que podia me consolar naquele momento: fiquei assustada, mãe. 

Ela, com toda a calma do mundo, me olhou, fundo nos olhos. Fez o carinho mais sutil que poderia ter feito no meu rosto, e disse: minha garotinha, não precisa ficar com medo.

Minha garotinha (…).

Tudo parou.

Naquele momento específico nada fazia muito sentido. Depois, pude compreender a sorte que tive. Aquele momento foi de sincronia. Um dos poucos e mais fortes momentos que tive com a minha mãe. Que bom que procurei ajuda naqueles olhos azuis.

Pude ver nossa vida inteira juntas, o amor incondicional, a calmaria, a alma. Naqueles olhos azuis transparentes, paz.

Minha mãe estava indo.

Filha da Floresta

A Amazônia foi um sonho, que eu nem sabia que era um sonho.

Cheguei em Manaus no dia 14 de junho, à tardinha. No pôr do sol. Quando desci do avião uma alegria imensa me invadiu. Um dos motivos foi que, de fato, eu desci do avião e sempre fico feliz por isso (aliás, obrigada Amanda por ter pedido pra eu sentar do seu lado. O céu inteiro pareceu muito mais tranquilo. Assim como a vida com você :)). 

Outro motivo era que eu estava, afinal, na imponente Amazônia. 

Microssegundos de pausa. 

E foi amor. Descobri um sonho. Mais um presente  do meu anjo do céu.

Fui para Presidente Figueiredo. Fiz trilhas, conheci 5 cachoeiras e a Lagoa Azul. Caminhei de pé no chão, na lama. Não sabia se olhava para onde eu estava pisando, ou para a copa das árvores. Fiz um poema (tosco, claro). Nadei pelada. De novo. Sem perceber, em cada mergulho, deixei sentimentos que não me pertenciam mais. Ri muito. Ri tanto que chegou a doer. Senti, enfim, felicidade. 

FomoS para Presidente Figueiredo. Eu, que me considerava a rainha da independência, a musa das viagens solitárias, a princesa dos jantares with myselef, (re) descobri o quanto é bom estar rodeada de gente. Do bem. Rodeada de autenticidade. De gente que ri à toa, que senta no meio da rua pra tirar foto, de gente que consegue ser gente. De amigos. De gente que vive a vida do jeito que é. Que é o que é. 

E foi amor pela segunda vez.

Foi tanta aventura que fiquei doente na Amazônia. Chorei. De tristeza. De dor. De saudade. Uma imensa saudade. 

Que sorte a minha. 

Tive amigos pra me cuidar. E pra me falarem o quanto eu fico chata doente (#verdadesdepaulinha). Fui acolhida, alimentada, cuidada, amada. Feliz, não pelo fato de ter ficado doente (óbvio), mas por ter gente tão legal do meu lado.

Comi muita tapioca de tucumã com queijo coalho. Queria cachaça de Jambu todos os dias. Mas, que ironia, só bebi no último dia.

Vi botos (e são feios, perdão), naveguei o Rio Negro (se é que se pode falar “naveguei um rio”). Remei nas águas do Rio Negro na lua cheia. Vi a lua nascer. E parecia o sol.

Fui para uma comunidade ribeirinha (alô Tumbira), para o encontro nacional do Global Shapers Brasil. Conheci a Dona Vera, que por uma feliz coincidência tem o mesmo nome da minha mãe.

No parquinho da comunidade, sentada em um balanço, conheci a Vitória, de 12 anos (ou algo assim). Tive uma conversa muito séria com a Vitória, que me contou segredos da vida dela. Contou da saudade que ela sentia da irmã, que mora longe. E me pediu conselhos amorosos. Conselhos para esquecer alguém. Quem sou eu, Vitória, para dar conselhos? Eu disse que não sabia muito sobre como, mas que o tempo (ah o tempo) ele sim, sabe.

Vi um meteoro (pareceu ser). Fiz um pedido. 

Fiz uma meditação no meio do rio, no meio da mata, à noite. FizemoS. No silêncio, quanto barulho. Quanta vida. Quanta imponência. Senti tranquilidade.

