Só uma filha em crise.

Teve uma época que eu achei que meu pai ia me vender na feira. Literalmente. Eu ficava esperando o dia que esse acontecimento se tornaria realidade. Pra qual família eu iria será? 

Lembro de ficar atrás da porta do quarto dos meus pais ouvindo o que eles estavam tramando pra mim. Sorte a minha que nunca ouvi nada esquisito, além de conversas aleatórias sobre a vida (kkk). 

Bom, quando eu era criança por vezes eu acompanhava meu pai na feira. Na feira da Lua, em Londrina. Quase sempre depois da aula. Como eu e meu irmão (e meus primos) estudávamos à tarde, às vezes ele buscava a gente de fusca e íamos pra feira direto. Vender morango (e comer pastel, claro). Entre outras verduras e legumes que meu pai plantava. Mas eu lembro bem do Morango. “Morangos Bennemann”. Era isso? A gente tinha até adesivo.

Eu não lembro muito bem o porquê de eu ter pensando que eles iriam me vender, mas com certeza veio de alguma piadinha que meu pai fez. Meu pai é muito conhecido pelas suas piadas não tão engraçadas, mas que de tão não engraçadas, são engraçadas. Sabe? Meu pai também é conhecido pelas suas doces palavras. Tão doces que o apelido dele é Cavalo Véio. Vocês podem imaginar o quão “docinho” ele é. 

Naquela época ele deve ter me falado algo do tipo: “Lina, fica quietinha aí se não eu vou te vender junto com os morangos”. E aí eu fiquei esperando esse dia chegar. Porque certamente eu não devo ter ficado quieta. E também porque sou meio anta e acredito em tudo (praticamente tudo) o que me falam.

Graças a Deus esse dia nunca chegou. E até hoje tenho contato com a minha família.

Dia desses, depois de grande (de idade), eu entrei em crise com meu pai. Outra, entre tantas outras no decorrer da vida. Meu pai nunca foi lá uma dessas pessoas que fala muito. Até hoje quando eu pergunto alguma coisa pra ele, se ele não tá muito a fim, finge que não ouve e sai do ambiente no qual estou. E eu fico lá, esperando uma resposta que nunca vai chegar. 

Hoje em dia já não ligo muito. Deve ser o jeito que ele escolheu de não se estressar. Vai saber. Se eu perguntar porque ele faz isso, certamente seria uma outra pergunta sem resposta. 

Depois que minha mãe faleceu meu pai mudou bastante. Começou a estar bem mais presente na minha vida (e na do meu irmão, mas acho que não posso falar por ele). 

Como eu moro distante (eu em Curitiba, eles em Carazinho – RS), quando estou lá é ele quem faz almoço, janta, café. É o jeito que ele achou de demonstrar amor pela gente. Mas meu pai não mudou tanto a ponto de responder minhas perguntas. Que são infinitas, admito.

E em uma das minhas ligações pra ele, eu questionei porque ele não me ligava mais vezes. Sou sempre eu. Por que ele não se importava com o que eu estava fazendo? Ele nem sabe o que eu faço da vida. Alô pai, eu to sofrendo. Por que você não vem me visitar? Você não se importa com nada na minha vida. Blá, blá, blá e etc. 

Depois de ele não responder nenhuma das minhas perguntas, claro, e dizer “ok, semana que vem te ligo”, desliguei o telefone e comecei a chorar. Na rua. Eu sou dessas, choro na rua. Onde tiver que chorar eu choro. Mentira, às vezes eu espero chegar em casa. 

Outro dia, conversando com uma amiga, chegamos ao assunto “pai”. E percebi que praticamente os mesmos problemas de relacionamento que eu tenho com meu pai, ela também tem com o dela. Lembrei de outras amigas que já conversei sobre o assunto. E amigos. Pelo jeito, relacionamentos com pais são confusos mesmo. Relacionamento no geral é confuso. E, se não há comunicação, como é o meu caso com meu pai, pode ficar pior.

Mas aí, em uma outra conversa, com meu primo emprestado, também percebi que nossos pais fizeram e fazem o melhor que eles podem. Assim como a gente como filhas e filhos.

