E aí como tá a vida na correria? (Sem vírgula mesmo. Não dá tempo.)
E passa meu amigo na rua, correndo, sem ao menos ouvir minha resposta.
Na verdade meu amigo, não estou na correria. Mas confesso que muitas vezes me senti culpada por não estar.
Deve ter alguma coisa errada. Deve ser eu que sou uma sem nada pra fazer mesmo. Eu não devo estar produzindo o suficiente. Gente, preciso entrar nessa correria aí, devo estar perdendo alguma coisa, já que todo mundo tá, menos eu. Será que eu tô na correria e não sei? Ai.
Passa dia, entra dia e lá está, a correria.
Trânsito. Trabalho. Áudio no Whatsapp. 2 minutos e 47 segundos. Será que essa pessoa não sabe que eu tenho mais coisa pra fazer da vida? Trabalho. Casa. Família. Celular. Amigos. Digitais. Solidão. Ansiedade. Preciso ler. Stories. Preciso fazer exercícios. Netflix. Reunião.
Depressão.
E-mail. Como fazer sua empresa crescer 150x mais em 2 dias. Como a Joana já tem um milhão de reais aos 25 anos e você aí sentado sem fazer nada. Siga estes 5 passos e seja mais feliz. 15 dicas para você ser mais produtivo no dia e nunca mais descansar.
Então, tudo se tornou uma grande correria?
Haja tênis.
Dia desses fui convidada para participar da “Semana Inspire” de Marketing da Tamo Junto, lá em Maceió – AL. Fui lá falar um pouco sobre “Marketing de Essência: como trabalhar com propósito e consciência”.
Todo o trabalho aconteceu em São Miguel dos Milagres, cidade perto de Maceió. O nome já diz tudo. Água transparente, sorrisos para te receber, pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinha, beira do mar (parafraseando Diogo Nogueira).
Lá, quando alguém te pergunta como tá a vida, a gente senta e conversa.
Milagres.
Em um daqueles dias que estive lá, coloquei minha janta pra esquentar no fogão e saí tomar um ar. Ar puro de natureza. Quando olhei, a lua estava nascendo, amarela, gigante. No mar, entre os coqueiros. Fiquei alguns minutos ali paralisada, de boca aberta (mesmo) por toda aquela beleza.
Obviamente, minha janta queimou.
Que loucura, pensei. Meu pai sempre falou que as coisas boas são simples. Mas como demora pra gente perceber o que são as coisas simples e porque elas são boas.
Demora porque a gente não consegue mais observar. Perdemos a sintonia. A sincronia. Estamos na correria.
Tive a oportunidade (e a honra) de ir olhar a lua mais de perto. Na beira do mar. Na famosa Capela dos Milagres.
Percebi a tempos atrás o quanto o barulho do vento das árvores me encanta. E continua me encantando. É absurdamente gostoso sentir a liberdade, uma breve liberdade, com os cabelos voando para todos os lados, e escutar o som suave, leve, sussurrando no ouvido, contando segredos da vida que você precisa estar atento para ouvir. Levando embora tudo o que precisa ir. O som do vento. Olhei ao meu redor e: vagalumes!
Milagres.
Fomos jantar tapioca na Elisângela. Em uma praça. Movimentada, mas ao mesmo tempo tão quieta. Conversas. Sorrisos. Mas não qualquer sorriso. Sorriso de gente que carrega singular e unicamente, a leveza da simplicidade. Aquela, na qual meu pai falou que estão as coisas boas.
No outro dia (ou foi um dia antes?) me levaram para passear nas piscinas naturais. Me levaram para passear. Me levaram. Para. Passear. Quando foi a última vez na vida que me levaram para passear?
E como me levaram para passear, me permiti voltar. Fui criança. (Ou nunca deixei de ser?)
Tirei meu chinelo e saí correndo na areia. Pulei na areia. Quentinha do sol. Mas não quente a ponto de queimar. Morninha. Como a água do mar. Fomos para as piscinas naturais de barco. E aquele dia o céu estava azulzinho, sem nuvem. Já o mar, estava todos os tons de azul e verde. Mas, na verdade, era transparente.
E de novo eu me permiti. Mergulhei no mar transparente. E transpareceu a vida.
Lembrei de um pedido que fiz dias atrás, antes de eu ir para Milagres. Um amigo me presenteou, em um dia cinzento de Curitiba, com uma daquelas florzinhas brancas que parecem um pompom (descobri nesse momento que se chama Dente-de-Leão) e diz a lenda que você precisa fazer um pedido quando assopra.
Fui pra casa a pé, descobrindo novas rotas como sempre gosto de fazer, enquanto eu pensava no meu pedido. Uma pequena parte já tinha ido com o vento, quando parei em uma rua, normal para muitos, mas linda para mim. E o pedido veio, como um estalo, uma descoberta:
“Que eu consiga cada dia mais enxergar beleza e sentir alegria na simplicidade e nas pequenas coisas”.
Voltei do mergulho. Voltei pra Curitiba. E a vida continuou. Ridiculamente simples. E ridiculamente gostosa de viver. Sem correria, mas com muito trabalho, muita coisa pra fazer. Algumas pra resolver, algumas pra só esquecer. Bons amigos pra ver e, principalmente, muita vida pra viver.
Acho que no fundo eu sempre entendi o que meu pai me diz há tantos anos.
Hoje, só desejo que a nossa correria se transforme em passos lentos e proveitosos. Que a árvore perto da sua casa seja tão linda como a que estou vendo aqui da minha janela. Que você consiga ouvir a música no meio do trânsito enlouquecedor. Que você perceba o quanto são magníficas as luzes da cidade à noite. Que a sua grama seja tão verde quanto qualquer outra. Que você tenha bons momentos de puro silêncio e de nada pra fazer. Que o seu primeiro bom dia seja pra você mesmo ou pra quem estiver do seu lado. E não para o seu celular.
Que você consiga enxergar o quão belo é poder ter a família que tem. Os amigos que escolheu. E que perceba que pode conversar verdadeiramente com eles. (Já imaginou?). Que a gente consiga admirar o pôr do sol, muitas e infinitas vezes. Que você consiga desligar seu celular por horas. E se ficar ansioso, que perceba o quanto é bom respirar, profundamente.
Que você sinta a sintonia. Que esteja em sincronia. Que a gente esteja aqui. Que a gente esteja agora.
Que você consiga, que a gente consiga, sentir alegria em todas essas pequenas coisas. Que a nossa única urgência no dia, todos os dias, seja a de viver.
E que, da próxima vez que alguém te perguntar como anda a vida, você possa ter uma conversa estilo Milagres.







Pra quem não entendeu, essa metáfora é sobre o ditado “não sei se caso ou compro uma bicicleta”. Não que eu não queira casar (não que eu queira também), mas primeiro escolhi sair e viver a vida do jeito que eu achava melhor, e nem sempre foi melhor, claro. 