Vi o nascer do sol. Dormi em rede. Vi uma estrela cadente. Fiz outro pedido. Agradeci. Passei calor, muito calor. Muito calor. Suei toda a minha ansiedade. Senti a tal da paz que fazia tempo que não me encontrava. Ou eu que a perdi? Acordei com passarinhos (amazônicos). Não tinha sinal. Mas tinha muitos sinais. Esqueci que tinha redes sociais. Esqueci do celular. 

Esqueci.

Lembrei.

Lembrei que pisar na grama é tão fácil. Olhar pro céu não custa nada (ainda). Lembrei o quanto é importante a conexão. A real conexão. Com pessoas, sem aquele aparelho em cima da mesa. Lembrei que eu também erro. E que bom. Lembrei da natureza. Que cura. Que cuida. A (mãe) natureza. Estava ali, do meu lado. Está aqui, em mim. 

Às vezes a gente precisa ficar cego para enxergar. 

Presenciei o encontro das águas, vi o pôr do sol no Rio Negro. Ah, o Rio Negro! É mágico (mesmo). Como a cor da água muda na sua superfície no pôr do sol. Assim como o céu. E como tem beleza. Como é encantador. Como a profundidade daquelas águas, uma hora, mexe com a profundidade das nossas próprias águas.

Eu vivi a Amazônia. Do jeito mais especial que poderia ter sido. E com as pessoas mais especiais que eu poderia ter (re) conhecido.

Descobri que pertenço àquele lugar. Assim como vários outros. Descobri que realizei um sonho, que nem sabia que tinha. E foi amor pela terceira vez.

No final das contas, mãe, é tudo para te encontrar de novo. 

Muito obrigada, meu anjo do céu, por mais esse presente. 

Quando forem comprar ração.

Era um daqueles dias que fazia muito calor em Curitiba, muito calor mesmo. A gente tava de roupa de verão à noite. Faz tempo, mas tenho memória boa. Logo depois de adotarmos o Sushi.

Depois de um dia de muito trabalho, na agência doidona (a gente fica doidona também porque trabalha muitão). E depois de Amanda sair do trabalho dela, da agência doidona dela, a Nossa Causa, fomos comprar alguma coisa pro Sushi que, no caso, era a ração dele. Só a ração.

A Amanda tinha cabelo loiro naquela época. Ela vivia trocando a cor do cabelo, bem doidona (to com essa palavra na cabeça hoje: doidona. Porque aquele dia me lembra isso). Euzinha aqui acho que tava igual hoje, só que com menos linhas de expressão, vamos chamar assim.

A cor do meu sapato era cinza. Mentira, isso de fato eu não lembro.

Fomos lá no Angeloni das Mercês (esses dias descobri que não é das Mercês), onde tinha o lugar que a gente compra a ração do Sushi de 5kg (eu acho, ou tô inventando, mas isso não importa) e é mais barata do que em outros lugares. No pet shop do Angeloni. Assim chamamos.

Antes de a gente entrar no pet, a gente tomou um suco e comeu um crepe. Fato importante já que o intuito de ir lá no Angeloni era comprar apenas uma ração.

Entramos no pet shop e perguntamos pela ração. Até aí tudo bem, a gente só tinha comido um crepe e tomado um suco e estávamos prestes a pagar a ração do Sushi. Mas aí olhamos pro lado, pro outro lado, pra frente, pra trás e o fato era que tinha muita coisa legal.

Claro, coisas que precisávamos, tipo uma bolinha de brinquedo com maconha de gato (catnip?), realmente muito necessária. A qual o nosso querido Sushi destruiu em 5 minutos, by the way.

Saímos do pet shop com: bolinha de maconha de gato, arranhador para gato (que o Sushi nunca usou em toda a sua existência e que tempos depois o enteado da amiga Fê, destruiu. Um menino muito desastroso o Benja, mas um docinho de criança). Continuando a lista: um ratinho de pelúcia (dois na verdade). E o Sushi nem gosta de rato, gosta de mariposa.

*Pausa para reflexão: por que ainda não inventaram mariposa de brinquedo? Ou já tem e eu não sei?