E depois, pensando bem, relembrei (de novo, como percebi em outras crises) a mágica do meu relacionamento com meu pai. Como é bom, na maioria das vezes, ele nem querer saber muito da minha vida. E só se importar se eu estou bem. Como é bom, sentar na grama no finalzinho do dia, ou depois do almoço, e ficar em silêncio do lado dele. Tomando uma cervejinha (Kaiser na maioria das vezes). Rindo de coisas aleatórias. Como é bom ter um pai agricultor que planta as melhores saladas que eu já comi na minha vida. Como é bom que ele não me faça tantas perguntas, assim como eu faço pra ele. Como é bom ter um pai como o meu pai. Como é bom, no final de toda ligação, que normalmente dura em torno de 1 minuto e meio, ouvir do outro lado da linha um “eu te amo”.

A gente vive falando que precisa ouvir mais. Mas acho que o ouvir mais, não quer dizer literalmente ouvir. Mas sim perceber. Sentir. E se esforçar, como filha, como filho, como amigo, amiga, irmã, irmão, pai, mãe, parceiro ou parceira, com as pessoas que a gente gosta.

Todo mundo tem lá seus defeitos e relacionamento nem sempre (nunca) é fácil. Mas a gente sempre deve lembrar que a felicidade está na qualidade dos nossos relacionamentos também. E ele é feito de mais pessoas. Não só de uma. Qualquer relacionamento se constrói com reciprocidade, respeito, cuidado e, principalmente, amor.

Dia desses fui reclamar do barulho que meu vizinho estava fazendo no andar de cima. E no final eu mesma falei uma frase e fiquei pensando na boniteza dela: “ tá bom, a gente vai se acertando”. 

Sim, a gente vai se acertando. A vida vai se acertando.

Afinal de contas, meu pai nunca me venderia numa feira. 

Eu acho.

Cuidado com os medos, lhes encanta roubar sonhos

Percebi que o medo estava me dominando quando fui fazer um trabalho voluntário na Cidade Escola Ayni, em Guaporé – RS, no final de 2018. 

O ponto foi quando fiquei com medo de pisar na grama. 

Eu, que nasci no mato (literalmente, nasci no Mato Grosso). Eu, que vivia com o pé encardido de terra vermelha, quando morava em Londrina (lá tem terra vermelha). Eu, que pisava descalça na brita e não sentia dor (sério). Que tomava banho de chuva no meio da tempestade. Eu, que subia em árvores e pulava de cima delas. Dava cambalhotas. Me contorcia inteira como elástico. Nadava até o fundo do mar e deixava ele me levar pra onde quisesse (para o terror da minha mãe). Eu, que nadava no rio com correnteza. Que voltava pra casa cheia de lama no corpo inteiro.

Estava com medo de pisar na grama. 

Mesmo me sentindo muito corajosa por todas as decisões malucas que já tomei na minha vida, senti que o medo estava me dominando. Percebi que eu já não entrava no mar com a mesma vontade de me jogar. Que eu já não andava descalça com a mesma tranquilidade. Que eu já não lembrava mais a última vez que tinha dado uma cambalhota. A tempestade hoje, me paralisa. Comecei a desenvolver um certo medo de altura. 

Depois que eu “perdi” minha mãe, em 2017, esses medos ficaram ainda maiores (ou mais perceptíveis). Percebi um medo terrível de perder as pessoas que eu amo. De apostar em coisas novas. De relacionamentos. Medo de falhar. Medo de decepcionar. De me decepcionar. Medo de perder. De me perder. E nunca mais me encontrar. 

O medo me dominava por inteira. E percebi que quanto mais velha eu ficava, mais eu me afastava da natureza. Quanto mais aniversários, mais medos eu cultivava. 

Descobri que eu estava adultecendo. 

“Cuidado para não adultecer”. Era uma das frases escritas nas paredes da casa em que fiquei hospedada, durante meu voluntariado na Ayni.

Diferente de amadurecer, quando você adultece, segundo minhas próprias interpretações, você perde a essência da vida. Aquilo que faz seu olhinho brilhar. Quando você adultece, o medo vai te dominando em várias esferas da sua vida, sem você perceber. E vai aumentando proporcionalmente a nossa idade.

Quem diria que criaríamos monstros depois de adultos.