Continuando: brinquedos para gato em geral, areia para gato, banheiro de gato (aquelas bacias de gato que ele usa pra fazer xixi e coco), e claro, a ração né, não vamos esquecer a ração.

A conta foi alta. E a gente só tinha ido comprar ração.

Até esse momento, depois de 2  horas no pet shop, gastamos mais do que fomos gastar e nem tínhamos pra gastar, mas não estávamos nada satisfeitas. Pois além de termos comido crepe, tomado suco e comprado uma casa da Barbie completa pro Sushi, a gente lembrou que faltava café em casa. Lembra do acordo né? Não podia faltar café.

Entramos no mercado Angeloni, pela escada rolante (aquela que a gente usa pra andar mais rápido e não pra parar e trancar a frente dos outros). O pet shop fica embaixo do mercado, que infortúnio. E lá fomos nós comprar café.

No meio do mercado descobrimos que, além do café, também não tínhamos mais vassoura. E nem rodo. E nem pano de chão.

E nem uma TV.

Pois é.

A gente ia comprar uma ração e saímos de lá com uma TV. Smart, claro. Netflix, né.

Essa TV, aliás, foi nossa primeira compra juntas. Nunca nos arrependemos da TV. Mas da bolinha com maconha de gato sim.

Então, fica aqui uma lição: se vocês por acaso acataram a ideia de ter um gatinho, quando forem comprar ração, não comam crepe, nem tomem suco, comprem a ração e saiam correndo.

*Tamo pagando a conta até hoje.

Júpiter Sushi.

Não lembro qual era o ano, mas acredito que 2014. Tivemos nosso primeiro filho. 

Eu ainda trabalhava em agência de publicidade/design, coisa que não recomendo por muito tempo pra ninguém.

E a vida tava corrida, no sentido de casa-trabalho-trabalho-casa, aquela correria que não é vida e sim apenas uma correria sem sentido nenhum. Um momento da vida em que vivemos para trabalhar e só isso, até nos darmos conta que a vida é muito mais. 

Bom, nessa agência conheci muita gente que já tinha filhos, e quando digo filhos me refiro a um animal de estimação (risos), que com certeza é bem menos trabalhoso do que um ser humaninho (eu acho).

Em todo caso, nunca quis ter filhos, nem humano, nem bicho. Mas quando eu ouvia os amigos da firma contarem as histórias de seus bichanos eu achava apenas… muito fofo. Ou não achava nada, não lembro. Confesso que não entendia muito bem, achava tudo muito distante, um pouco doido, um pouco sei lá isso não é pra mim.

Por outro lado vivi em uma família que gostava apenas de cachorro, não de gato. Gato é coisa do djanho. Gato é um bicho esquisito. Gato solta pelo. Gato é bruxaria. Sai daqui gato. Suma gato. Meu pai, em especial, não é um grande fã de gatos. Mas adora cachorro. Vai entender.

E foi nessa época que eu comecei a despertar uma vontadezinha de ter um gatinho. Fiquei só na vontade. Já que eu morava com a Amanda e acreditava que ela não iria querer um filhotinho pra cuidar, nem me dei ao trabalho de alimentar a minha vontade.

Até que um belo dia, que era noite na verdade, a Amanda voltou da casa da irmã dela animada, digamos assim (eu não lembro). Sentamos no sofá e conversamos um pouco, estávamos assistindo alguma coisa sem importância na TV e, de repente, a Amanda me fala:

– Minha irmã achou 2 gatinhos na rua e ela não sabe o que fazer com eles.

– É u que? (eu)

– Queria dar um pra gente.

– AI MEU DEUS GURIA VAMO POR FAVOR DIZ QUE SIM VAM VAM VAM (eu)

– Será guria?

E foi aí que tivemos nosso primeiro gatinho, o Júpiter Sushi, mais conhecido como Sushi Nome carinhosamente escolhido pela irmã da Amanda, a Luana. E respeitosamente mantido por nós, porque faz todo sentido né.

O Sushi apareceu em nossas vidas com 1 ano, acredito eu.

Uma peste. Miava a noite toda, abria a porta do meu quarto, coisa que aprendeu com apenas um mês de convivência, queria carinho (sim gatos são carentes também), queria comida, se escondia, miava, miava, miava.

Miava.

Mas aos poucos fomos nos acostumando. Todos nós 3. E depois 4, com a tia Fê. E a casa ficou mais feliz. E mais divertida. E mais suja também. O Sushi é um gatinho sociável, amadinho, lindo. Tirando os dias que ele não é.

Adotem um gatinho. Ou um cachorro se for de sua preferência. E cuidem é claro.

Eles têm muito a ensinar sobre paciência, parceria, dar/receber carinho e amor. Mas adotem né? Vocês não acham muito esquisito comprar um animal? É esquisito gente, tudo que é esquisito e não faz sentido, vale uma dúvida, um pensamento, um raciocínio mais aguçado. Adotem.

O SUSHI É MARAVILHOSOOOOOOOOOOOOOOO

que post fofo e sem graça é esse mds.

Café, pão, queijo e cerveja.

Eu e a Amanda nos conhecemos na faculdade. Passamos no vestibular em agosto de 2007, em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. E terminamos tudo no ano combinado, 2011 (mesmo eu demorando 2 anos para pegar meu diploma, esse que se encontra guardado e mofado em algum lugar).

Boas alunas na medida do possível. Tinha um costelão com cerveja de garrafa ao lado do nosso centro de estudos, não era fácil.

Trabalhamos desde o primeiro ano e estudávamos à noite pra isso (foi aí que descobri que por mais calor que se faça durante o dia em Curitiba, SEMPRE leve casaco aonde quer que você vá nessa cidade).

Eu e a Amanda chegamos inclusive a trabalhar e estudar juntas em um determinado momento (Amanda você está me sufocando).

Fomos nos conhecendo e achando vários pontos em comum, um dos principais o gosto (pela fuleragenzinha) pela vida e a alma que nunca deixou de ser criança. Algumas pessoas sofrem com isso, perdão vizinhos. E Fer ❤

Desde esses primórdios da faculdade a gente começou a pensar em dividir um apê, afinal, saímos da casa dos nossos pais novinhas e a gente não tinha muita (ou nenhuma) grana pra pagar um aluguel sozinhas.

Entre uma saideira e outra (s), o assunto ficou pairando no ar, cada uma foi morar pra um lado e, no final da faculdade, decidi morar um tempo fora. Foi quando voltei que, pirilim pim pim, decidimos dividir o tal apê.

Achamos nossa primeira moradia divisória em 2013. E posso dar algumas dicas aqui para quem está nessa fase da vida:

  1. PRIORIDADES

Se você está procurando um apê pra dividir com alguém ou pra morar sozinha (o), pesquise em lugares que dê pra andar a pé tranquilamente, perto de mercado, farmácia, ônibus, perto do seu trabalho/facul, perto do parque e, se der, perto de um bar e pizzaria.

Veja se pega sol, se tem muito barulho e coisas que você prioriza em uma moradia, tipo lugar pra colocar um varal (acredite, vai ser prioridade um dia).

  1. PRIMEIRA IMPRESSÃO 1

Olhe as fotos pela internet e, se você não gostar das fotos, já descarte. As fotos mostram muito do que o ambiente realmente é e, geralmente, se você mesmo assim decide fazer a visita, vai perder um tempinho precioso na sua vida.

  1. MENSAGEM SUBLIMINAR

Como diquinha de quem acredita em energia (e essa vocês interpretam do jeito que der) quando forem fazer uma visita, indico saber sentir a vibração energética do lugar que você está visitando.

Você sente isso quando entra, é fácil, é só escutar o core e a intuição, vai aprendendo, inclusive quando for escolher alguém pra dividir o apê (a vida).

  1. LEIA AS ENTRELINHAS

Decidiu que o apê vai ser aquele bonito, gostoso e perfeito para o seu momento de vida, agora vem a parte que a gente descobre que, na verdade, cereja é xuxu.