Afinal, medos são monstros imaginários que muitas vezes nos impedem de realizar aquilo que faz nosso coração bater mais forte. Ele fica entre o coração e o cérebro, como se fosse uma ponte interditada, que quebrou conforme o tempo foi passando, conforme as responsabilidades foram aumentando, nossas raízes se afundando em um terreno qualquer e o conforto do nosso teto se tornando nossa única visão.

O medo faz com que a gente continue na nossa caverna. Olhando as sombras que nos projetaram, do lado de dentro, sem nunca sair do conforto, sem deixar nossos olhos arderem com a luz da claridade (só com a luz do celular), sem pisarmos nos espinhos dos terrenos desconhecidos, sem duvidarmos das nossas próprias certezas, sem questionarmos a verdade que nos foi ensinada. 

Sem experimentarmos o que, quem sabe, seja o bom da vida.

Estamos todos doentes de adultecer. 

É isso. É assim mesmo. Não tem como mudar. O mundo vai acabar mesmo. Não tenho mais idade pra aprender. Ou pra casar. Preciso responder rápido. Não tenho tempo pra pensar nisso. Ou pra pensar apenas. Ou pra respirar. Preciso correr para minha próxima reunião. Não tenho dinheiro. Não tenho tempo. 

Quando sobrar eu vou viajar. Quando surgir uma nova oportunidade eu saio desse trabalho que eu odeio. Quando eu sentir que não vou me decepcionar eu começo um namoro. Quando eu souber que não vou ficar sozinha (o) eu termino esse relacionamento. Quando o ano começar eu faço uma dieta. Na próxima segunda eu começo meu livro. Quando ele falar eu te amo eu digo também. Da próxima vez eu vou ter aquela conversa. 

Um dia desses. Quem sabe amanhã. Depois. Ano que vem. 

Talvez nunca.

Essas desculpas somos nós, adultecendo. Deixando o medo decidir por nós. O medo do novo, o medo da mudança, o medo de errar, o medo de tomar uma decisão arriscada, o medo da rejeição, o de faltar, o medo de sobrar, o medo pelo medo.

Mas, apesar de tudo isso, eu acredito que não é necessariamente o medo que nos faz adultecer. É a falta de coragem de seguir nosso coração. Afinal, o medo sempre vai existir. É bom sentirmos medo. Nos faz ter prudência em certas ocasiões. 

O que não é bom é deixarmos a nossa ponte quebrada.

Uma vez ouvi de uma amiga que coragem não é ausência de medo. Então, que não nos falte coragem para seguirmos os nossos sonhos no aqui e no agora, que é o único tempo que realmente “temos” para viver. Se der errado, é só começar de novo.

Experimente experimentar. Pisar na grama. Aprender algo totalmente novo. Dizer eu te amo. Dar cambalhotas. Se jogar na vida. Volte a criançar.

E, se der medo, vai com medo mesmo.

Manifesto da Menstruação

Ninguém ensina a gente a como ficar menstruada. Sim, precisa aprender.

Ninguém faz o favor de avisar “olha mocinha, um dia você vai sangrar do nada e vai achar que está morrendo, mas é só menstruação, fica tranquila”. 

Geralmente a gente fica sabendo que um dia vai sangrar pela vagina, na aula de biologia, ou relações sexuais (é esse o nome ou estou enganada? Isso existe?).

Esquisito. Faz sei lá quantos séculos que isso acontece e a menstruação ainda não é uma coisa muito falada na mesa em família.

Entre amigos e amigas temos quantos eufemismos para dizer “estou menstruada”? Vou citar algumas aqui que conheço:

“Estou nos meus dias”

“Estou naqueles dias” 

“Desceu”

“Estou de chico” – HAN?

“Acordei e tinha um assassinato na cama” – boa.

“Meus parentes de lagoa vermelha vieram me visitar” – eu choro de rir com essa.

Da primeira vez é: “Fiquei mocinha” – FIQUEI M-O-C-I-N-H-A. Ninguém nunca achou isso muito esquisito? O que é ficar mocinha meu Deus? Significa que não posso mais jogar bola com meninos? Significa que preciso cuidar da casa? Significa que preciso aprender a cozinhar? Significa que posso transar? Oba. Ou não posso? Ai senhor.

A interpretação é livre. Porque eu pelo menos nunca recebi uma explicação. E aposto que nem minha mãe. Nem a mãe da minha mãe. Nem minhas tias, amigas, etc.

Não sei, mas quando eu sangrei pela primeira vez e achei que ia morrer, minha mãe me perguntou se podia contar para as pessoas que eu “fiquei mocinha”.

Hummmmm, será mãe? Será que é uma boa ideia? Pode, vai. Mas só pro meu pai.

Será que meu pai sabe o que é ficar mocinha? Porque não é papel da mãe ensinar que a menina vai ficar menstruada né meus amigos. Todo mundo adulto sabe que a mulher vai menstruar um dia.

Passado a primeira parte do susto tem a outra parte que é o fluxo né. A gente não aprende a como ficar menstruada, imaginem aprender a usar uma porra de um absorvente. 

Quantas vezes preciso trocar? Como jogo fora? Como que prende essa merda? Será que é normal sair tanto sangue? Coloco mais pra frente ou mais pra trás? Deve ser tipo aprender a trocar fralda. Como que eu enfio esse negócio (OB)? Essa merda machuca, porra.

Tem vezes que o sangue vai pra qualquer lugar, menos pro absorvente.

Nas primeiras vezes (e depois também), pra quem tem um fluxo muito forte, mancha tudo. Mancha colchão, mancha calça, mancha sofá, mancha nossa dignidade. Dá vergonha (e dor de barriga). Mas gente, de jeito nenhum isso deveria dar vergonha, vocês não acham?

Deveria ser a coisa mais normal que existe. “Ops profe, manchou as parada tudo aqui, vou precisar ir pra casa trocar a roupa inteira”. “Olha aquela moça com a calça manchada de sangue, deve estar menstruada, vou avisar.” 

Imaginem a liberdade de poder levar o absorvente pro banheiro, na hora de trocar, SEM TER QUE ESCONDER O OBJETO EM QUESTÃO?

Achei essa reportagem aqui que diz que a mina “quebrou um tabu” dizendo em público que estava menstruada. O ano é 2016. 2016. DOIS MIL E DEZESSEIS. 

Fora tudo isso, tem a porra da TPM. Qué isso gente. Toda mulher de TPM deveria ter dias de folga. Fica essa dica preciosa aqui. 

Tem aquelas que têm a sorte de ter uma TPM mais amena e tem outras, como é o meu caso, que têm vontade de pular do prédio. Jogar o gato pela janela. Dá dor em tudo. Tem mulher que nem consegue carregar os peitos de tanta dor. Tem mulher que quer comer tudo o que vê pela frente. LITERALMENTE, se é que me entendem.

Por favor, vamos nos dar a liberdade de ficar menstruada em paz. Pode dizer que tá com cólica menstrual no trabalho sim, pode dizer que vai se atrasar porque o colchão inteiro manchou de sangue menstrual, pode dizer que vai trocar o absorvente em voz alta. 

Eu tô menstruada nesse momento. Então gente, se minha calça manchar, podem me falar. Eu não vou mais esconder meu absorvente, ok? E quando eu estiver na TPM, não fique muito perto de mim.

Todo mês, nós mulheres, temos um dia para celebrar e sair contando pra todo mundo: FIQUEI MENSTRUADA. Vencemos na vida.

E sutiã também é uma bosta. Valisere que se foda.

Agora, amigo, eu tô em outra.

Quando a gente é jovem a gente é meio burro. E estou falando de mim. Já que não posso falar pelos outros. 

Qualquer semelhança é mera (rea…) coincidência.

Eu achava que precisava ficar onde não queria, com quem eu não queria. Me metia em situações e problemas alheios que em nada me pertenciam (faço isso até hoje). Deixava minhas decisões serem guiadas pelo tanto de dinheiro/”experiência” que eu ia ganhar. Acreditava na crença dos outros. Tentava provar a todo custo que eu era boa, que eu era melhor, que eu estava certa. 

Mesmo que isso significasse danos a minha saúde mental. E, consequentemente, física.

Aos 20 anos fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade. Uma coisa que carrego comigo desde muito pequenina (de idade). E que piorou na tolice da minha juventude. 