Pausa pra reflexão: sabia que aquela calda de cereja ruim pá kct, que tem naqueles buffets de sorvete, é na verdade xuxu em bolinha com calda de alguma coisa nojenta? É uma enganação, garotx.

Voltando aqui: você vai precisar comprovar renda. Caso você decida pelo modelo tradicional não evoluído de alugar um apê, você vai ter uma imobiliária.

Então, se você não ganha o suficiente para comprovar que tem uma renda de milionário e que tem imóveis próprios, etc., o que a maioria da população brasileira não tem, você vai precisar de fiador. Aquela pessoa que coloca o nome na reta por você caso você deixe de pagar um aluguel (tia Clau e tio Edi, obrigada).

Dependendo do imóvel e da imobiliária, por vezes você vai precisar de um locatário também. Mas pera Lina, o locatário não sou eu? Se a sua renda for 3x maior que o aluguel do apê que você está alugando, pode ser. Senão, não (claro, dependendo da imobiliária). Há também a opção de dividir o contrato de locatário. Aqui em casa por exemplo, sou eu e a Fer.

Então vamos lá: o locatário é aquela pessoa que ganha bastante o suficiente para alugar um imóvel (que pode ser você ou alguém da sua família ou alguém que esteja disposto a correr quase o mesmo risco que o fiador).

Essas pessoas geralmente te amam muito e confiam em você. Retribua, ok?

Resumindo: se você não é rico, algumas imobiliárias exigem um fiador e um locatário de dinheiro.

Depois de todo esse auê, você ainda vai precisar ler contrato. E tem que ler com atenção. Sim, 2018 e ainda estamos com a parte burocrática disso emperrada nos anos xx – não sei mesmo, de tanto tempo que faz.

Enfim, leia atentamente o contrato, se tiver imobiliária envolvida no negócio, pesquise a reputação dela antes. E principalmente: leia as entrelinhas da vistoria. A vistoria gente, prestem a atenção na vistoria!

  1. NÃO DESISTA

Aí Lina, que difícil, melhor ficar na casa mãe mesmo né? Não, não! Não desista, que tem jeito mais fácil.

A boa notícia é que alguém está fazendo alguma coisa. Veja só, já temos bons empreendimentos que cortam algumas partes burocráticas das quais falei aqui:

https://www.quintoandar.com.br/

https://www.zapimoveis.com.br

Confesso que nunca usei nenhum, mas com certeza negócios como esses são tendências e, futuramente, a parte burocrática provavelmente ficará bem mais easy going (tradução livre: fácil).

Bom né? Falei tudo aquilo antes só pra dar mais emoção.

Passadas as dicas, você já encontrou seu apê lindão, aprendeu que cereja é xuxu e tá dividindo apê com migxs maravidivxs, ou morando sozinhx. Aqui vai minha última dica pra esse começo de temporada:

Façam acordos. Assim como eu e a Amanda fizemos.

Número 1: não pode faltar café, pão, queijo e cerveja.

Fim dos acordos. Fim do post também.

Comprei uma bicicleta parte 2

comprei-uma-bicicletaPra quem não entendeu, essa metáfora é sobre o ditado “não sei se caso ou compro uma bicicleta”. Não que eu não queira casar (não que eu queira também), mas primeiro escolhi sair e viver a vida do jeito que eu achava melhor, e nem sempre foi melhor, claro.

Tem que comprar papel higiênico gente, acredita? Ele não brota no banheiro. É desolador.

Entre outras milhões de coisas, tem que lavar a roupa, tem que cozinhar. Acredite em mim: você pode até viver só de miojo nos primeiros anos, mas não vai dar certo. Aprendam a cozinhar. E fica aqui minha dica number one: o ovo é seu melhor amigo.

Além de tudo isso, tem que VIVER COM PESSOAS – não necessariamente, mas geralmente. Gente, é louco.

Já morei em muitos lugares, com muitas pessoas. Já cheguei a morar com 6 pessoas em um apartamento, em Dublin na Irlanda. E hoje moro com 2 pessoinhas maravilhosas.