Um dos principais motivos foi o trabalho. Eu trabalhava em agência de publicidade. Comecei como estagiária e terminei definhada. Em dois anos e meio, deixei me tirarem tudo o que eu tinha: minha crença na minha inteligência, minha confiança, meu amor próprio, minha alegria de viver, meu sono, minha dedicação aos estudos. 

Eu vivia só pra trabalhar e ouvir que aquilo ainda não era suficiente. Que eu deveria isso, que eu deveria aquilo. Além de todos os insultos, assédios, desmoralização, machismo³. Que, por sinal e infelizmente, não era só comigo. E também não era só realidade daquela agência específica, mas da grande maioria delas – e tenho certeza que de outras empresas também. Gritos, choros, xingamentos, caos, 12, 15, 24 horas de trabalho (e não estou exagerando. Estou até ocultando detalhes).

Vocês que me leem neste momento podem até estar pensando que aguentei (aguentamos) tudo isso pelo dinheiro que eu ganhava. 

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Merece uma linha inteira de risos, daquele que eu considero o mais irônico. Inclusive eu, como muitos de meus colegas, praticamente pagava para trabalhar.

Esse não foi o meu primeiro emprego. Mas foi a minha primeira e maior decepção com a publicidade. Saí de lá com a seguinte frase, dita em lágrimas pelo meu chefe: “Não sei como você aguentou até agora. Não sei como você aguentou tudo isso. Desculpe.” 

Como eu falei lá em cima, mesmo que dependesse da minha saúde mental, eu precisava provar que eu conseguia. Consegui gente. Consegui ficar miserável. 

Mas não desisti da publicidade, porque não era dela que eu não gostava.

Depois de muita terapia, remédio antidepressivo, floral, homeopatia, coaching, meditação, retiros espirituais, terapia (já falei terapia?), consegui também ser grata (de verdade). 

Sorte a minha que vivi isso bem cedo. Que pude presenciar o pior da publicidade, para poder fazer o melhor dela. Que pude presenciar o pior que existe em formas de trabalho, para poder ficar atenta e escolher a dedo o que quero fazer, onde quero estar e com quem quero trabalhar. 

Isso vale para todas as esferas da minha vida. Profissional e pessoal. Já que, na minha opinião, isso nem pode ser separado. 

Não significa, de forma alguma, que faço só o que gosto, que não entro em conflitos, que não tenho problemas no trabalho, que não tenho frustrações, que não tento me provar. Isso seria impossível. 

Mas aprendi e estou aprendendo (não sozinha, claro) a observar até onde posso ir. Até onde aquilo (trabalho, situação, relacionamento – esse último eu sou bem ruim ainda) me deixa estar bem comigo.

Aprendi, principalmente, a dar atenção a minha saúde mental e física. E hoje o que me guia para as minhas decisões é meu grau de qualidade de vida. Que bonito né? Sim. Fácil? Não.

Fato é que aprendi tanto com isso a ponto de o meu terapeuta me questionar sobre um case de sucesso que eu tive na minha vida e eu ter a ousadia de responder: eu mesma.

Hoje minha ansiedade conseguiu se tornar uma companhia agradável, até. É o que me faz ter aquela certa pressa. Em viver, claro. Bem e na calmaria (contrapondo a ansiedade), onde mais gosto de estar, onde minha criatividade fica enlouquecida de feliz. 

Eu ia finalizar dizendo que deixo o trauma descrito nessa história aqui, em 2019. Mas 365 dias são muitos dias pra deixar um trauma. Então eu deixo lá atrás, onde já deveria ter ficado há muito tempo.

Que mais pessoas possam enxergar as infinitas possibilidades que temos nas nossas vidas. E que, se por um acaso, você que me lê, trabalha ou é dono ou dona de agência, possa se libertar desse passado escroto da publicidade (se ainda não se libertou).

2020 tá aí gente. Não vivamos como em uma série americana dos anos 60, que tem no Netflix.

Como já diria Mallu Magalhães:

“Pode falar que eu não ligo / Agora, amigo, eu tô em outra / Eu tô ficando velha / Eu tô ficando louca.

Pode avisar que eu num vou, ô ô ô / Eu tô na estrada / Eu nunca sei da hora / Eu nunca sei de nada

Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho / Que hoje eu passei batom vermelho.

E é a prova d’água.