Uma delas, a Amanda, mora comigo (ou eu moro com ela kkk) já faz 6 anos. Rumo aos 70, já que costumamos dizer que moraremos juntas a vida toda e nossos crushs terão um puxadinho atrás da nossa casa. Que vai ter uma horta também, 2 gatos e 1 cachorro. Uma história de amor. De aventura e de magia.

E o intuito desses episódios é justamente contar as histórias mirabolantes que vivemos juntas nesses 6 anos, tentar passar um pouco do nosso conhecimento em morar com pessoas, compartilhar aprendizados e te ajudar a comprar a tal da bicicleta de vez, fazendo as manutenções necessárias.

A primeira coisa que preciso dizer aqui é: se você ainda mora com seus pais/avós/tios e está com esse sentimento que faz seu coraçãozinho bater mais forte, meu amor, escolha a bicicleta. Porque é libertador. E é legal pra um senhor c*r*lh*, como diz nossa nova integrante da casa, a Fer (agora nesse momento das nossas vidas a Fer entrou pra nos ajudar a sobreviver, porque valha-me Deus, não está sendo muito fácil).

Faça o que tiver que fazer, mas vai minha filha (meu filho), vai pro mundo, colecione histórias, se dê mal e veja que esse mal na verdade é muito bom.

Se você não quiser também tá tudo certo.

E se você já faz isso, ótimo! Tente absorver o máximo de aprendizado com seus coleguinhas e com as pessoas que surgem na sua vida.

O principal aqui é: tenha coragem de se sentir inteiramente livre e ver o mundo do seu jeito.

Be nice or leave. Tradução: seja gentil ou vaze.

Comprei uma Bicicleta parte 1

Não de fato. Mas na teoria.

Tudo começou a um tempo atrás na ilha do sol. Mentira, na ilha da chuva: Curitiba.

Bom, pra falar bem a verdade começou quando eu me dei conta que eu precisava sair. Sair do conforto, sair do lar, sair debaixo da saia, sair pra enxergar.  Aquela rebeldia de adolescente, que cada um tem a sua. Yo soy rebelde.

Essa coisa de “me dar conta” deve ter acontecido por volta dos meus 17 anos, quando eu ainda tinha cabelão. Era uma tarde de julho, com muito sol e céu azul. E eu morava em Carazinho, uma cidadezinha do RSrsrsrs (Rio Grande do Sul pra quem não pegou o bonde) e, como sempre, não tinha nada pra fazer, depois de ter fracassado em muitos vestibulares da vida. Eu estava literalmente olhando para o teto da sala.

Minha família sempre foi de andar bastante por esse Brasil (“minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia me encontro feliz”). Antes de Carazinho, moramos (eu, mãe, pai, mano) em Londrina, PR , por 8 anos.

Passei boa parte de uma das melhores épocas da minha vida morando em uma chácara, encardida da terra vermelha (minha mãe me colocava de molho no tanque, então eu era encardida mesmo).

E pode ser que tenha nascido aí esse sentimento de “loquiar” pelo mundo.

Por isso, apesar da minha certidão de nascimento constar que eu nasci na pequena e empoeirada Vila Rica, no Mato Grosso (no coração do Brasil, como diz meu pai – aliás, obrigada por fazer esse meu humilde nascimento ter uma storytelling legal, pai), eu me considero uma pessoa do mundo.

– Senhor, essa menina não pára. Onde será que vai dar isso? – pensavam meus pais.

Deu em nada mesmo.

Brincadeirinha gente, deu em muitas aventuras e aprendizados – ainda dá muito.

Mas voltando aqui, não posso deixar de dizer que foi com muita ajuda deles, dos meus pais, que consegui andar por esse mundão de Deus e consigo, hoje, morar nessa cidade linda, Curichuva, Chuvitiba, amo/sou, pois me faz dar ainda mais valor para o sol.

Contada essa primeira parte da minha interessante história que pode ser que não tenha graça nenhuma, mas que pode ser que ajude quem está nessa fase de rebeldia que provavelmente nunca passará, vamos ao que viemos fazer.

Eu escolhi a bicicleta. Sejam bem-vindxs.

Be nice or leave. Tradução livre: seja gentil ou vaze.